Os Trabalhadores do Mar

 


 

Texto-fonte:

Os Trabalhadores do Mar, Victor Hugo,

São Paulo: Editora Nova Cultural, 2002.

 

Publicado originalmente como Os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo.Tradução de Machado de Assis,

 Rio de Janeiro: Tipografia Perseverança, 1866.

 

 

 

 

ÍNDICE

 

 

DEDICATÓRIA

 

PRÓLOGO

 

PRIMEIRA PARTE

 

LIVRO PRIMEIRO

 

CAPÍTULO PRIMEIRO

 

CAPÍTULO II

 

CAPÍTULO III

 

CAPÍTULO IV

 

CAPÍTULO V

 

CAPÍTULO VI

 

CAPÍTULO VII

 

CAPÍTULO VIII

 

LIVRO SEGUNDO

 

CAPÍTULO PRIMEIRO

 

CAPÍTULO II

 

CAPÍTULO III

 

CAPÍTULO IV

 

LIVRO TERCEIRO

 

CAPÍTULO PRIMEIRO

 

CAPÍTULO II

 

CAPÍTULO III

 

CAPÍTULO IV

 

CAPÍTULO V

 

CAPÍTULO VI

 

CAPÍTULO VII

 

CAPÍTULO VIII

 

CAPÍTULO IX

 

CAPÍTULO X

 

CAPÍTULO XI

 

CAPÍTULO XII

 

CAPÍTULO XIII

 

LIVRO QUARTO

 

CAPÍTULO PRIMEIRO

 

CAPÍTULO II

 

CAPÍTULO III

 

CAPÍTULO IV

 

CAPÍTULO V

 

CAPÍTULO VI

 

CAPÍTULO VII

 

LIVRO QUINTO

 

CAPÍTULO PRIMEIRO

 

CAPÍTULO II

 

CAPÍTULO III

 

CAPÍTULO IV

 

CAPÍTULO V

 

CAPÍTULO VI

 

CAPÍTULO VII

 

CAPÍTULO VIII

 

CAPÍTULO IX

 

LIVRO SEXTO

 

CAPÍTULO PRIMEIRO

 

CAPÍTULO II

 

CAPÍTULO III

 

CAPÍTULO IV

 

CAPÍTULO V

 

CAPÍTULO VI

 

CAPÍTULO VII

 

LIVRO SÉTIMO

 

CAPÍTULO PRIMEIRO

 

CAPÍTULO II

 

CAPÍTULO III

 

SEGUNDA PARTE

 

LIVRO PRIMEIRO

 

CAPÍTULO PRIMEIRO

 

CAPÍTULO II

 

CAPÍTULO III

 

CAPÍTULO IV

 

CAPÍTULO V

 

CAPÍTULO VI

 

CAPÍTULO VII

 

CAPÍTULO VIII

 

CAPÍTULO IX

 

CAPÍTULO X

 

CAPÍTULO XI

 

CAPÍTULO XII

 

CAPÍTULO XIII

 

LIVRO SEGUNDO

 

CAPÍTULO PRIMEIRO

 

CAPÍTULO II

 

CAPÍTULO III

 

CAPÍTULO IV

 

CAPÍTULO V

 

CAPÍTULO VI

 

CAPÍTULO VII

 

CAPÍTULO VIII

 

CAPÍTULO IX

 

CAPÍTULO X

 

CAPÍTULO XI

 

LIVRO TERCEIRO

 

CAPÍTULO PRIMEIRO

 

CAPÍTULO II

 

CAPÍTULO III

 

CAPÍTULO IV

 

CAPÍTULO V

 

CAPÍTULO VI

 

LIVRO QUARTO

 

CAPÍTULO PRIMEIRO

 

CAPÍTULO II

 

CAPÍTULO III

 

CAPÍTULO IV

 

CAPÍTULO V

 

CAPÍTULO VI

 

CAPÍTULO VII

 

TERCEIRA PARTE

 

LIVRO PRIMEIRO

 

CAPÍTULO PRIMEIRO

 

CAPÍTULO II

 

LIVRO SEGUNDO

 

CAPÍTULO PRIMEIRO

 

CAPÍTULO II

 

LIVRO TERCEIRO

 

CAPÍTULO PRIMEIRO

 

CAPÍTULO II

 

CAPÍTULO III

 

CAPÍTULO IV

 

CAPÍTULO V

 

 

 

 

 

 

 

DEDICATÓRIA

 

Dedico este livro ao rochedo de hospitalidade e de liberdade, a este canto da velha Normandia onde vive o nobre e pequeno povo do mar, à ilha de Guernesey, severa e branda, meu atual asilo, meu provável túmulo.

 

V.H.

 

 

 

PRÓLOGO

 

A religião, a sociedade, a natureza: tais são as três lutas do homem. Estas três lutas são ao mesmo tempo as suas três necessidades; precisa crer, daí o tempo; precisa criar, daí a cidade; precisa viver, daí a charrua e o navio. Mas há três guerras nestas três soluções. Sai de todas a misteriosa dificuldade da vida. O homem tem de lutar com o obstáculo sob a forma superstição, sob a forma preconceito e sob a forma elemento. Tríplice ananke pesa sobre nós, o ananke dos dogmas, o ananke das leis, o ananke das coisas. Na Notre-Dame de Paris, o autor denunciou o primeiro; nos Miseráveis, mostrou o segundo; neste livro indica o terceiro.

 

A estas três fatalidades que envolvem o homem, junta-se a fatalidade interior, o ananke supremo, o coração humano.

 

Hauteville-House, março de 1866.

 

 

 

PRIMEIRA PARTE

O SR. CLUBIN

 

LIVRO PRIMEIRO

ELEMENTOS DE UMA MÁ REPUTAÇÃO

 

CAPÍTULO PRIMEIRO

PALAVRA ESCRITA EM UMA PÁGINA BRANCA

 

O Christmas (Natal) de 1822... foi notável em Guernesey. Caiu neve naquele dia. Nas ilhas da Mancha, inverno em que há neve é memorável; a neve é um acontecimento.

 

Naquela manhã de Christmas a estrada que orla o mar de Saint-Pierre-Port ao Vale assemelhava-se a um lençol branco: nevara desde a meia-noite até o romper do dia.

 

Pelas 9 horas, pouco depois de nascer o sol, como não era ainda ocasião de os anglicanos irem à Igreja de Saint-Sampson e os wesleyanos à Capela Eldad, o caminho estava quase deserto. Na parte da estrada compreendida entre a primeira volta e a segunda havia apenas três viandantes, um menino, um homem e uma mulher.

 

Estes três viandantes, caminhando separados uns dos outros, não tinham visivelmente relação alguma entre si. O menino, de cerca de oito anos, parara e olhava para a neve com curiosidade. O homem, seguindo atrás da mulher, uns cem passos, dirigia-se, como ela, para o lado de Saint-Sampson.

 

Era ele moço ainda e parecia ser operário ou marinheiro. Vestia as roupas ordinárias, isto é, uma grossa camisa de pano escuro e uma calça de pernas alcatroadas, o que parecia indicar que, apesar da festa, não iria à igreja. Os grossos sapatos de couro cru e solas tacheadas de ferro deixavam sobre a neve uma marca, que mais se assemelhava a uma fechadura de prisão que ao pé de um homem.

 

A viandante, essa evidentemente trajava roupa de ir à igreja; envolvia-se em uma comprida manta acolchoada de estofo de seda preta, debaixo da qual apertava-lhe faceiramente o corpo um vestido de fazenda da Irlanda com listras brancas e cor-de-rosa, e, se não fossem as meias vermelhas, tomá-la-iam por uma parisiense. Caminhava com desembaraço e viveza; e pelo andar, que mostrava não lhe ter ainda pesado a vida, conhecia-se que era moça. Tinha aquela graça fugitiva que indica a mais delicada transição, a adolescência, a mistura dos dois crepúsculos, o princípio de uma mulher e o fim de uma menina.

 

O homem não reparava nela.

 

De súbito, perto de uma moita de azinheiras, que forma o ângulo de uma horta rústica, no lugar denominado Basses Maisons, voltou-se a moça, e esse movimento chamou a atenção do homem.

 

Parou, pareceu reparar nele um instante, abaixou-se, e o homem julgou vê-la escrever com o dedo alguma coisa na neve. Levantou-se e pôs-se de novo a caminho com passo mais apressado, voltou-se ainda, mas desta vez rindo, e desapareceu pela esquerda, seguindo o carreiro guarnecido de sebes, que leva ao castelo de Lierre. O homem, quando ela se voltou pela segunda vez, reconheceu Déruchette, linda mocinha do lugar. Mas não sentia necessidade alguma de apressar o passo.

 

Alguns instantes depois estava junto à moita de azinheiras no ângulo da horta. Já não pensava na passageira, e é provável que, se nessa ocasião pulasse um golfinho no mar ou um cardeal nos arbustos, passaria com o olhar fixo no cardeal ou no golfinho. Casualmente, tinha os olhos baixos, e assim os levou maquinalmente ao lugar em que parara a menina. Dois pezinhos aí estavam impressos e ao lado deles a palavra escrita por ela: Gilliatt.

 

Era este o nome dele.

 

Chamava-se Gilliatt.

 

Ficou por muito tempo imóvel, contemplando o nome, os pezinhos, a neve; e depois continuou pensativo o seu caminho.

 

 

 

CAPÍTULO II

O TUTU DA RUA

 

Gilliatt residia na paróquia de Saint-Sampson, onde não era estimado, e havia razões para isso.

 

Em primeiro lugar, morava em uma casa mal-assombrada.

 

Acontece algumas vezes em Jersey e Guernesey, no campo e até na cidade, que, ao passar por um lugar deserto ou por uma rua muito habitada, vê-se uma casa cuja entrada está obstruída. O azevinho cresce à porta, as janelas do rés-do-chão estão fechadas por feios emplastros de tábuas pregadas; as dos andares superiores estão fechadas e abertas ao mesmo tempo: há ferrolhos, mas não há vidros. No pátio, se o há, alastra-se a erva e caem os muros; se há jardim, nascem a urtiga, o espinheiro, a cicuta; raros insetos esvoaçam. Racham-se as chaminés, o teto se abate; o que se vê dos quartos está arruinado, a madeira podre, a pedra carcomida; cai o papel das paredes. Podem-se estudar aí os antigos gostos do papel pintado, os grifos do Império, as sanefas em forma de crescente do Diretório, os balaústres e cipos de Luís XVI. A espessura das teias de aranha, cheias de moscas, indica a profunda tranqüilidade em que vivem aqueles insetos. Algumas vezes vê-se um púcaro quebrado sobre uma tábua.

 

É uma casa mal-assombrada. O diabo aparece lá durante a noite.

 

A casa, como o homem, pode tornar-se cadáver; basta que uma superstição a mate. Então é terrível.

 

Essas casas mortas não são raras nas ilhas da Mancha.

 

As populações campesinas e marítimas não vivem tranqüilas a respeito do diabo. As da Mancha, arquipélago inglês e litoral francês, têm a respeito dele noções muito precisas. O diabo possui delegados por todo o mundo. É certo que Belphégor é embaixador do inferno na França, Hutgin na Itália, Belial na Turquia, Thamuz na Espanha, Martinet na Suíça e Mammon na Inglaterra. Satanás é um imperador, como um outro qualquer. Satanás César. A casa dele é muito bem servida: Dagon é o saquetário; Succor Benoth, chefe dos eunucos; Asmodeu, banqueiro dos jogos; Kobal, diretor de teatro; Verdelet, grão-mestre de cerimônias, e Nybbas, bobo. Wierus, homem de ciência, bom estrigólogo e demonógrafo distinto, chama Nybbas — o grande parodista.

 

Os pescadores normandos da Mancha precisam aprecatar-se quando andam no mar, por causa das artes do diabo. Por muito tempo acreditou-se que São Maclou habitava o grande rochedo quadrado Ortach, situado ao largo entre Aurigny e Casquets, e muitos velhos marinheiros de outros tempos afirmavam tê-lo visto não poucas vezes sentado e lendo um livro. Por isso os marítimos, quando passavam, ajoelhavam-se muitas vezes diante do rochedo Ortach, até que um dia dissipou-se a fábula e esclareceu-se a verdade. Descobriu-se e sabe-se hoje que quem habita aquele rochedo não é um santo, mas sim um diabo, chamado Jochmus, que por muitos séculos teve a malícia de fazer-se passar por São Maclou. Demais, a própria Igreja cai em tais enganos. Os diabos Raguhel, Oribel e Tobiel foram santos, até que em 745 o Papa Zacarias, tendo-lhes tomado o faro, deitou-os fora. Para fazer tais expulsões, que são muito úteis, é necessário ser muito conhecedor de diabos.

 

Conta a gente velha da terra, mas estes casos pertencem ao século passado, que a população católica do arquipélago normando estivera outrora, bem a seu pesar, mais em comunicação com o diabo do que a população huguenote. Ignoramos a razão, mas a verdade é que a minoria católica andou outrora muito incomodada por ele.

 

Afeiçoara-se aos católicos e procurava freqüentá-los, o que leva a crer que o diabo é antes católico que protestante.

 

Uma de suas mais insuportáveis liberdades era visitar a noite os leitos conjugais católicos, quando os maridos dormiam de todo, e as mulheres, a meio. Disto resultavam equívocos. Patouillet pensava que Voltaire nascera assim. Não é inverossímil. É caso perfeitamente conhecido e descrito nos formulários de exorcismo sob o título de erroribus nocturnis et de semine diabolorum.

 

O diabo fez violências destas especialmente em Saint-Hélier, em fins do século passado: é provável que para punição dos crimes da revolução. As conseqüências dos excessos revolucionários são incalculáveis. Fosse como fosse, essa aparição possível do demônio durante a noite, quando reina a escuridão e todos dormem, inquietava muitas mulheres ortodoxas. Dar nascimento a um Voltaire não é coisa agradável. Uma delas, assustada, foi consultar o confessor sobre a maneira de desfazer-se em tempo o qüiproquó.

 

O confessor respondeu: — Para saber se está com o diabo ou com seu marido, apalpe-lhe a cabeça e, se encontrar pontas, pode estar certa. — De quê? — perguntou a mulher.

 

A casa em que morava Gilliatt tinha sido mal-assombrada e já não era; portanto, tornava-se mais suspeita; é sabido que, quando um feiticeiro vem habitar uma casa visitada pelo diabo, este, julgando-a bem guardada, tem a delicadeza de não voltar, salvo o caso de ser chamado, como médico.

 

Chamava-se a casa O Tutu da Rua. Era situada na ponta de uma língua de terra, ou antes, de rochedo que formava uma pequena angra de bastante profundidade na enseada de Houmet Paradis. A casa estava sozinha nessa ponta, quase fora da ilha, tendo apenas a terra suficiente para um pequeno jardim, às vezes inundado por ocasião das marés altas.

 

Entre o porto de Saint-Sampson e a enseada de Houmet Paradis há uma grande colina, sobre a qual levanta-se um amontoado de torres e de hera chamado o Castelo do Vale ou do Arcanjo, de sorte que de Saint-Sampson não se via O Tutu da Rua.

 

Não são raros os feiticeiros em Guernesey. Exercem a profissão em certas paróquias, apesar de vivermos no século XIX. Praticam ações verdadeiramente criminosas. Fazem ferver ouro. Colhem ervas à meia-noite. Olham de través para o gado. Consultam-nos; eles mandam buscar em garrafas a água dos doentes, e dizem em voz baixa: a água parece bem triste. Afirmou um feiticeiro, em março de 1857, que na água de um doente havia sete diabos. São temidos e temíveis. Há pouco tempo um deles enfeitiçou um padeiro e mais o forno. Outro tem a perversidade de fechar e lacrar uma porção de sobrecartas, sem haver nada dentro. Outro chega ao ponto de ter em casa, em cima de uma tábua, três garrafas com um B em cada uma. Estes fatos monstruosos são conhecidos. Alguns feiticeiros são complacentes e, por 2 ou 3 guinéus, incumbem-se de sofrer as nossas moléstias. Rolam e gritam em cima da cama. Enquanto eles se estorcem, diz o doente: “E esta! já estou bom!” Outros curam todas as moléstias amarrando um lenço ao redor do corpo do doente. É um remédio tão simples que admira não se ter ainda ninguém lembrado dele.

 

No século passado o tribunal real de Guernesey colocava-os sobre uma porção de achas de lenha e queimava-os vivos. Presentemente condena-os a oito semanas de prisão, quatro a pão e água e quatro no segredo, alternando. Amant alterna catenoe.

 

A última queima de feiticeiros em Guernesey foi em 1747, sendo teatro do espetáculo a praça de Bordage, que, de 1565 a 1700, viu queimarem-se onze feiticeiros. Em geral esses culpados confessavam seus crimes: eram para isso ajudados pela tortura.

 

A praça Bordage prestou serviços à sociedade e à religião. Queimaram-se aí os heréticos. No tempo de Maria Tudor, entre outros huguenotes, queimou-se uma mãe e duas filhas: a mãe chamava-se Perrotine Massy. Uma das filhas estava grávida e teve o sucesso sobre o braseiro.

 

A crônica diz: “Arrebentou-lhe o ventre”. Saiu desse ventre um menino vivo; o recém-nascido rolou na fogueira, um tal House apanhou-o. O bailio, Hélier Grosselin, bom católico, mandou atirar a criança ao fogo.

 

 

 

CAPÍTULO III

PARA TUA MULHER, QUANDO TE CASARES

 

Voltemos a Gilliatt.

 

Contava-se na terra que uma mulher, tendo consigo um menino, viera em fins da revolução habitar Guernesey. Era inglesa, ou talvez francesa. O nome dela, qualquer que fosse, a pronúncia guernesiana e a ortografia dos camponeses transformaram em Gilliatt. Vivia sozinha com o menino, que, diziam uns, era seu sobrinho, outros, filho, outros, neto, e outros, coisa nenhuma. Possuía um dinheirinho, de que vivia pobremente. Comprara um pedaço de terra na Sergentée e outro em Roque-Crespel, perto de Rocquaine. A casa Tutu da Rua estava nesse tempo mal-assombrada. Havia mais de trinta anos que ninguém morava nela. Caía aos pedaços. O jardim, sempre inundado pelo mar, já nada produzia.

 

Além dos ruídos noturnos e das luzes, a casa era particularmente aterradora por isto: se à noite se deixava sobre a lareira um novelo de lã, agulhas e um prato cheio de sopa, no dia seguinte de manhã encontrava-se a sopa comida, o prato vazio e um par de luvas feito. Pôs-se à venda aquele pardieiro com o diabo que estava dentro, por algumas libras esterlinas. Aquela mulher comprou-o, evidentemente tentada pelo diabo. Ou pela barateza.

 

Fez mais do que comprá-lo, foi morar lá com o filho, e desde então a casa sossegou. “Esta casa achou o que queria”, dizia a gente da terra. Cessaram as aparições. Já se não ouviam gritos ao romper do dia. Já não havia outra luz além do sebo acendido à noite pela boa mulher. Vela de feiticeira vale a tocha do diabo.

 

Esta explicação satisfez o público.

 

A mulher utilizava o quarto de jeira de terra que possuía. Tinha uma boa vaca, de cujo leite fazia manteiga. Colhia frutas e batatas Golden Drops. Vendia, como qualquer outra pessoa, ervas, cebolas e favas. Não costumava ir ao mercado vender a sua colheita; mandava-a por Guilbert Falliot. O registro de Falliot mostra que ele vendeu para ela, uma vez, 12 alqueires de batatas chamadas de três meses, das mais temporãs. Fizeram-se na casa apenas os reparos necessários para se poder habitar nela. Só chovia nos quartos quando fazia muito mau tempo. Compunha-se de dois pavimentos, um rés-de-chão e um celeiro. No térreo havia três salas; dormia-se em duas, comia-se na terceira. Subia-se ao celeiro por uma escada. A mulher cozinhava e ensinava a ler ao filho. Nunca ia à igreja, e isto, depois de muito considerado, serviu para que a declarassem francesa. Não ir a parte alguma é coisa grave.

 

Em suma, era gente que nada inculcava.

 

É provável que fosse francesa. Os vulcões arrojam pedras, as revoluções homens. Espalham-se famílias a grandes distâncias, deslocam-se os destinos, separam-se os grupos dispersos às migalhas; cai gente das nuvens, uns na Alemanha, outros na Inglaterra, outros na América. Pasmam os naturais dos países. Donde vêm estes desconhecidos? Foi aquele Vesúvio, que fumega além, que os expeliu de si. Dão-se nomes a esses aerólitos, a esses indivíduos expulsos e perdidos, a esses eliminados da sorte: chamam-nos emigrados, refugiados, aventureiros. Se ficam, toleram-nos: alegram-se quando eles vão embora. Algumas vezes são entes absolutamente inofensivos, estranhos, as mulheres ao menos, aos acontecimentos que os proscreveram, não tendo rancores nem cólera, projéteis contra a vontade, espantadíssimos de o serem. Enraízam-se como podem. Não fazem mal a ninguém e não compreendem o que lhes acontece. Vi um dia uma pobre moita de ervas atirada aos ares pela explosão de uma mina. A Revolução Francesa, mais do que nenhuma explosão, fez desses jatos longínquos.

 

A mulher, que em Guernesey era conhecida por Gilliatt, foi talvez aquela moita de erva.

 

Envelheceu a mulher. Cresceu o menino. Viviam ambos sós; todos fugiam deles, mas eles bastavam-se a si próprios. Loba e filhote lambem-se mutuamente. Foi esta uma das fórmulas que lhes aplicou a benevolência da vizinhança.

 

O menino tornou-se adolescente, o adolescente homem, e então, devendo caírem sempre as velhas crostas da vida, a mãe veio a falecer. Constava a herança das terras de Sergentée e da Roque-Crespel, da casa mal-assombrada, e mais, diz o inventário oficial, de 100 guinéus de ouro, dentro de um pé de meia. A casa estava mobiliada com duas arcas de carvalho, duas camas, seis cadeiras, uma mesa e os utensílios necessários. Havia em cima de uma tábua uns poucos de livros e, a um canto, uma canastra, que nada tinha de misteriosa, e que devia ser aberta na ocasião do inventário. A canastra era de couro ruivo, cheia de arabescos de pregos de cobre e estrelas de estanho, e continha um enxoval de mulher, novo e completo, de excelente linho de Dunquerque, camisa e saia, cortes de vestidos de seda e em cima de tudo um papel escrito pela finada: “Para tua mulher, quando te casares”.

 

A morte da mãe acabrunhou o filho. Era rústico, tornou-se feroz. Completou-se-lhe o deserto. Era isolamento, tornou-se vácuo. Quando há duas criaturas, a vida é possível. Havendo uma só, parece que nem se pode arrastá-la. Renuncia-se a ela. É a primeira forma de desespero. Mais tarde compreende-se que o dever é uma série de aceites. Contempla-se a morte, contempla-se a vida, consente-se na última. Mas é um consentimento que sangra.

 

Gilliatt era moço, a ferida cicatrizou. Naquela idade as carnes do coração tornam a unir-se. A tristeza, dissipando-se-lhe a pouco e pouco, misturou-se à natureza em redor dele, tornou-se uma espécie de encanto, atraiu-o para perto das coisas e longe dos homens, e amalgamou cada vez mais aquela alma e a solidão.

 

 

 

CAPÍTULO IV

IMPOPULARIDADE

 

Já o dissemos. Gilliatt não era estimado na paróquia. Antipatia natural. Sobravam motivos. O primeiro, acabamos de explicá-lo, era a casa em que morava. Depois a origem dele. Quem era aquela mulher? E este menino? A gente não gosta de enigmas a respeito de estrangeiros. Depois, trajava uma roupa de operário, tendo aliás com que viver, embora não fosse rico. Depois, o jardim, que ele conseguia cultivar e donde colhia batatas, apesar dos ventos de equinócio. Depois, os alfarrábios que ele lia.

 

Outras razões, ainda.

 

Por que motivo vivia solitário? A casa mal-assombrada era uma espécie de lazareto; conservavam Gilliatt em quarentena; deste modo, era muito simples que o seu isolamento causasse espanto, e o responsabilizassem pela solidão em que o deixavam.

 

Nunca ia à igreja. Saía muitas vezes à noite. Falava aos feiticeiros. Uma vez viram-no sentado sobre a relva com ar espantado. Freqüentava o dólmen de Ancresse e as pedras fatídicas que existem espalhadas pelo campo. Havia quase certeza de terem-no visto cumprimentar polidamente a Rocha que Canta. Comprava todos os pássaros que lhe levavam, e soltava-os. Era civil para com as pessoas das ruas de Saint-Sampson, mas preferia dar uma volta para não passar por lá. Pescava muitas vezes e sempre apanhava peixe. Trabalhava no jardim aos domingos. Tinha um bagpipe (gaita-de-foles), que comprara a uns soldados escoceses, ao passarem por Guernesey, e tocava nele sobre os rochedos, à beira do mar, ao cair da noite. Gesticulava como um semeador. Que virá a ser uma terra com um homem destes?

 

Quanto aos livros que haviam pertencido à mulher finada, esses eram assustadores. Quando o Reverendo Jaquemin Herodes, cura de Saint-Sampson, entrou na casa para encomendar a mulher, leu no lombo desses livros os títulos seguintes: Dicionário de Rosier, Cândido, por Voltaire; Aviso ao Povo acerca da Sua Saúde, por Tissot. Dissera um fidalgo francês emigrado, retirado em Saint-Sampson, que “aquele Tissot devia ser o que carregou a cabeça da Princesa de Lamballe”.

 

O reverendo notou, num dos livros, este título verdadeiramente extravagante e ameaçador: De Ruibarbaro.

 

Cumpre observar que, sendo a obra escrita em latim, como indica o título, era duvidoso que Gilliatt, que não sabia latim, lesse aquela obra.

 

Mas são exatamente os livros que a gente não lê os que mais condenam. A Inquisição da Espanha julgou esse caso, e pô-lo fora de dúvida.

 

Demais, o livro era o tratado do Doutor Tilingius Sobre o Ruibarbaro, publicado na Alemanha em 1679.

 

Não havia certeza de que Gilliatt não fizesse bruxarias, filtros e sortilégios. Tinha frascos em casa.

 

Por que motivo ia ele passear, às vezes até a meia-noite, nos penhascos da costa? Era evidentemente para conversar com a gente maligna que anda à noite nas praias no meio das exalações.

 

Ajudou ele uma vez a feiticeira de Torteval a desatolar a carroça. Era uma velha, por nome Moutonne Gahy.

 

Tendo-se feito um recenseamento na ilha, perguntou-se-lhe a profissão, e ele respondeu: “Pescador, quando há peixe”. Vejam lá se a gente da ilha podia gostar de tais respostas.

 

Pobreza e riqueza são relativas. Gilliatt tinha terras e uma casa, e, comparado aos que não possuem coisa nenhuma, não era pobre. Um dia, para experimentá-lo, e talvez para inculcar-se, porque há mulheres que estariam prontas a desposar o diabo rico, disse uma rapariga a Gilliatt: “Quando se casa?” A resposta dele foi: “Casar-me-ei quando se casar a Rocha que Canta”.

 

A Rocha que Canta era uma grande pedra colocada a pique numa horta rústica perto do Senhor Lemezurier de Fry. Esta pedra inspira desconfiança. Não se sabe o que ela faz ali. Ouve-se cantar um galo invisível, coisa extremamente desagradável. Verificou-se que a pedra foi posta ali por uns fantasmas.

 

De noite, quando troveja, se aparecem homens a voar entre as nuvens avermelhadas, são os tais fantasmas. Há uma mulher que mora no Grande Mielles e que os conhece. Uma noite, em que havia fantasmas numa encruzilhada, essa mulher, vendo um carroceiro que não sabia por onde seguir, gritou-lhe: “Pergunte-lhes o caminho; é gente benéfica, e bem-educada, com quem se pode conversar” — Aquela mulher é com certeza feiticeira.

 

O judicioso e sábio Rei Jacques I mandava ferver ainda vivas as mulheres dessa espécie, provava o caldo e, pelo gosto, dizia: “É feiticeira”, ou: “Não é feiticeira”.

 

É para lamentar que os reis hoje não tenham daqueles talentos, que faziam compreender a utilidade da instituição.

 

Gilliatt, não sem motivos sérios, tinha fama de feiticeiro.

 

Num temporal, à meia-noite, estando Gilliatt sozinho no mar, dentro de uma lancha, do lado da Someilleuse, ouviram-no perguntar:

 

— Há lugar para passar?

 

Respondeu-lhe uma voz de cima dos penhascos:

 

— Pois não! ânimo.

 

A quem falaria ele senão a alguém que lhe respondia? Parece-nos que isto é uma prova.

 

Outra noite de temporal, tão negro que nada se via pertinho da Catiau-Roque, que é uma dupla fileira de rochedos onde os feiticeiros e as cabras vão dançar à sexta-feira, houve quem reconhecesse a voz de Gilliatt no meio deste terrível diálogo:

 

— Como está Vésin Brovard? (Era um pedreiro que tinha caído de um telhado.)

 

— Vai sarando.

 

— Deveras! pois caiu de um lugar tão alto como aquela estaca. Admira não ficar despedaçado.

 

— Bom tempo foi a semana passada para a colheita das praias.

 

— Melhor do que hoje.

 

— Decerto! não haverá muito peixe no mercado.

 

— O vento é rijo.

 

— Não se podem deitar as redes.

 

— Como vai a Catarina?

 

— Está embruxada.

 

A Catarina era evidentemente alguma feiticeira.

 

Gilliatt, ao que parecia, trabalhava de noite. Ao menos, ninguém duvidava disso.

 

Viam-no, algumas vezes, espalhar pelo chão a água de um púcaro. Ora, a água espalhada pelo chão traça a forma dos diabos.

 

Existem na estrada de Saint-Sampson três pedras dispostas em forma de escada. Na plataforma houve em outro tempo uma cruz, e, se não foi cruz, era forca. Aquelas pedras são malignas.

 

Muita gente esperta, e digna de crédito, afirmava ter visto, perto dessas pedras, Gilliatt conversando com um sapo. Ora, não há sapos em Guernesey; Guernesey tem todas as cobras, e Jersey todos os sapos. Aquele sapo veio naturalmente de Jersey, a nado, para falar a Gilliatt. A conversa era amigável.

 

Todos estes fatos estavam averiguados; e a prova disso é que as três pedras lá estão. Quem duvidar pode ir vê-las, e mesmo a alguma distância há uma casa em cuja esquina lê-se isto: “Mercador de gato morto e vivo, cordas velhas, ferros, ossos e fumo de mascar; é pronto na paga e na atenção”.

 

Só de má-fé se pode contestar a existência daquelas pedras e daquela casa. Tudo isso fazia mal a Gilliatt.

 

Só os ignorantes não sabem que o maior perigo dos mares da Mancha é o que se chama Rei dos Auxcriniers. Não há personagem marítimo mais temível. Quem o vê naufraga logo entre uma e outra Saint-Michel. É pequeno e surdo, por ser anão e rei. Sabe o nome de quantos morreram no mar, e em que lugar estão. Conhece a fundo o cemitério Oceano. Cabeça larga em baixo e estreita em cima, corpo cheio, barriga viscosa e disforme, nodosidades no crânio, pernas curtas, braços compridos, barbatanas em vez de pés, garras em vez de mãos, cara larga e verde, tal é aquele rei. As garras são achatadas, as barbatanas têm unhas. Imaginem um peixe com cara de homem e forma de espectro. Para vencê-lo é preciso exorcismá-lo ou pescá-lo. Fora disso, é sinistro. Vê-lo é perigoso. Descobrem-se acima das ondas e do marulho, através da espessura do nevoeiro, umas feições de gente; testa curta, nariz esborrachado, orelhas chatas, boca imensa e sem dentes, beiços esverdeados, sobrancelhas angulosas, olhos vivos e grandes. O rei torna-se vermelho quando o relâmpago é lívido, descorado quando o relâmpago é vermelho. Tem barba gotejante e rígida, cortada em quadro, que lhe cai sobre uma membrana em forma de mantéu de peregrino; o mantéu é adornado de catorze conchas, sete na frente, sete nas costas. As conchas são extraordinárias para os que conhecem conchas. O rei só é visível no mar violento. É o dançarino lúgubre da tempestade. Vê-se a forma dele esboçada no nevoeiro e na chuva. O umbigo é hediondo. Uma casca de escamas guarda-lhe os quadris à semelhança de colete. O rei levanta-se de pé, sobre as vagas que irrompem à pressão dos ventos e vão rolar-se como os cavacos que saem do rabote do marceneiro. Conserva-se todo fora da espuma, e, quando avista ao longe os navios em perigo, entra a bailar, descorado na sombra, com a face iluminada por um vago sorriso, feio e demente no aspecto. Mau encontro esse.

 

Na época em que Gilliatt era uma das preocupações de Saint-Sampson, as últimas pessoas que tinham visto o rei da Mancha declaravam que já não havia no mantéu mais de treze conchas. Treze; era mais perigoso ainda. Mas onde foi parar a outra concha? Deu-a a alguém? A quem seria? Ninguém podia dizê-lo, todos se limitavam às conjecturas. O que é certo é que o Sr. Lupin Matier, do lugar de Godaines, homem de posição, proprietário taxado em catorze bairros, estava pronto a jurar que vira uma vez, nas mãos de Gilliatt, uma concha muito esquisita.

 

Não raras vezes se ouviam os campônios conversarem entre si:

 

— Vizinho, não é verdade que este boi é magnífico?

 

— Inchado, vizinho.

 

— Homem, é verdade.

 

— Tem mais sebo do que carne.

 

— Deveras!

 

— Estais certo de que Gilliatt não lhe pôs os olhos em cima?

 

Gilliatt parava nos campos, ao pé dos lavradores, e nos jardins, ao pé dos jardineiros, e dizia-lhes palavras misteriosas:

 

— Quando florescer a escabiosa, semeia o centeio.

 

— O freixo enfolha, acaba-se a neve.

 

— Solstício de verão, cardo em flor.

 

— Se não chover em junho, o trigo há de espigar. Tomem cuidado com as plantas nocivas.

 

— A cerejeira está dando frutos, desconfia da lua cheia:

 

— Se o tempo, no sexto dia da lua, conservar-se como no quarto dia ou como no quinto, há de ser o mesmo em toda a lua, nove vezes em doze no primeiro caso, e onze vezes em doze no segundo.

 

— Vigia o teu vizinho com quem andas em processo. Cautela com as espertezas. Porco que bebe leite quente estoura. Vaca que leva alho nos dentes não come.

 

— O peixe está gerando, guarda-te das febres.

 

— As rãs aparecem, semeia os melões.

 

— A anêmona enflora, semeia a cevada.

 

— A tília enflora, ceifa os campos.

 

— O choupo enflora, fecha as estufas.

 

E, coisa terrível, quem seguisse os seus conselhos achá-los-ia muito bons.

 

Uma noite de junho, em que ele tocava o bagpipe, sobre os cabedelos da praia, do lado da Damie de Fontenelle não se pôde pescar uma só cavala.

 

Outra noite, vazando a maré aconteceu tombar na praia, em frente da casa mal-assombrada, uma carreta cheia de sargaço. Gilliatt receou naturalmente ser chamado à justiça, pois atirou-se a levantar a carreta, pondo-lhe outra vez toda a carga que se espalhara no chão.

 

Uma menina da vizinhança tinha muitos piolhos; Gilliatt foi a Saint-Pierre-Port, trouxe de lá um ungüento e o esfregou à cabeça da pequena; tirou-lhe os piolhos, o que prova que foi ele quem lhos deitou.

 

Sabe toda a gente que há feitiço para fazer criar piolhos na cabeça dos outros.

 

Dizia-se que Gilliatt olhava para os poços, o que é perigoso quando é mau-olhado; e o caso é que um dia, nos Arculons, a água de um poço tornou-se doentia. A dona do poço disse a Gilliatt: “Veja esta água”. E apresentou-lhe um copo cheio. Gilliatt confessou: “A água está grossa”, disse ele; “é exato”. A boa mulher, que desconfiava, disse-lhe: “Pois cure-a”. Gilliatt perguntou-lhe se ela tinha algum curral, se o curral tinha esgoto, e se o rego do esgoto passava perto do poço. A boa mulher disse que sim. Gilliatt entrou no curral, desviou o rego do esgoto, e a água do poço ficou boa. Ora, pensava a gente da terra, nenhum poço fica insalubre, nem é curado depois, sem motivo; a doença do poço não é natural; é difícil não acreditar que Gilliatt tenha enguiçado a água.

 

De uma vez, tendo ido a Jersey, foi alojar-se em São Clemente, em uma rua cujo nome quer dizer almas do outro mundo.

 

Nas aldeias, colhem-se os indícios, comparam-se: o total faz a reputação de um homem.

 

Aconteceu um dia que Gilliatt foi surpreendido a deitar sangue pelo nariz. Coisa grave. Um patrão de lancha, grande viajante, que fez quase a volta do mundo, afirmou que havia uma terra, onde todos os feiticeiros deitam sangue pelo nariz. Quando um homem deita sangue pelo nariz, já toda a gente sabe como se haver com ele. Todavia, algumas pessoas de juízo observaram que aquilo que caracteriza os feiticeiros em uma terra pode não caracterizá-los em outra.

 

Nos arredores de Saint-Michel, viu-se Gilliatt parado em uma horta dos Huriaux, ao pé da estrada real de Videclins. Gilliatt assobiou, e pouco depois veio um corvo, e depois uma pega. O fato foi atestado por um homem notável que pertenceu depois a uma comissão encarregada de fazer um novo livro de medidas.

 

No Hamel, há mulheres velhas que diziam estar certas de ter ouvido, ao romper da manhã, umas andorinhas chamando por Gilliatt.

 

A isto deve acrescentar-se que Gilliatt não era bom.

 

Um dia um pobre homem batia num asno, que tinha empacado. Deu-lhe algumas tamancadas na barriga, o animal caiu. Gilliatt correu para levantá-lo, estava morto. Gilliatt esbofeteou o pobre homem.

 

Noutra ocasião, vendo um rapaz descer de uma árvore com um ninho de passarinhos ainda implumes, Gilliatt tirou o ninho do rapaz, e levou a crueldade ao ponto de restituí-lo ao seu lugar na árvore.

 

Uns viandantes censuraram-no por isto: Gilliatt não fez mais do que apontar para o pai e a mãe dos passarinhos, que guinchavam por cima da árvore e voltavam para o ninho. Tinha queda pelos pássaros. É um sinal esse que faz conhecer geralmente os bruxos.

 

Os rapazes gostam de tirar os ninhos de cotovias e goelanos no penedio das costas. Trazem consigo grande porção de ovos azuis, amarelos e verdes, para armar com eles a frente das lareiras. Como os penedos estão a pique, aconteceu-lhes às vezes escorregarem, caírem e morrerem. Nada mais lindo que uma varanda adornada com ovos de pássaros do mar. Gilliatt já não sabia que inventar para fazer mal aos rapazes. Trepava, com risco de vida, ao cimo das rochas marinhas, e pendurava aí molhos de feno, com chapéus velhos em cima e tudo quanto pudesse servir de espantalho, para arredar os pássaros e, por conseqüência, as crianças.

 

Por tudo isto Gilliatt ia sendo a pouco e pouco odiado por todos. Não precisava tanto para sê-lo.

 

 

 

CAPÍTULO V

OUTROS PONTOS AMBÍGUOS DE GILLIATT

 

Não estava fixa a opinião acerca de Gilliatt.

 

Geralmente era tido por marcou. Outros acreditavam mesmo que fosse filho do diabo.

 

Quando uma mulher tem, do mesmo homem, sete filhos machos consecutivos, o sétimo é marcou. Mas, para isso, é necessário que nenhuma filha venha interromper a série dos rapazes.

 

O marcou tem uma flor-de-lis impressa em uma parte do corpo, donde resulta que aproveita tanto aos escrofulosos como aos reis da França. Na França há marcous em toda parte, especialmente na província de Orléans. Cada aldeia do Gâtinais tem o seu marcou. Para curar os doentes basta que o marcou sopre nas chagas ou lhes faça tocar a flor-de-lis. O remédio é eficaz, principalmente quando aplicado na noite de Sexta-Feira Maior. Há uma dezena de anos, o marcou d'Ormes, no Gâtinais, apelidado o Formoso Marcou, e consultado por toda a Beauce, era um tanoeiro, chamado Foulon, que tinha cavalo e carruagem. Para pôr cobro aos seus milagres foi preciso intervir a polícia. Tinha ele a flor-de-lis embaixo do peito esquerdo. Outros marcous têm-na em lugar diverso.

 

marcous em Jersey, em Aurigny e em Guernesey. Parece que isto procede dos direitos que tem a França sobre o ducado da Normandia. A não ser assim, por que haveria ali a flor-de-lis?

 

Como há também nas ilhas da Mancha muitos escrofulosos, os marcous são necessários.

 

Em um dia, estando Gilliatt a banhar-se no mar diante de algumas pessoas, julgaram estas ter-lhe visto no corpo a flor-de-lis. Interrogado a esse respeito, por única resposta pôs-se a rir. Gilliatt ria às vezes como os outros homens. Mas desde esse dia nunca mais o viram tomar banho. Começou então a banhar-se em lugares solitários e perigosos. Provavelmente à noite, e em noites de luar; o que, hão de convir, é coisa um tanto suspeita.

 

Os que se obstinavam em crê-lo filho do diabo (cambiou) enganavam-se, evidentemente. Deviam saber que só os há na Alemanha. Mas o Vale e Saint-Sampson eram há cinqüenta anos países ignorantes.

 

Acreditar em Guernesey que alguém é filho do diabo, por força que há nisso exageração.

 

Por isso mesmo que Gilliatt inquietava o populacho, era muito consultado. Os campônios, aterrorizados, iam conversar com ele acerca dos seus achaques. Aquele terror equivalia a meia confiança, e no campo, quanto mais suspeito é o médico, mais eficaz é o remédio que ele dá. Gilliatt tinha medicamentos propriamente seus, herdados da finada velha. Dava-os a quem lhos pedia, e não recebia dinheiro. Curava os panarícios com aplicações de ervas; o líquido de um dos seus frascos cortava a febre; o químico de Saint-Sampson, que chamaríamos farmacêutico na França, pensava que era uma decocção de quina. Os menos benévolos convinham em que Gilliatt era excelente diabo para os doentes, quando se tratava de seus remédios ordinários; mas, como marcou, não queria ouvir nada: se algum escrofuloso pedia-lhe para tocar a flor-de-lis, a resposta de Gilliatt era fechar-lhe a porta na cara; recusava fazer milagres, coisa ridícula em um feiticeiro. Não sejas feiticeiro, mas, se o és, faze o teu oficio.

 

Havia uma ou duas exceções nesta antipatia universal. O Sr. Landoys do Clos-Landés era escrivão da paróquia de Saint-Pierre-Port, encarregado das escrituras e guarda dos registros dos nascimentos, casamentos e óbitos. Jactava-se o escrivão de descender do tesoureiro da Bretanha, Pedro Landoys, enforcado em 1485.

 

Estando uma vez a banhar-se, o Sr. Landoys afastou-se da praia, e quase se afogou; Gilliatt atirou-se à água, afogou-se quase, mas salvou Landoys. Desde esse dia Landoys não falou mal de Gilliatt. Aos que se admiravam disso, respondia ele: “Como hei de aborrecer um homem que não me faz mal, e até me prestou um serviço?” O escrivão chegou mesmo a ser amigo de Gilliatt. Não era homem de preconceitos. Não acreditava em feiticeiros. Mofava dos que acreditavam em almas do outro mundo.

 

Tinha uma canoa, pescava nas horas de descanso para divertir-se, e nunca viu coisa alguma extraordinária, a não ser em certa noite de luar, um vulto branco de mulher, que pulava na água, e ainda assim não estava muito certo. Moutonne Gahy, feiticeira de Torteval, dera-lhe um saquinho para atar debaixo da gravata, a fim de afugentar os espíritos; Landoys zombava do saco, e não sabia o que havia dentro; mas sempre andava com ele, e sentia-se assim mais seguro.

 

Algumas pessoas audazes, acompanhando o Sr. Landoys, arriscaram-se a reconhecer em Gilliatt certas circunstâncias atenuantes, algumas aparências de qualidades, a sobriedade, a abstinência do gim e do tabaco, e chegavam às vezes a fazer dele este belo elogio: “Não bebe, não fuma, nem masca”.

 

Mas a sobriedade é uma qualidade quando o indivíduo possui outras.

 

Gilliatt inspirava a aversão pública.

 

Fosse o que fosse, como marcou, Gilliatt podia prestar serviços. Em uma Sexta-Feira Maior, à meia-noite, dia e hora usados para esses curativos, todos os escrofulosos da ilha, por inspiração, ou combinação, foram em massa à casa mal-assombrada, e, com as mãos postas, pediram a Gilliatt que os curasse. Gilliatt recusou. Reconheceu-se nisto a sua perversidade.

 

 

 

CAPÍTULO VI

A PANÇA

 

Tal era Gilliatt.

 

As raparigas achavam-no feio.

 

Gilliatt não era feio. Era talvez bonito. Tinha um perfil semelhante ao do bárbaro antigo. Quieto, parecia um Dácio da coluna trajana. As orelhas eram pequenas, delicadas, lisas, de uma admirável forma acústica. Tinha entre os olhos a soberba ruga vertical do homem audacioso e perseverante. Caíam-lhe os dois cantos da boca; a testa era de uma curva nobre e serena; o olhar saía-lhe firme de dentro da pálpebra franca, posto que ele tivesse aquele piscar de olhos que os pescadores adquirem com a reverberação das vagas. O riso era pueril e delicioso. Não havia marfim mais alvo que os seus dentes. Entretanto, Gilliatt, tisnado pelo sol, era quase negro. Não se afronta impunemente o oceano, a tempestade e a noite; aos trinta anos, mostrava 45. Tinha a sombria máscara do vento e do mar.

 

Puseram-lhe a alcunha de Finório.

 

Diz uma fábula da Índia: “Um dia Brama perguntou à Força: ‘Quem é mais forte que tu?’ A Força respondeu: ‘É a Astúcia’” Diz um provérbio chinês: “Quanto não poderia o leão, se fosse macaco?”

 

Gilliatt não era nem leão nem macaco; mas as coisas que ele fazia apoiavam o provérbio chinês e a fábula indiana. De estatura comum e força ordinária, Gilliatt, tão inventiva e poderosa era a sua destreza, conseguia levantar fardos de gigante e realizar prodígios de atleta.

 

Era um pouco ginasta; servia-se tanto da mão direita como da esquerda. Não caçava, pescava. Poupava os pássaros, não os peixes. Ai dos que são mudos!

 

Era nadador excelente.

 

A solidão faz homens de talento ou idiotas. Gilliatt tinha os dois aspectos. Às vezes mostrava o ar espantado, de que falamos, e dissera-se um bruto. Outras vezes mostrava uma certa profundidade no olhar. A antiga Caldéia teve homens assim: a certas horas, a opacidade do pastor tornava-se transparente e deixava ver o mago.

 

Em suma, era apenas um pobre homem sabendo ler e escrever. É provável que estivesse no limite que separa o sonhador do pensador. O pensador impõe, o sonhador obedece. A solidão domina os ânimos símplices, complica-os, enche-os de horror sagrado. A sombra em que entrava o espírito de Gilliatt compunha-se, em partes quase iguais, de dois elementos, obscuros ambos, mas diferentes; dentro dele, a ignorância — enfermidade; fora dele, o mistério — imensidade.

 

À força de trepar aos rochedos, de escalar os declives, de navegar no arquipélago, qualquer que fosse o tempo, de manobrar a primeira embarcação que aparecesse, de arriscar-se dia e noite nos canais mais difíceis, tornou-se, sem tirar lucro disso, e só por fantasia e satisfação, um admirável homem do mar.

 

Nasceu piloto. O verdadeiro piloto é o marinheiro que navega mais no fundo que na superfície. A vaga é um problema exterior, continuamente complicado pela configuração submarina dos lugares em que sulca o navio. Parecia, ao ver Gilliatt vogar nos baixios e através dos arrecifes do arquipélago normando, que ele tinha debaixo da abóbada do crânio um mapa do fundo do mar. Sabia tudo e afrontava tudo.

 

Conhecia as balizas melhor do que os corvos-marinhos que lá se vão empoleirar. As diferenças imperceptíveis que distinguem as quatro balizas do Creux, do Alligande, de Tremies e da Sardrette eram perfeitamente claras para ele, ainda no meio de nevoeiro. Não hesitava sobre a estaca de cabeça oval, de Anfré, nem sobre o chuço tridente, de Rousse, nem a bola branca, de Corbette, nem a bola preta, de Longue-Pierre, e não havia temer que confundisse a cruz de Gubeau com a espada fincada no chão, de Platte, nem a baliza-martelo, de Barbées, com a baliza cauda de andorinha, de Moulinet.

 

Mostrou singularmente a sua rara ciência de marítimo num dia em que houve em Guernesey uma dessas justas que se chamam regatas.

 

A questão era esta: ir só em uma embarcação de quatro velas; levá-la de Saint-Sampson à ilha de Herm, distante 1 légua, e trazê-la de novo de Herm a Saint-Sampson. Manobrar sozinho um barco de quatro velas, não há pescador que o não faça, e a diferença não é grande; mas eis o que agravava o caso: primeiramente, a embarcação era uma dessas chalupas de outro tempo, com grande bojo, à moda de Roterdão, que os marinheiros do século passado apelidavam panças holandesas. Acha-se ainda algumas vezes no mar essa velha construção da Holanda, bojuda e chata, tendo a bombordo e a estibordo duas asas que se vão abatendo alternadamente, conforme o vento, e suprem a quilha. A segunda dificuldade era a volta de Herm, volta complicada por um pesado lastro de pedras.

 

O prêmio da justa era a chalupa. De antemão estava dada ao vencedor. A pança servira de barco-piloto; o piloto que navegara nela durante vinte anos era o mais robusto marinheiro da Mancha; quando morreu não houve ninguém que quisesse governar o barco e decidiram fazer dele um prêmio de regata. A pança, embora não tivesse coberta, tinha qualidades boas e podia tentar um manobrista. Era mastreada na frente, o que aumentava a força de tração do velame. Outra vantagem, o mastro não impedia a carga. Era uma concha sólida; pesada, mas vasta, e suportando bem o mar. Houve empenho em disputá-la; a luta era rude, mas o prêmio era magnífico. Apresentaram-se sete ou oito pescadores, os mais vigorosos da ilha. Tentaram um por um; nenhum deles pôde ir a Herm. O último que lutou era conhecido por ter passado a remos, com tempo mau, o terrível redemoinho que há entre Serk e Brecq-Hou. Escorrendo em suor, trouxe ele a pança e disse: — É impossível. — Foi então que Gilliatt entrou no barco; empunhou primeiramente o remo, e depois a grande escota, e fez-se ao largo. Depois, sem atar a escota, o que seria imprudência, e sem largá-la, o que lhe dava o domínio da vela grande, deixando a escota rolar à feição do vento sem descair, segurou com a mão esquerda a cana do leme. Dentro de três quartos de hora estava em Herm. Três horas depois, posto que soprasse então um forte vento do sul, atravessando a barra, a pança, governada por Gilliatt, entrava em Saint-Sampson, com o carregamento de pedras. Gilliatt trouxe, por luxo e bravata, além do carregamento, um pequeno canhão de bronze de Herm, com que a gente da ilha salvava todos os anos, a 5 de novembro, em regozijo pela morte de Guy Fawkes.

 

Guy Fawkes, digamo-lo de passagem, morreu há 260 anos; foi uma grande satisfação.

 

Gilliatt, assim carregado e estafado, embora trouxesse o canhão na barca, e o vento sul na vela, voltou a Saint-Sampson.

 

Vendo isto, Mess Lethierry exclamou: — Ora, aqui está um marinheiro atrevido!

 

E estendeu a mão a Gilliatt.

 

Tornaremos a falar de Mess Lethierry.

 

A pança foi entregue a Gilliatt.

 

Esta aventura não lhe destruiu a alcunha de Finório.

 

Algumas pessoas declararam que a coisa não era para admirar, visto que Gilliatt escondera no barco um galho de nespereira silvestre. Mas ninguém pôde provar isso.

 

Desde esse dia Gilliatt não teve outra embarcação. Naquela pesada chalupa é que ele ia à pesca. Amarrava-a no excelente ancoradourozinho que tinha só para seu uso, debaixo do muro da casa mal-assombrada. Ao cair da noite, atirava a rede às costas, atravessava o jardim, galgava o parapeito de pedras secas, rolava de rochedo em rochedo, e saltava na barca. Daí fazia-se ao mar.

 

Pescava muito peixe, mas afirmava-se que o galho de nespereira estava sempre atado à chalupa. Ninguém o viu nunca, mas toda a gente acreditava.

 

Não vendia, dava o peixe que lhe sobrava.

 

Os pobres aceitavam o peixe, sem deixarem de lhe querer mal por causa do ramo embruxado. Não se deve trapacear com o mar.

 

Era pescador, mas não era só isso. Tinha aprendido, por instinto ou para distrair-se, três ou quatro ofícios. Era marceneiro, ferreiro, fabricante de carros, calafate, e até um pouco mecânico. Ninguém consertava uma roda como ele. Fabricava, de um modo especial, todos os seus instrumentos de pesca. Tinha em um canto da casa uma pequena forja e uma bigorna, e, não tendo a chalupa mais que uma âncora, fez-lhe outra, ele só. Excelente âncora era essa; a argola tinha a força requerida, e Gilliatt, sem que ninguém lho ensinasse, achou a dimensão exata que devia ter o cepo da âncora para que ela não voltasse.

 

Substituiu com toda a paciência os pregos das bordas por cavilhas, tornando assim impossível a ferrugem.

 

Deste modo aumentou muito as boas qualidades da pança. Aproveitava-se dela para ir de quando em quando passar um ou dois meses em alguma ilhota solitária como Chousey ou Casquets. Dizia-se então: “Olhem, Gilliatt está fora”. Ninguém se incomodava por isso.

 

 

 

CAPÍTULO VII

CASA EMBRUXADA, MORADOR VISIONÁRIO

 

Gilliatt era o homem do sonho. Vinham daí as suas audácias e as suas hesitações. Tinha idéias propriamente suas.

 

Havia talvez nele a ligação do alucinado e do iluminado. A alucinação entra na cabeça de um campônio como Martin, do mesmo modo que na cabeça de um rei como Henrique IV. O Desconhecido faz surpresas ao espírito do homem. Rasga-se bruscamente a sombra, deixa ver o invisível; depois fecha-se. Tais visões são às vezes transfiguradoras; de um condutor de camelos faz Maomé, de uma cabreira faz Joana d'Arc. A solidão desprende uma certa quantidade de desvario sublime. É o fumo da sarça ardente. Resulta daí um misterioso estremecer de idéias: o doutor dilata-se até o vidente, o poeta até o profeta; resulta Horeb, Cédron, Ombos, a embriaguez do louro mastigado da Castália, as revelações do mês Busion; resulta Peléia em Dodona, Femônoe em Delfos, Trofônio em Lebadéia, Ezequiel no Kebar, Jerônimo na Tebaida. Na maior parte dos casos o estado visionário abate o homem, e o embrutece. O embrutecimento sagrado existe. O faquir carrega a sua visão, como o habitante alpino a sua papeira. Lutero falando aos diabos no celeiro de Wurtemberg, Pascal tapando o inferno com o biombo de seu gabinete, o obi negro, dialogando com o deus branco chamado Bossum, é o mesmo fenômeno diversamente produzido, segundo a força e a dimensão de cada cérebro. Lutero e Pascal são e ficam sendo grandes; o obi negro é imbecil.

 

Gilliatt não era tanto, nem tão pouco. Era um pensativo. Nada mais. Contemplava a natureza de um modo singular.

 

Tinha visto algumas vezes, na água do mar, completamente límpida, animais inesperados, de grandes dimensões, de formas diversas, os quais, fora da água, assemelhavam-se a cristal mole, e, tornados à água, confundiam-se com ela, pela identidade de transparência e de cor; disto concluía ele que, se a água era habitada por transparências vivas, bem podia ser que o ar fosse habitado por transparências igualmente vivas. Os pássaros não são os habitantes, são os anfíbios do ar. Gilliatt não acreditava no ar deserto. Dizia ele: se o mar está cheio de criaturas, por que motivo a atmosfera será vazia? Criaturas cor do ar podem escapar aos nossos olhos por causa da luz; quem nos prova que essas criaturas não existem? A analogia indica que o ar deve ter os seus peixes, como o mar; os peixes do ar serão talvez diáfanos, benefício da providência criadora, tanto a nosso favor, como a favor deles; deixando passar a luz através da sua forma, e não fazendo sombra, ficam ignorados de nós, e nada poderemos saber. Gilliatt imaginava que, se se pudesse esvaziar a atmosfera, pescando-se no ar como num tanque, achar-se-ia uma porção de criaturas surpreendentes. E, acrescentava ele, na sua cisma, muitas coisas se explicariam.

 

A cisma, que é o pensamento no estado nebuloso, confina com o sono e preocupa-se a respeito dele, como de sua própria fronteira. O ar habitado por transparências vivas seria o começo do Desconhecido; além abre-se a vasta porta do possível. Outros seres e outros fatos. Nada sobrenatural; mas a continuação oculta da natureza infinita. Gilliatt, no ócio laborioso que compunha a sua existência, era um observador estranho e fantástico. Chegava a observar o sono. O sono está em contato com o possível, que também chamamos o inverossímil. O mundo noturno é um mundo. A noite é um universo. O organismo material humano, sobre o qual pesa uma coluna atmosférica de 15 léguas de altura, chega à noite fatigado, cai de fraqueza, deita-se, repousa; fecham-se os olhos da carne; então, naquela cabeça adormecida, menos inerte do que se crê, abrem-se outros olhos, aparece o Desconhecido. As coisas sombrias do mundo ignorado tornam-se vizinhas do homem, ou porque haja verdadeira comunicação, ou porque as distâncias do abismo tenham crescimento visionário; parece que as criaturas invisíveis do espaço vêm contemplar-nos curiosas a respeito da criatura da terra; uma criação fantasma sobe ou desce para nós, no meio de um crepúsculo; ante a nossa contemplação espectral, uma vida que não é a nossa agrega-se e dissolve-se, composta de nós mesmos e de um elemento estranho; e aquele que dorme, nem completo vidente, nem completo inconsciente, entrevê as animalidades estranhas, as vegetações extraordinárias, as cores lívidas, terríveis ou risonhas, as larvas, as máscaras, os rostos, as hidras, as confusões, os luares sem lua, as obscuras decomposições do prodígio, o crescer e o decrescer no meio da espessura turvada, a flutuação de formas nas trevas, todo esse mistério que chamamos sonho, e que não é mais do que a aproximação de uma realidade invisível. O sonho é o aquário da noite.

 

Assim sonhava Gilliatt.

 

 

 

CAPÍTULO VIII

A CADEIRA GILD-HOLM 'UR

 

Quem procurasse hoje a casa de Gilliatt não a encontraria, nem o jardim, nem a enseada onde ele guardava a chalupa. A casa mal-assombrada já não existe. A península onde essa casa estava edificada caiu à picareta dos demolidores, e foi conduzida, às carradas, para os navios dos alborcadores de rochedos e comerciantes de granito. A península fez-se cais, igreja e palácios na capital. Toda aquela crista de rochedos partiu há muito para Londres.

 

Aqueles prolongamentos de rochas no mar, com aberturas e recortes, são verdadeiras cadeias de pequenas montanhas; vendo-as, recebe-se a mesma impressão que teria um gigante contemplando as cordilheiras. O idioma local chama-os bancos. Há os de diversas figuras. Uns assemelham-se a uma espinha dorsal, cada rochedo é uma vértebra; outros a uma espinha de peixe; outros a um crocodilo bebendo água.

 

Na extremidade da península da casa mal-assombrada havia uma grande rocha, que os pescadores do Hommet chamavam Corne de la Bête. Essa rocha, espécie de pirâmide, assemelhava-se, posto que menos elevada, ao Pináculo de Jersey. Nas marés cheias, o mar separava-a da península e a Corne de la Bête ficava isolada. Nas vazantes ia-se até lá por um istmo de rochas praticáveis. A curiosidade do rochedo era, do lado do mar, uma espécie de cadeira natural cavada pelas águas e polida pela chuva. Era pérfida a tal cadeira. A gente ia insensivelmente arrastada até ali pela beleza da vista; parava por amor da perspectiva, como se diz em Guernesey; o encanto dos grandes horizontes retinha lá o observador curioso.

 

A cadeira oferecia-se logo aos olhos dele; era uma espécie de nicho na fachada a pique do rochedo; trepar àquele nicho era coisa fácil; o mar que o talhara tinha feito embaixo uma espécie de escada de pedras chatas, comodamente dispostas; o abismo tem destas atenções, desconfia sempre da sua cortesia; a cadeira tentava, a gente subia e assentava-se; sentia-se a gosto; tinha por assento o granito gasto e arredondado pela escuma, e por braços duas anfratuosidades que pareciam feitas de propósito; por encosto toda a alta muralha vertical do rochedo que a gente admirava sem pensar na impossibilidade de escalá-la; era simples esquecer-se sentado naquela poltrona; descobria-se todo o mar, viam-se ao longe os navios entrar e sair, podia-se acompanhar com os olhos uma vela até mergulhar-se além dos Casquets, sobre a rotundidade do oceano; pasmava-se, olhava-se, gozava-se; sentia-se o afago da brisa e do mar; há em Caiena um vespertílio, que adormece a gente na sombra com um suave e tenebroso agitar de asas; o vento é esse morcego invisível; quando não devasta, faz adormecer. Contemplava-se o mar; ouvia-se o vento, até que vinha o letargo do êxtase. Quando os olhos se enchem de um excesso de beleza e de luz, fechá-los é voluptuosidade. Acordava-se de súbito. Era tarde. A maré crescera a pouco e pouco. A água cingia o rochedo.

 

Estava-se perdido.

 

Tremendo bloqueio é o mar que sobe!

 

A maré cresce insensivelmente ao princípio, depois com violência. Chegando às rochas, encoleriza-se, escuma. Nem sempre se pode nadar junto aos cachopos. Excelentes nadadores morreram afogados naquele lugar.

 

Em certos pontos, a certas horas, contemplar o mar é sorver um veneno. E o que acontece, às vezes, olhando para uma mulher.

 

Os antiquíssimos habitantes de Guernesey chamavam outrora àquele nicho talhado na rocha pela vaga a Cadeira Gild-Holm-'Ur ou Kidormur. Palavra céltica, dizem, não entendida pelos que sabem céltico, e entendida pelos que sabem francês. Quem-dorme-morre. (Qui-dort-ineurt.) Tal é a tradução rústica. Pode-se escolher entre esta tradução Quem-dorme-morre e a tradução dada em 1819, creio eu, no Armoricano, por Mr. Athenas. Segundo este conhecedor da língua céltica, Gild-Holm-'Ur quer dizer Alta-dos-bandos-de-pássaros.

 

Há em Aurigny outra cadeira deste gênero que se chama Cadeira do Frade, também arranjada pelo mar, e com uma saliência de pedra ajustada tão a propósito que se pode dizer que o mar teve a complacência de pôr um tamborete debaixo dos nossos pés.

 

Nas marés cheias, não se podia ver a Cadeira Gild-Holm-'Ur. A água cobria-a inteiramente.

 

A Cadeira Gild-Holm-'Ur era vizinha da casa mal-assombrada. Gilliatt ia lá sentar-se muitas vezes. Meditava? Não. Já o dissemos, Gilliatt sonhava. Não se deixava surpreender pela maré.

 

 

 

LIVRO SEGUNDO

MESS LETHIERRY

 

CAPÍTULO PRIMEIRO

VIDA AGITADA E CONSCIÊNCIA TRANQÜILA

 

Mess Lethierry, o homem notável de Saint-Sampson, era um marinheiro terrível. Tinha navegado muito. Foi grumete, gajeiro, timoneiro, contramestre, mestre de equipagem, piloto, arrais. Agora era armador. Ninguém conhecia o mar como ele. Era intrépido para salvar gente. Quando havia temporal, Mess Lethierry ia passear à praia, com os olhos no horizonte. Que é aquilo lá ao longe? É alguém que está em perigo. É um barco de Weymouth, ou de Aurigny, ou de Courseulle, é o iate de um lorde, um inglês, um francês, um pobre, um rico, é o diabo, fosse quem fosse, ele saltava dentro da lancha, chamava dois ou três homens valentes, dispensava-os quando não tinha, equipava ele só, desatava a amarra, travava do remo, fazia-se ao largo, subia e descia nas cavas das ondas, mergulhava no furacão, ia ao perigo. Viam-no assim de longe, no meio das lufadas do vento, de pé sobre a embarcação, gotejante de chuva, confundido com os relâmpagos, face de leão e juba de espuma. Passava assim às vezes um dia inteiro no perigo, e nas vagas à saraiva e ao vento, costeando os navios que soçobravam, salvando homens, salvando cargas, disputando com a tempestade. Voltava à noite para casa, e tecia um par de meias.

 

Passou esta vida cinqüenta anos, desde os dez até os sessenta, enquanto foi moço. Aos sessenta anos, viu que já não podia levantar com um braço a bigorna da forja de Varclin; pesava aquela bigorna 300 libras; foi atacado repentinamente de reumatismo. Teve de deixar o mar. Passou da idade heróica à idade patriarcal. Já não era mais que um bonachão.

 

Mess Lethierry alcançou a um tempo o reumatismo e a abastança. Esses dois produtos do trabalho acompanhavam-se voluntariamente. Quem chega a ser rico, fica inutilizado. É a coroa da vida.

 

Diz-se então: vamos gozar agora.

 

Nas ilhas como Guernesey, a população é composta de homens que passaram a vida a andar à roda do campo, e de homens que passaram a vida a viajar à roda do mundo. São duas espécies de lavradores, uns da terra, outros do mar. Mess Lethierry era dos últimos. Conhecia, porém, a terra. Tinha trabalhado muito. Viajara no continente. Foi algum tempo carpinteiro de navio em Rochefort, depois em Cette.

 

Falamos nas viagens à roda do mundo; Mess Lethierry viajou a França toda como carpinteiro. Trabalhou nos aparelhos para esgoto das salinas de Franche-Comté. Aquele honrado homem teve uma vida de aventureiro. Na França aprendeu a ler, a pensar, a querer. Fez tudo, e de quanto fez extraiu a probidade. O fundo da sua natureza era o marinheiro. A água lhe pertencia. “Os peixes estão em minha casa”, dizia ele. Em suma, toda a sua existência, com exceção de dois ou três anos, foi consagrada ao oceano; “atirada à água”, dizia ele. Navegara nos grandes mares, no Atlântico e no Pacífico; mas preferia a Mancha. “Aquele é que é rude”, exclamava ele com amor. Nasceu ali, ali queria morrer. Depois de ter feito duas ou três vezes a volta do mundo, e sabendo o que devia escolher, voltou a Guernesey, e não se mexeu dali. As suas viagens, então, eram Granville e Saint-Malo.

 

Mess Lethierry era guernesiano, isto é, normando, inglês, francês. Tinha essa pátria quádrupla, imersa e como que afogada na sua grande pátria, o oceano. Durante a sua vida, e em toda parte, conservou os costumes de pescador normando.

 

Isso, porém, não tolhia que ele abrisse de quando em quando um alfarrábio, gostasse de ler um livro, de saber os nomes dos filósofos e poetas, e taramelar em vasconço um pouquinho de cada língua.

 

 

 

CAPÍTULO II

UMA PREFERÊNCIA DE MESS LETHIERRY

 

Gilliatt era um selvagem. Mess Lethierry era outro.

 

Este, porém, era um selvagem elegante.

 

Era exigente a respeito de mãos de mulheres.

 

Ainda moço, quase menino, estando entre marinheiro e grumete, ouviu dizer ao bailio de Suffren: “Bonita rapariga, mas que grandes mãos vermelhas que ela tem!” Um dito de almirante impõe, em qualquer assunto que seja. Acima de um oráculo está uma senha. A exclamação do bailio de Suffren fez com que Mess Lethierry se tornasse delicado e exigente acerca de mãos alvas. A dele era uma larga espátula, escura na cor; na agilidade era uma clava, nas carícias uma torquês; quebrava um seixo com um soco.

 

Não era casado. Não quis ou não encontrou mulher. Naturalmente, o marinheiro queria mãos de duquesa. Não se encontram mãos dessas nas pescadoras de Port-Bail.

 

Conta-se entretanto que em Rochefort (Charente) achou ele um dia uma grisette que realizava o seu ideal. Linda moça e lindas mãos. Detraía e arranhava. Afrontá-la era perigoso. As suas unhas, extremamente asseadas, tornavam-se garras destemidas, quando era necessário. Tão belas unhas encantaram Mess Lethierry; mas depois, receando que viesse a perder a autoridade sobre a amante, resolveu não levar aquele namorico à presença do senhor maire.

 

De outra feita, em Aurigny, gostou de uma rapariga. Já cuidava dos esponsais, quando um residente do lugar lhe disse: “Dou-lhe os meus parabéns. Leva uma boa esterqueira”. Lethierry pediu explicações deste elogio. Em Aurigny há uma moda. Apanha-se esterco de vaca e deita-se às paredes. Depois de seco, cai o esterco e serve para aquecer a gente. Ninguém casa com uma rapariga, senão quando é boa esterqueira. Esta habilidade afugentou Mess Lethierry.

 

Demais, em assunto de amor ou namoro, tinha ele uma boa filosofia rústica, uma ciência de marinheiro: apanhado sempre, encadeado nunca. Lethierry gabava-se de ter-se deixado vencer sempre pela vasquinha, no tempo da sua mocidade. O que hoje se chama crinolina chamava-se, então, vasquinha. Significa mais e menos que uma mulher.

 

Os rudes marinheiros do arquipélago normando são inteligentes. Quase todos sabem ler. Vêem-se, aos domingos, rapazitos de oito anos, assentados em um grande rolo de cabos, com um livro na mão. Os marinheiros normandos foram sempre sardônicos, e sabem dizer coisas chistosas. Foi um deles, o atrevido piloto Queripel, quem atirou a Montgomery, refugiado em Jersey depois da funesta lançada contra Henrique II, esta apóstrofe: “Cabeça doida feriu a cabeça vazia”. Outro marinheiro, por nome Touzeau, arrais em Saint-Brelade, fez o trocadilho filosófico atribuído ao Bispo Camus: “Aprés la mort les papes deviennent papillons et les sires deviennent cirons” (Depois da morte tornam-se os papas borboletas, e os reis ouçãos.)

 

 

 

CAPÍTULO III

A VELHA LÍNGUA DO MAR

 

Os marinheiros das Channel-Islands são puros gauleses. Estas ilhas, que se vão fazendo inglesas, conservaram-se muito tempo autóctones. O camponês de Serk fala a língua de Luís XIV.

 

Há quarenta anos, achava-se ainda na boca dos marinheiros de Jersey e de Aurigny o idioma marítimo clássico. Fazia crer que estávamos em plena marinha do século XVII. Um arqueólogo especialista poderia ir estudar ali a antiga linguagem de manobra e de batalha esbravejada por Jean Bart naquele porta-voz que aterrava o Almirante Hidde.

 

O vocabulário marítimo dos nossos pais, quase inteiramente renovado hoje, era ainda usado em Guernesey, em 1820. O navio que suporta o vento era bon boulinier (bom de bolina); dizia-se do navio que se afeiçoa ao vento, por si mesmo, apesar das velas de proa e do leme, vaisseau ardent (navio que se aguça); entrar em movimento era prendre aire (tomar o vento); pôr-se à capa era capeyer (capear); apanhar o vento por cima era faire chapelle (tocar em vento); agüentar bem sobre a amarra era faire teste; estar em confusão a bordo era être en pantenne; ter o vento nas velas era porter-pain (levar em cheio).

 

Hoje nada disto se diz. Diz-se hoje louvoyer (bolinar); dizia-se leauvoyer; diz-se naviguer (navegar), dizia-se nager; diz-se virer vent devant (virar por d'avante), dizia-se vidonner vent devant; diz-se aller de l'avant (seguir avante), dizia-se tailler de l'avant; diz-se tirer d'accord (alar à uma), dizia-se haller d’accord; diz-se déraper (arrancar o ferro), dizia-se déplanter; diz-se embraquer (tesar), dizia-se abraquer; diz-se taquets (cunhas), dizia-se billons; diz-se burins (passadores), dizia-se tappes; diz-se balancines (amantilhos), dizia-se valancines; diz-se tribord (estibordo), dizia-se stribord; diz-se les hommes de quart à bâbord (homens de quarto a bombordo), dizia-se les basbourdis.

 

Tourville escrevia a Hocquincourt: Nous avons singlé (singramos). Em vez de la rafale (a lufada), le raffal; em vez de bossoir (turcos), boussoir; em vez de drosse (bossa), drousse; em vez de loffer (arribar), faire une olofée; em vez de elonger (alongar), alonger; em vez de forte brise (vento fresco), survent; em vez de sout (paiol), fosse; em vez de jouail (cepo de âncora), jas; tal era, no começo deste século, a língua de bordo nas ilhas da Mancha. Ouvindo falar um marinheiro de Jersey, Ango ficaria abalado. Enquanto no resto do mundo as velas faseyaint (panejavam), barbeyaient nas ilhas da Mancha. Saute-de-vent (cambar o vento) era follevente. Só ali se empregavam os dois modos góticos de amarração, a valturre e a portuguesa. Só ali se davam ordens destas: Tour-et-choque!Bosse et Bitte! — Já um marinheiro de Granville dizia le clan (o gorne); e ainda o marinheiro de Saint-Aubin ou de Saint-Sampson dizia le canal de pouliot. O que era bout-d'alonge (postura) em Saint-Malo, era em Saint-Hélier oreille d'âne. Mess Lethierry, como o Duque de Vivonne, chamava o tosado de convés la tonture.

 

Foi com este idioma extravagante que Duquesne bateu Ruyter, que Duguay-Trouin bateu Wasnaer, e Tourville em 1681 atravessou em pleno dia a primeira galera que bombardeou Argel. Hoje é língua morta. A gíria do mar é outra. Duperré não poderia entender Suffren.

 

Não menos se transformou a língua dos sinais; e há grande distância entre as flâmulas encarnada, branca, azul e amarela de Labourquedonnaye e os dezoito pavilhões de hoje, arvorados dois a dois, três a três e quatro a quatro, dão para as necessidades da combinação distante, 70.000 combinações, suprem tudo, e, por assim dizer, prevêem o imprevisto.

 

 

 

CAPÍTULO IV

VULNERABILIDADE POR AMOR

 

Mess Lethierry tinha o coração nas mãos; mãos largas e coração grande. O defeito dele era a admirável qualidade da confiança. Tinha uma maneira especial de contrair uma obrigação; era solene: “Dou a minha palavra de honra a Deus”. Dito isto, cumpria a promessa. Acreditava em Deus, e nada mais. Ia poucas vezes à igreja, e isso mesmo, por cortesia. No mar, era supersticioso.

 

Nunca houve, porém, tempestade que o fizesse recuar; é que ele era pouco acessível à contradição. Não a tolerava, nem num homem, nem no oceano. Queria ser obedecido; tanto pior para o mar se resistia; tinha de lutar com ele. Mess Lethierry não cedia nunca. Vaga que se empinasse, vizinho que contendesse, nada lhe detinha a mão. O que dizia estava dito, o que planeava estava feito. Não se curvava, nem diante de uma objeção, nem diante de uma tempestade. Não, para ele, era palavra que não existia, nem na boca de um homem, nem no ribombo de uma nuvem. Passava adiante. Não consentia que se lhe recusasse nada. Daí vinha a sua pertinácia na vida e a sua intrepidez no oceano.

 

Era ele próprio quem temperava a sua sopa de peixe; sabia que porção de sal, pimenta e ervas era preciso, e gostava tanto de fazê-la como de comê-la.

 

Criatura que um riso transfigura, e um casaco embrutece, assemelhando-se, com os cabelos soltos, a Jean Bart, e, com o chapéu redondo, a Jocrisse, acanhado na cidade, estranho e temível no mar, espádua de carregador, sem imprecações, quase sem cólera, voz doce e meiga que o porta-voz transforma em trovão, campônio que leu a Enciclopédia, guernesiano que viu a revolução, ignorante instruído, ermo de carolice, dado às visões, mais fé na Dama Branca que na Santa Virgem, lógica de ventoinha, vontade de Cristóvão Colombo, um tanto de touro e um tanto de criança, nariz quase rombo, faces grossas, boca com todos os dentes, rosto enrugado, cara que parece ter sido feita pelo mar, beijada pelos ventos durante quarenta anos, ar de tempestade na fronte, carnação de rocha em pleno mar; põe agora um olhar bom neste rosto agreste, e terás Mess Lethierry.

 

Mess Lethierry tinha dois amores: Durande e Déruchette.

 

 

 

LIVRO TERCEIRO

DURANDE E DÉRUCHETTE

 

CAPÍTULO PRIMEIRO

GARRULICE E EFLÚVIOS

 

O corpo humano é talvez uma simples aparência, escondendo a nossa realidade, e condensando-se sobre a nossa luz ou sobre a nossa sombra. A realidade é a alma. A bem dizer, o rosto é uma máscara. O verdadeiro homem é o que está debaixo do homem. Mais de uma surpresa haveria se se pudesse vê-lo agachado e escondido debaixo da ilusão que se chama carne. O erro comum é ver no ente exterior um ente real. Tal criaturinha, por exemplo, se pudéssemos vê-la como realmente é, em vez de moça, mostrar-se-ia pássaro.

 

Pássaro com forma de moça, que há aí de mais delicado? Imagina que a tens em casa. Supõe que é Déruchette. Deliciosa criatura! Dá vontade de dizer: “Bom dia, mademoiselle alvéloa”. Não se lhe vêem as asas, mas ouve-se-lhe o gorjeio. Canta às vezes. Na tagarelice está abaixo do homem; no canto, está acima dele. Tem mistérios aquele canto; uma virgem é o invólucro de um anjo. Feita a mulher, desaparece o anjo; volta, porém, depois trazendo uma alma de criança à mãe. Esperando a vida, aquela que há de ser mãe algum dia, conserva-se muito tempo criança, a menina persiste na moça; é uma calhandra. Pensa-se, ao vê-la: que boa que ela é em não bater as asas para ir-se embora!

 

A meiga e familiar criatura acomoda-se em casa, de ramo em ramo, isto é, de quarto em quarto, entra, sai, acerca-se, afasta-se, alisa as penas, ou penteia os cabelos, faz toda espécie de rumores delicados, murmura um não sei quê de inefável aos teus ouvidos. Quando ela interroga, responde-se-lhe; interrogada, gorjeia. Tagarela-se com ela. A tagarelice serve para descansar de falar. Há uma porção celeste nessa menina. E um pensamento azul misturado ao teu pensamento negro. Alegras-te por vê-la tão esquiva, tão ligeira, tão fugitiva; agradeces-lhe a bondade de não ser invisível, ela, que poderia, creio eu, ser impalpável. Neste mundo o lindo é o necessário. Há mui poucas funções tão importantes como esta de ser encantadora. Que desespero na floresta se não houvesse o colibri! Exalar alegrias, irradiar venturas, possuir no meio das coisas sombrias uma transudação de luz, ser o dourado do destino, a harmonia, a gentileza, a graça, é favorecer-te. A beleza basta ser bela para fazer bem. Há criatura que tem consigo a magia de fascinar tudo quanto a rodeia; às vezes nem ela mesmo o sabe, e é quando o prestígio é mais poderoso; a sua presença ilumina, o seu contato aquece; se ela passa, ficas contente; se pára, és feliz; contemplá-la é viver; é a aurora com figura humana; não faz nada, nada que não seja estar presente, e é quanto basta para edenizar o lar doméstico; de todos os poros sai-lhe um paraíso; é um êxtase que ela distribui aos outros, sem mais trabalho que o de respirar ao pé deles. Ter um sorriso que — ninguém sabe a razão — diminui o peso da cadeia enorme arrastada em comum por todos os viventes, que queres que te diga? é divino. Déruchette tinha esse sorriso. Mais ainda, era o próprio sorriso. Há alguma coisa mais parecida que o nosso rosto, é a nossa fisionomia; e outra mais parecida que a nossa fisionomia, é o nosso sorriso. Déruchette, risonha, era Déruchette.

 

É particularmente sedutor o sangue de Jersey e de Guernesey. As mulheres, as raparigas, sobretudo, têm uma beleza florida e cândida. É a combinação da alvura saxônia com a frescura normanda. Faces rosadas e olhos azuis. Falta-lhes brilho nos olhos. A educação inglesa amortece-os. Serão irresistíveis aqueles olhos límpidos no dia em que tiverem a profundeza do olhar parisiense. A parisiense ainda não se fez inglesa, felizmente. Déruchette não era parisiense, mas também não era guernesiana. Nascera em Saint-Pierre-Port, mas Mess Lethierry foi quem a educou. Educou-a para ser mimosa, a menina o era.

 

Déruchette tinha o olhar indolente e agressivo, sem que o soubesse. Não conhecia talvez o sentido da palavra amor e fazia com que a gente se apaixonasse por ela. Mas era sem má intenção. Déruchette nem pensava em casamento. O velho fidalgo emigrado que fora residir em Saint-Sampson dizia: “Esta rapariga seduz a matar”.

 

Déruchette tinha as mais lindas mãozinhas deste mundo, e pés iguais às mãos, quatro “pezinhos de mosca”, dizia Mess Lethierry. Tinha em si a bondade e a doçura; o tio Lethierry era toda a sua família e riqueza; o trabalho dela era deixar-se viver; tinha por talento algumas canções, por ciência a beleza, por espírito a inocência, por coração a ignorância; tinha a graciosa indolência crioula, mesclada de travessura e de viveza, a jovialidade traquinas da infância com um pendor à melancolia, vestuários um pouco insulares, elegantes, mas incorretos, chapéus de flores todo o ano, fronte ingênua, pescoço flexível e tentador, cabelos castanhos, pele branca com alguns toques arruivados no verão, boca grande e sã, e nessa boca o adorável e perigoso esplendor do sorriso. Eis o que era Déruchette.

 

Algumas vezes, à noite, após o pôr-do-sol, no momento em que a noite se mistura com o mar, à hora em que o crepúsculo dá uma espécie de terror às vagas, via-se entrar na barra de Saint-Sampson, ao tumulto sinistro das ondas, uma certa massa informe, uma coisa monstruosa que silvava e cuspia, que roncava como uma besta e fumegava como um vulcão, uma espécie de hidra babando espuma e arrastando um nevoeiro, atirando-se sobre a cidade com um horrível movimento de barbatanas e uma goela donde as chamas irrompiam. Era Durande.

 

 

 

CAPÍTULO II

A ETERNA HISTÓRIA DA UTOPIA

 

Era uma prodigiosa novidade o aparecimento de um navio a vapor nas águas da Mancha em 1822... Toda a costa normanda esteve por muito tempo assombrada. Hoje dez ou doze vapores cruzam-se em sentido inverso no horizonte do mar, sem atrair os olhos de ninguém. Quando muito, algum observador especialista distingue, pela cor da fumaça, se o carvão que consome o navio é de Gales ou de Newcastle. Passam; é quanto basta. Se partem: “Boa viagem!”; se chegam: “Welcome!

 

Não era tão grande a calma a respeito de tais invenções no primeiro quarto do nosso século, e estas máquinas fumegantes eram particularmente suspeitas entre os insulares da Mancha. Neste arquipélago puritano onde a rainha da Inglaterra foi censurada por violar a Bíblia[i] narcotizando-se para dar à luz, o navio a vapor teve como primeiro cumprimento o ser batizado com este nome: Devil-BoatNavio-Diabo.

 

A esses bons pescadores de então, outrora católicos, agora calvinistas, e sempre beatos, pareceu-lhes aquilo o inferno flutuante. Um pregador da terra tratou da questão: “Temos nós o direito de fazer trabalhar juntos o fogo e a água que Deus separou?[ii] Aquele animal de ferro e fogo não era a imagem de Leviatã? Não era isso refazer o homem, a seu modo, o primitivo caos? Não é a primeira vez que acontece qualificar a ascensão do progresso de retrogradação ao caos.

 

“Idéia louca, erro grosseiro, absurdo”: tal foi o veredicto da Academia das Ciências consultada por Napoleão no começo deste século, acerca do vapor. Os pescadores de Saint-Sampson têm desculpa de se acharem, em matéria científica, ao nível dos geômetras de Paris; e, em matéria religiosa, uma pequena ilha como Guernesey não tem obrigação de ser mais ilustrada que um grande continente como a América. Em 1807, quando o primeiro navio de Fulton, patrocinado por Livingston, provido da máquina de Watt mandada da Inglaterra, e tripulado, além da equipagem, por dois franceses, somente, André Michaux e outro, fez a sua primeira viagem de Nova York a Albany, deu-se o caso de acontecer isso no dia 17 de agosto. Esta coincidência deu origem a que o metodismo tomasse a palavra, e em todas as capelas os pregadores amaldiçoaram a máquina, declarando que o número dezessete era o total das dez antenas e das sete cabeças da besta do Apocalipse. Na América invocava-se contra o vapor a besta do Apocalipse; na Europa a besta do Gênesis. Nisto consistia toda a diferença.

 

Os sábios haviam rejeitado o vapor como impossível; os padres, a seu turno, rejeitavam-no como ímpio. A ciência condenava, a religião anatematizava. Fulton era uma variante de Lúcifer. Os habitantes simplórios das costas e dos campos aderiam à reprovação pelo incômodo que lhes causava a novidade. Na presença do vapor, o ponto de vista religioso era este: a água e o fogo são um divórcio. Este divórcio é ordenado por Deus. Não se deve desunir o que Deus uniu, nem unir o que ele desuniu. O ponto de vista do camponês era: isto mete-me medo.

 

Para cometer, naquela época remota, a empresa de uma navegação a vapor entre Guernesey e Saint-Malo, nada menos era preciso que um homem como Mess Lethierry. Só ele podia concebê-la na qualidade de livre pensador, e realizá-la na qualidade de marinheiro atrevido. O seu eu francês concebeu a idéia; o seu eu inglês executou-a.

 

Em que ocasião? Digamo-lo.

 

 

 

CAPÍTULO III

RANTAINE

 

Quarenta anos antes da época em que se passam os fatos que narramos, havia em um arrabalde de Paris, entre a Fosse-aux-Loups e a Tombe Issoire, um albergue suspeito. Era uma casinha isolada e baixa. Morava aí, com a mulher e o filho, uma espécie de burguês bandido, antigo escrevente de tabelião no Châtelet, e ao depois ladrão descarado. Já havia fïgurado no tribunal criminal. O apelido da família era Rantaine. No referido pardieiro, em cima de uma cômoda de mogno, viam-se duas xícaras de porcelana pintada: em uma delas lia-se em letras douradas o seguinte dístico: “Lembrança de Amizade”; na outra: “Sinal de Estima”. A criança vivia ali na lama de parceria com o crime. Como o pai e a mãe pertenciam à burguesia mediana, o menino aprendia a ler: educavam-no. A mãe, pálida, quase esfarrapada, dava maquinalmente educação a seu filho: ensinava-o a soletrar; e interrompia o trabalho, ora para ajudar o marido em alguma emboscada, ora para entregar-se ao primeiro viandante. Durante esse tempo a Cruz de Jesus, aberta no lugar em que a deixavam, ficava sobre a mesa, e ao pé do livro o menino pensativo.

 

O pai e a mãe, presos em algum flagrante delito, desapareceram na noite penal. A criança desapareceu também. Lethierry, em suas excursões, encontrou um aventureiro como ele, livrou-o, não se sabe de que aperto, prestou-lhe serviços, afeiçoou-se-lhe, chamou-o a si, levou-o para Guernesey, achou-o inteligente para a navegação costeira, e deu-lhe sociedade. Era o pequeno Rantaine feito homem.

 

Rantaine, como Lethierry, tinha uma cabeça robusta, espáduas largas e possantes e quadris de Hércules Farnese. Lethierry e ele tinham o mesmo ar e a mesma aparência; Rantaine era mais alto. Quem os via, pelas costas, passear ao lado um do outro, dizia: lá estão os dois irmãos. De frente, o caso era diverso. Havia tanto de franco em Lethierry, como de reservado em Rantaine. Rantaine era circunspecto. Rantaine era esgrimista, tocava harmônica, espevitava uma vela com uma bala a vinte passos, dava um soco magnífico, recitava versos da Henríada, e adivinhava sonhos. Sabia de cor os Túmulos de São Denis, por Treneuil; dizia ter tido amizade com o sultão de Calicut — a quem os portugueses chamam Camorim. Se se pudesse folhear a carteira de lembranças que andava sempre no bolso dele, ter-se-iam encontrado, entre outras notas, algumas do gênero desta: “Em Lião, numa das frestas da parede do calabouço de São José, há uma lima escondida”. Falava com uma lentidão discreta. Dizia-se filho de um cavalheiro de São Luís. A sua roupa era toda misturada e marcada com iniciais diferentes. Ninguém mais suscetível em coisas de honra. Batia-se e matava.

 

A força servindo de invólucro à astúcia, tal era Rantaine.

 

A beleza de um soco aplicado por ele numa feira, sobre uma cabeza de moro, conquistara-lhe outrora a simpatia de Lethierry.

 

Suas aventuras eram completamente ignoradas em Guernesey. Variavam muito. Se os destinos têm um traje, o destino de Rantaine vestia a moda de arlequim. Tinha visto o mundo: tinha trabalhado muito. Era um circunavegador. Teve inumeráveis ofícios. Foi cozinheiro em Madagascar, criador de pássaros em Sumatra, general em Honolulu, jornalista religioso nas ilhas de Galápagos, poeta em Oomrawuttee e pedreiro-livre no Haiti. Neste último emprego pronunciara no Grande Goave uma oração fúnebre de que os jornais locais conservaram este fragmento: “Adeus, pois, bela alma! na abóbada azulada dos céus onde agora desferes o vôo, encontrarás sem dúvida o bom Padre Leandro Crameau do Pequeno Goave. Dize-lhe que, graças a dez anos de esforços gloriosos, terminaste a igreja de Anse-à-Veau! Adeus! gênio transcendente, maçom modelo!” A máscara de pedreiro-livre não lhe impedia, como se vê, trazer o nariz católico. A primeira conciliava-o com os homens do progresso; o segundo com os homens da ordem. Apregoava-se branco de raça pura, odiava os negros: apesar disso teria admirado a Soluque. Em Bordeaux, em 1815, foi ele verdet. Naquela época a fumaça de seu realismo saía-lhe pela cabeça fora, na forma de um imenso penacho branco. Passava a vida a fazer eclipses, aparecendo, desaparecendo e tornando a aparecer. Era um velhaco a girar como uma rodinha de fogo. Sabia o turco: em vez de guilhotinado, dizia neboissé. Fora escravo em Trípoli, na casa de um thaleb, e aí aprendera o turco à força de bengaladas; tinha por obrigação ir à noite à porta das mesquitas ler em alta voz diante dos fiéis o Alcorão, escrito em pranchas de madeira ou em omoplatas de camelo. Provavelmente era renegado.

 

Era capaz de tudo e mais alguma coisa.

 

Ria a gargalhadas e enrugava as sobrancelhas, a um tempo. Dizia: “Em política, só estimo as pessoas inacessíveis às influências”. Dizia: “Sou pelos costumes”. Dizia: “É preciso repor a pirâmide na base”. Era mais alegre e cordial que outra coisa. A forma da boca desmentia-lhe o sentido das palavras. As suas narinas eram antes ventas de animal. Tinha no canto dos olhos uma encruzilhada de rugas onde toda a sorte de pensamentos obscuros davam entrevista. Aí é que se podia decifrar o segredo da fisionomia dele. Assemelhavam-se as tais rugas a uma garra de abutre. O crânio era chato em cima e largo nas têmporas. A orelha disforme e embrenhada de cabelos parecia dizer: “Não fales ao animal que está aqui neste antro”.

 

Rantaine desapareceu um dia de Guernesey.

 

O sócio de Lethierry raspou-se, deixando vazia a caixa da sociedade.

 

Havia dinheiro dele na caixa, é certo; mas havia também 50.000 francos de Lethierry.

 

Lethierry ganhara uns 100.000 francos em quarenta anos de indústria e de probidade, no seu ofício de navegador costeiro e carpinteiro de navio; Rantaine levou-lhe metade.

 

Lethierry, meio arruinado, não cedeu, e tratou imediatamente de levantar-se. Aos homens de boa têmpera arruína-se a fortuna, não a coragem. Começava-se então a falar do vapor. Lethierry teve a idéia de tentar a máquina de Fulton, tão contestada, e ligar por meio de um vapor o arquipélago normando à França. Jogou tudo nessa idéia. Aplicou-lhe os restos da fortuna. Seis meses depois da fuga de Rantaine a gente de Saint-Sampson viu estupefata sair daquele porto um navio deitando fumo, e produzindo o efeito de um incêndio no mar: foi o primeiro vapor que sulcou as águas da Mancha.

 

Aquele navio, alcunhado Galeota de Lethierry, pelo desdém e ódio de todos, foi anunciado para fazer a carreira de Guernesey a Saint-Malo.

 

 

 

CAPÍTULO IV

CONTINUAÇÃO DA HISTÓRIA DA UTOPIA

 

Compreende-se que a coisa fosse muito mal recebida. Todos os proprietários de navios de carreira entre a ilha guernesiana e a costa francesa clamaram imediatamente. Denunciaram aquele atentado feito às Santas Escrituras e ao monopólio. Alguns templos fulminaram. Um reverendo, por nome Elihu, chamou ao vapor uma libertinagem. O barco à vela foi declarado ortodoxo. Viu-se distintamente que eram pontas do diabo as pontas dos bois que o vapor trazia e desembarcava. Durou o protesto um bom par de dias. Mas a pouco e pouco foram vendo que os tais bois chegavam menos estafados, e vendiam-se melhor, por ser a carne mais tenra; que também para os homens eram menores os riscos do mar; que a passagem, menos dispendiosa, era segura e mais curta; que eram fixas as horas da saída e da chegada; que o peixe, viajando mais depressa, chegava mais fresco, e que se podia levar aos mercados franceses as sobras das grandes pescas, tão freqüentes em Guernesey; que a manteiga das admiráveis vacas de Guernesey fazia mais rapidamente o trajeto no Devil-Boat que nas chalupas à vela, e não perdia na qualidade, de maneira que afluíam as encomendas de Dinan, de Saint-Brieuc e de Rennes; finalmente que, graças ao que se chamava Galeota de Lethierry, havia segurança de viagem, regularidade de comunicação, tráfego fácil e pronto, aumento de circulação, multiplicação de mercados, extensão de comércio; em suma, que era preciso aproveitar o Devil-Boat que violava a Bíblia e enriquecia a ilha. Alguns espíritos fortes arriscaram-se a aprovar o vapor com certa precaução. O Sr. Landoys, o escrevente, votou ao navio a sua estima. Era imparcialidade, porque ele não gostava de Lethierry: primeiro, porque Lethierry era mess, e Landoys era apenas senhor; depois porque, embora escrevente em Saint-Pierre-Port, Landoys era paroquiano de Saint-Sampson; ora, na paróquia, só havia dois homens sem preconceitos, Lethierry e Landoys; o menos que podia acontecer era que um detestasse o outro. A bordo do mesmo navio distanciam-se duas criaturas.

 

Contudo, o Sr. Landoys teve o cavalheirismo de aprovar o vapor. Outras pessoas o imitaram. Insensivelmente, o fato foi subindo; os fatos são como as marés; e, com o tempo, com o sucesso continuado e crescente, com a evidência do serviço prestado, o aumento da comodidade pública, lá veio um dia em que, à exceção de alguns homens de juízo, toda a gente admirou a Galeota de Lethierry.

 

Hoje seria menos admirada. Aquele vapor de há quarenta anos faria sorrir os nossos atuais construtores. Era uma maravilha disforme, um prodígio raquítico.

 

Entre os nossos grandes paquetes transatlânticos de hoje e o navio de rodas e fogo que Dionísio Papin fez manobrar na Fulde em 1707, não há menor distância que entre a nau Montebello, de 200 pés de comprimento, 50 de largura, com uma verga de 115 pés, arqueando 2.000 toneladas, levando 1.100 homens, 120 peças, 10.000 balas e 160 volumes de metralha, deitando 3.300 litros de ferro por banda e desenrolando ao vento em viagem 5.600 metros de lona, e o dromon dinamarquês do II século, que se achou cheio de pedras, arcos e clavas, nos atoleiros de Wester-Satrup, e depositado na municipalidade de Flensburgo.

 

Cem anos justos, 1707-1807, separam o primeiro barco de Papin do primeiro navio de Fulton. A Galeota de Lethierry era decerto um progresso sobre aqueles dois esboços, mas era esboço também. Nem por isso deixava de ser uma obra-prima. Todo embrião de ciência tem este duplo aspecto: monstro, como feto; maravilha, como germe.

 

 

 

CAPÍTULO V

O NAVIO-DIABO

 

A Galeota de Lethierry não era mastreada no ponto vélico, e não era isso defeito, porque é uma das leis da construção naval; demais, sendo o fogo o propulsor do navio, o velame era simplesmente acessório; um navio de rodas é quase insensível ao velame que se lhe põe. A Galeota era demasiado curta e arredondada; grande bochecha e largos quadris; Lethierry não teve a ousadia de fazê-la mais ligeira. A Galeota tinha alguns dos inconvenientes e das qualidades da pança: arfava pouco, mas rangia muito. A caixa das rodas era muito alta. A viga da coberta era maior do que comportava o comprimento. A máquina, que era massuda, atravancava o navio, e, para torná-lo capaz de um grande carregamento, foi preciso levantar muito a amurada, o que deu à Galeota, mais ou menos, o defeito das naus de 74, que só arrasando-as podem navegar e combater.

 

Sendo curta, devia girar depressa, visto que o tempo empregado em uma evolução está na razão do comprimento do navio; mas o peso tirava-lhe a vantagem que lhe provinha de ser curta. O pontal era muito largo, o que lhe atrasava a marcha, porque a resistência da água é proporcional à maior seção imergida e à velocidade do navio. A proa era vertical, o que não seria defeito hoje, mas naquele tempo era uso incliná-la uns 45 graus. Todas as curvas do casco estavam bem emparelhadas, mas não eram suficientemente longas para a obliqüidade e paralelismo com o lume da água, que deve ser rechaçada lateralmente. No mau tempo, calava muita água, ora na proa, ora na popa, o que mostrava ter vício de construção no centro de gravidade. Não estando o carregamento no lugar próprio, por causa do peso da máquina, acontecia que o centro de gravidade passava às vezes para trás do mastro grande, e então era preciso contar só com o vapor, e desconfiar da vela grande, porque o efeito da vela grande nesses casos fazia antes arribar que sustentar o vento. O recurso era, ao aproximar-se do vento, soltar a grande escota; deste modo o vento fixava-se na proa, pela amurada, e a vela grande fazia o efeito de uma vela de popa. A manobra era difícil. O leme era o leme antigo, não de roda como hoje, mas de cana, voltando sobre os eixos firmados no cadaste, e movido por uma trave horizontal que passava por cima da cava da culatra.

 

Tinha duas faluas suspensas. O navio era de quatro âncoras, a âncora grande, a segunda âncora, que é a que trabalha, workinganchor, e duas âncoras de amarra. Essas quatro âncoras, atadas por correntes, eram manobradas, segundo as ocasiões, pelo grande cabrestante da popa e o pequeno cabrestante da proa. Tendo apenas duas âncoras de amarra, uma a estibordo; outra a bombordo, o navio não podia ancorar em cruz, o que o desarmava quando sopravam certos ventos. Mas neste caso podia usar da segunda âncora. As bóias eram normais, e construídas de maneira a suportar um cabo da âncora, ficando sempre à flor da água. A chalupa tinha as dimensões úteis. A novidade do navio é que era, em parte, aparelhado com correntes; o que não lhe diminuía a mobilidade nem a tenção das manobras.

 

A mastreação, posto que secundária, não era incorreta; era fácil o manejo dos ovéns. As peças de madeira eram sólidas, mas grosseiras, pois que o vapor não exige madeiras tão delicadas como exigem as velas. Tinha aquele navio uma velocidade de 2 léguas por hora. Quando panejava, afeiçoava-se bem ao vento. A Galeota de Lethierry suportava bem o mar, mas não tinha boa quilha para dividir o líquido, nem se podia dizer que fosse airosa. Via-se que, em ocasião de perigo, cachopo ou tromba, não poderia ser bem manobrada. Tinha o ranger de uma coisa informe. Fazia na água o ruído que fazem as solas novas.

 

Era navio de comércio e não de guerra, e por isso mais exclusivamente disposto para a arrumação das cargas. Admitia poucos passageiros. O transporte do gado tornava difícil e especial a arrumação das cargas. Punham-se os bois no porão, o que complicava muito. Hoje os bois ficam no convés. As caixas das rodas do Devil Boat Lethierry eram pintadas de branco, o casco até o lume da água de vermelho, e o resto de preto, segundo o uso assaz feio deste século.

 

Vazio, calava 7 pés; carregado, 14.

 

Quanto à máquina, era poderosa. Tinha a força de um cavalo por 3 toneladas, o que é quase a força de um rebocador. As rodas estavam bem colocadas, um pouco adiante do centro de gravidade do navio. A máquina tinha a pressão máxima de 2 atmosferas. Gastava muito carvão. O ponto de apoio era instável, mas remediava-se, como ainda hoje se faz, por meio de um duplo aparelho alternado de duas manivelas fixas nas extremidades da árvore de rotação, e dispostas de maneira que uma estivesse no ponto forte quando a outra estava no ponto inerte. Toda a máquina repousava em uma só placa fundida; de modo que, mesmo em caso de grande avaria, nenhum lanço do mar lhe tirava o equilíbrio, e o casco disforme não podia deslocar a máquina. Para torná-la ainda mais sólida, puseram a redouça principal perto do cilindro, o que transportava do meio à extremidade o centro de oscilação do pêndulo. Inventaram-se depois os cilindros oscilantes que suprimem a redouça antiga; mas naquele tempo parecia que o sistema usado era a última palavra da mecânica.

 

A caldeira era dividida, e tinha a bomba competente. As rodas eram grandes, o que diminuía a perda de força, e o cano alto, o que aumentava a extração da fornalha; mas o tamanho das rodas dava azo às vagas, e a altura do cano dava azo ao vento. Raios de pau, fateixas de ferro, cubos de metal; eis o que eram as rodas bem construídas (o que admira) podendo ser desmontadas. Havia sempre três rodízios mergulhados; a velocidade do centro da roda não passava de um sexto da velocidade do navio; era esse o defeito. Além disso, a trave da manivela era muito comprida, e o vapor era distribuído no cilindro com demasiado atrito. Naquele tempo a máquina parecia e era admirável.

 

Foi ela feita na França, nas forjas de Bercy. Mess Lethierry delineou-a; o maquinista que a construiu morreu; de modo que aquela máquina era única e impossível de ser substituída. Existia o desenhista, mas faltava o construtor.

 

Custou a máquina 40.000 francos.

 

Lethierry construiu a Galeota na grande estiva coberta que fica ao lado da primeira torre entre Saint-Pierre-Port e Saint-Sampson. Empregou nessa construção tudo o que sabia em carpintaria do mar, e mostrou os seus talentos na construção do costado, cujas costuras eram estreitas e iguais, untadas de sarangousti, betume da Índia, melhor que alcatrão. O forro estava bem pregado. Para remediar a rotundidade do casco, ajustou ele um botalós ao gurupés, o que lhe permitia acrescentar à cevadeira uma cevadeira falsa. No dia do lançamento ao mar, disse Lethierry: “Estou na água!” E realmente a Galeota foi bem-sucedida.

 

Por acaso ou de propósito, a Galeota caiu ao mar no dia 14 de julho. Nesse dia Lethierry, de pé sobre o convés, entre as duas caixas das rodas, olhou fixamente para o mar e exclamou: “Agora tu! Os parisienses tomaram a Bastilha; agora tomamos-te nós!”

 

A Galeota de Lethierry fazia, uma vez por semana, a viagem de Guernesey a Saint-Malo. Partia na quinta-feira e voltava na sexta à tarde, véspera do mercado, que era no sábado. Era uma massa de madeira mais volumosa que as maiores chalupas costeiras do arquipélago, e, sendo a sua capacidade na razão das dimensões, uma só das suas viagens valia por quatro viagens de um cúter ordinário. Tirava por isso grandes lucros. A reputação de um navio depende da sua arrumação de cargas, e Lethierry era admirável neste mister. Quando ficou impossibilitado de trabalhar no mar, ensinou um marinheiro para substituí-lo. No fim de dois anos, o vapor dava líquidas umas 705 libras esterlinas por ano. A libra esterlina de Guernesey vale 24 francos, a da Inglaterra 25, e a de Jersey 26. Estas fantasmagorias são menos fantasmagóricas do que parecem; os bancos é que lucram com elas.

 

 

 

CAPÍTULO VI

LETHIERRY ENTRA NA GLÓRIA

 

Prosperava a Galeota. Mess Lethierry via chegar o dia em que ele seria gentleman. Em Guernesey não se pode ser gentleman da noite para o dia. Há uma escala entre o homem e o gentleman; o primeiro degrau é o nome simplesmente, Pedro, suponhamos; depois, vizinho Pedro; terceiro degrau, pai Pedro; quarto degrau, Senhor (Sieur) Pedro; quinto degrau, Mess Pedro; último degrau, gentleman (Monsieur) Pedro.

 

Esta escada, que sai da terra, interna-se pelo céu acima. Entra nela toda a hierarquia inglesa. Eis os degraus mais luminosos; acima de senhor (gentleman) há esq. (escudeiro), acima de esq., o cavalheiro (sir vitalício), depois o baronete (sir hereditário), depois o lorde (laird na Escócia), depois o barão, depois o visconde, depois o conde (earl na Inglaterra, jarl na Noruega), depois o marquês, depois o duque, depois o par da Inglaterra, depois o príncipe de sangue real, depois o rei. Esta escada sobe do povo à burguesia, da burguesia ao baronato, do baronato ao pariato, do pariato à realeza.

 

Graças aos seus triunfos, ao vapor, ao Navio-diabo, Mess Lethierry já era alguém. Para construir a Galeota teve de pedir dinheiro emprestado; endividou-se em Bremen e em Saint-Malo, mas ia amortizando a dívida todos os anos.

 

Lethierry comprou fiado, na entrada do porto de Saint-Sampson, uma linda casa de pedra e cal, novazinha, entre o mar e o jardim; no ângulo estava este nome: Bravées. A casa, cuja frente fazia parte da muralha do porto, era notável por duas fileiras de janelas, ao norte, do lado de um cercado cheio de flores, ao sul, do lado do mar; de modo que era uma casa com duas fachadas, dando uma para as tempestades, outra para as rosas.

 

As fachadas pareciam feitas para os dois moradores: Mess Lethierry e Miss Déruchette.

 

Era popular a casa de Lethierry, porque ele próprio acabou sendo popular. A popularidade nascia em parte da bondade, da educação e da coragem dele, parte dos homens que ele salvara de perigos iminentes, em grande parte do bom êxito da Galeota, e também por ter dado ao porto de Saint-Sampson o privilégio das partidas e chegadas do vapor. Vendo que decididamente o Devil-Boat era um bom negócio, Saint-Pierre, capital, reclamou o vapor para si, mas Lethierry conservou-o para Saint-Sampson. Era a sua cidade natal. “Daqui é que eu fui lançado ao mar”, dizia ele. Tinha por isso grande popularidade local.

 

A qualidade de proprietário e contribuinte fazia dele o que em Guernesey se chama um unhabitant. Deram-lhe um cargo. O pobre marinheiro galgou cinco degraus, dos seis que tem a ordem social guernesiana; era mess; estava quase gentleman, e quem sabe mesmo se não passaria daí? Quem sabe se algum dia não se havia de ler no almanaque de Guernesey, no capítulo Gentry and Nobility, esta inscrição inaudita e soberba: Lethierry esq. Mess Lethierry, porém, desdenhava, ou antes, ignorava o que era a vaidade das coisas. Sentia-se útil, era a satisfação dele; ser popular comovia-o menos que ser necessário. Já o dissemos, tinha dois amores, e, por conseqüência, duas ambições: Durande e Déruchette.

 

Fosse como fosse, Lethierry arriscou-se na loteria do mar, e tirou a sorte grande.

 

A sorte grande era Durande navegando.

 

 

 

CAPÍTULO VII

O MESMO PADRINHO E A MESMA PADROEIRA

 

Depois de criar o vapor, Lethierry batizou-o, deu-lhe o nome de Durande. Não lhe daremos daqui em diante senão este nome. Seja-nos lícito igualmente, qualquer que seja o uso tipográfico, escrever Durande sem ser em grifo, conformando-nos nisto ao pensamento de Mess Lethierry, para quem Durande era quase uma pessoa.

 

Durande e Déruchette é o mesmo nome. Déruchette é o diminutivo. É muito usado esse diminutivo no oeste da França.

 

No campo, os santos têm muitas vezes o seu nome com todos os diminutivos e aumentativos. Parece que há muitas pessoas e é só uma. Essa identidade de padroeiros e padroeiras com diferentes nomes não é rara; Lise, Lisette, Lisa, Elisa, Isabel, Lisbeth, Betsy, tudo isto é Elisabeth. É provável que Mahout, Machut, Malo e Magloire sejam o mesmo santo. Mas não fazemos cabedal disso.

 

Santa Durande é uma santa de Angoumois e da Charente. Será correto? Isso é lá com os bolandistas. Correto ou não, esta santa tem muitas igrejas.

 

Estando em Rochefort, e sendo ainda rapaz, Lethierry tomou conhecimento com aquela santa, provavelmente na pessoa de alguma formosa charentesa, talvez a rapariga das unhas bonitas. Restou-lhe recordação bastante para dar aquele nome às duas coisas que ele amava; Durande à Galeota, Déruchette à menina.

 

Lethierry era pai de uma e tio da outra.

 

Déruchette era filha de um irmão que ele teve. Morreram-lhe os pais. Lethierry adotou a criança e substituiu o pai e a mãe.

 

Déruchette não era somente sobrinha, era também afilhada de Lethierry. Foi ele quem a levou à pia, dando-lhe por padroeira Santa Durande, e por nome Déruchette.

 

Déruchette, já o dissemos, nasceu em Saint-Pierre-Port. Estava inscrita no registro da paróquia.

 

Enquanto a sobrinha foi criança e o tio pobre, ninguém se importou com o nome Déruchette; mas, quando a mocinha chegou a miss e o marinheiro a gentleman, Déruchette começou a desagradar a todos. Perguntavam a Mess Lethierry:

 

— Por que lhe dá esse nome?

 

— É um nome assim — respondia ele.

 

Tentaram mudar-lhe o nome. Lethierry não quis. Uma senhora da alta sociedade de Saint-Sampson, mulher de um ferreiro abastado, e que já não trabalhava, disse um dia a Mess Lethierry:

 

— Daqui em diante chamarei Nancy à sua filha.

 

— Por que não lhe chamará Lons-le-Saulnier? — disse ele.

 

A bela senhora não desistiu e, no dia seguinte, disse-lhe:

 

— Decididamente, não queremos que ela se chame Déruchette. Achei um lindo nome: Marianne.

 

— Lindo nome, realmente — disse Mess Lethierry —, mas composto de dois animais bem ruins, um mari (marido) e um âne (asno).

 

Lethierry manteve o nome de Déruchette.

 

Enganar-se-ia aquele que concluísse pelas últimas palavras de Lethierry que ele não queria casar a sobrinha. Queria casá-la, decerto, mas ao seu modo. Queria um marido da sua têmpera, muito trabalhador, de maneira que Déruchette não fizesse nada. Gostava das mãos tostadas do homem e das mãos alvas da mulher. Para que Déruchette não estragasse as lindas mãos que tinha, dava-lhe ocupações elegantes, mestre de música, piano, biblioteca, e bem assim alguma linha e agulhas em uma cestinha de costura.

 

Déruchette lia mais do que cosia, cantava e tocava mais do que lia. Mess Lethierry queria isso mesmo. Não lhe pedia nada mais que o encanto e a fascinação. Educou-a mais para ser flor do que para ser mulher. Quem tiver estudado os marinheiros há de compreender isto. As rudezas amam as delicadezas. Para que a sobrinha realizasse o ideal do tio, era preciso que fosse opulenta. Era isso o que Mess Lethierry compreendia perfeitamente. A máquina do mar trabalhava com esse fim. Durande devia dotar Déruchette.

 

 

 

CAPÍTULO VIII

A MELODIA BONNY DUNDEE

 

Déruchette ocupava o mais lindo quarto da casa, com duas janelas, mobília de mogno, cama de cortinas riscadas de verde e branco, tendo vista para o jardim e para a colina onde está o castelo do Vale. Do outro lado desta colina é que estava o Tutu da Rua.

 

Déruchette tinha no quarto a música e o piano. Acompanhava-se ao piano cantando a canção de sua preferência, a melancólica melodia escocesa Bonny Dundee; a noite encerra-se toda naquela ária, a aurora encerrava-se toda naquela voz; isto produzia insólito contraste. Dizia-se: “Miss Déruchette está ao piano”; e os que passavam ao sopé da colina paravam algumas vezes diante do muro do jardim para ouvir aquele canto tão fresco e aquela canção tão triste.

 

Déruchette era a alegria perpassando a casa toda, e fazendo ali uma eterna primavera. Era formosa, porém, mais linda que formosa, e mais gentil que linda. Fazia lembrar aos velhos pilotos amigos de Mess Lethierry aquela princesa de uma canção de soldados e marujos, tão bela “que passava por tal no regimento”.

 

— Déruchette tem um cabo de cabelos — dizia Mess Lethierry.

 

Era lindíssima desde a infância. Receou-se por muito tempo que o nariz fosse disforme, mas a pequena, provavelmente disposta a ficar bonita, manteve-se de modo que não adquiriu defeito algum até tornar-se moça; o nariz nem ficou comprido nem curto; e, chegando à juventude, Déruchette conservou-se encantadora.

 

Dava o nome de pai ao tio.

 

Mess Lethierry concedia-lhe algumas funções de jardineira e mesmo de dona de casa. A moça regava os canteiros de malvaísco, de verbasco, de flox e erva-benta; cultivava oxálida rosada; utilizava o clima da ilha de Guernesey, tão hospitaleira às flores. Tinha, como toda a gente, aloés plantado no chão, e, o que é mais difícil, fazia pegar a potentilha de Nepal. Tinha uma horta habilmente arranjada; plantava espinafres, rabanetes e ervilhas; sabia semear a couve-flor da Holanda e a couve-de-bruxelas; transplantava-as em julho; nabos para agosto, chicória para setembro, pastinaca para o outono, e rapúncio para o inverno. Mess Lethierry consentia em tudo isso, contanto que não trabalhasse muito com a pá e o ancinho, e sobretudo que não fosse ela própria quem estrumasse a terra. Deu-lhe duas criadas, uma chamada Graça, e a outra Doce, nomes usados em Guernesey. Graça e Doce faziam o serviço da casa e do jardim, e tinham o direito de andar com as mãos vermelhas.

 

O quarto de Mess Lethierry era retirado, dava para o porto e era contíguo à sala grande do rés-do-chão, onde havia a porta de entrada e onde iam ter as diversas escadas da casa. A mobília do quarto compunha-se de uma maca de marujo, um cronômetro, uma mesa, uma cadeira e um cachimbo. O teto, construído com vigas, era caiado, bem como as paredes; à direita da porta estava pregado o arquipélago da Mancha, bela carta marítima, onde se lia a seguinte inscrição: “W. Faden, 5, Charing Cross, Geographer to His Majesty”; e à esquerda estava pendurado um desses grandes lenços de algodão que trazem figurados os sinais de todas as marinhas do globo, tendo nos quatro cantos os estandartes da França, da Rússia, da Espanha e dos Estados Unidos da América, e no centro a Union Jack da Inglaterra.

 

Doce e Graça eram duas criaturas ordinárias, devendo tomar-se esta palavra à boa parte. Doce não era má e Graça não era feia. Não lhes ficavam mal tão perigosos nomes. Doce, que era solteira, tinha um amante. Nas ilhas da Mancha usa-se tanto a palavra como a coisa. As duas criadas faziam o serviço com uma espécie de lentidão própria à domesticidade normanda no arquipélago. Graça, faceira e bonita, contemplava constantemente o horizonte com uma inquietação de gato. Era porque, tendo também o seu amante, tinha, de mais a mais, dizia-se, marido marinheiro, cuja volta receava. Mas nós não temos nada com isto. A diferença entre Graça e Doce é que, numa casa menos austera e menos inocente, Doce ficaria criada de servir e Graça subiria à posição de criada-grave. Os talentos possíveis de Graça eram nulos para uma moça cândida como Déruchette. Demais, os amores de Doce e Graça eram latentes. Nada chegava aos ouvidos de Mess Lethierry, nada salpicava sobre Déruchette.

 

A sala baixa do rés-do-chão, com chaminé, e rodeada de bancos e mesas, servira no século passado para as reuniões de um conventículo de refugiados franceses protestantes. A parede de pedra nua não tinha ornamento algum a não ser um quadro de madeira preta com um cartaz de pergaminho ornado das proezas de Benigno Bossuet, bispo de Meaux. Alguns pobres diocesanos daquele gênio, perseguidos por ele na ocasião da revocação do Edito de Nantes, e abrigados em Guernesey, penduraram aquele quadro na parede como um testemunho.

 

Quem podia decifrar a letra tosca e a tinta amarelada lia naquele cartaz os seguintes fatos pouco conhecidos: “A 29 de outubro de 1685, demolição dos templos de Morcef e de Nanteuil, requerida ao rei pelo Sr. Bispo de Meaux”. “A 2 de abril de 1686, prisão de Cochard pai e filho por motivo de religião, a requerimento do Sr. Bispo de Meaux. Foram soltos por terem abjurado.” “A 28 de outubro de 1699 o Sr. Bispo de Meaux envia ao Sr. de Pontchartrain uma memória expondo a necessidade de transportar as Sras. de Chalandes e de Neuville, donzelas da religião reformada, para a casa das Novas-Católicas de Paris.” “A 7 de julho de 1703 executou-se a ordem pedida ao rei pelo Sr. Bispo de Meaux de encerrar no hospital um tal Beaudoin e sua mulher, maus católicos, de Fublaines.”

 

No fundo da sala, ao pé da porta do quarto de Mess Lethierry, havia uma pequena divisão de tábuas, que tinha sido tribuna huguenote, e era então, graças a uma grade arranjada, o office do vapor, isto é, escritório da Durande ocupado por Mess Lethierry em pessoa. Na velha estante de carvalho um registro com as páginas cotadas. Deve e Há de Haver, substituía a Bíblia.

 

 

 

CAPÍTULO IX

O HOMEM QUE ADIVINHOU QUEM ERA RANTAINE

 

Mess Lethierry governou a Durande enquanto pôde navegar, e nunca teve outro piloto nem outro capitão; mas lá chegou um dia em que ele foi obrigado a deixar o mar. Escolheu para substituí-lo o Sr. Clubin, de Torteval, homem silencioso. O Sr. Clubin tinha, em toda a costa, fama de severa probidade. Era o alter ego e o vigário de Mess Lethierry.

 

O Sr. Clubin, embora desse mais ares de tabelião que de marinheiro, era um marítimo capaz e raro. Tinha todos os talentos que exige o perigo perpetuamente transformado. Era arrumador hábil, gajeiro meticuloso, contramestre desvelado e perito, timoneiro robusto, piloto instruído e atrevido capitão. Era prudente e algumas vezes levava a prudência ao ponto de ousar, o que é uma grande qualidade na vida marítima. Tinha o receio do provável temperado pelo instinto do possível. Era um desses marinheiros que afrontam o perigo em uma proporção conhecida deles, sabendo triunfar em todas as aventuras. Toda a certeza que o mar pode deixar a um homem, ele a tinha. Era, além disso, nadador de fama; pertencia a essa raça de homens exercitados na ginástica da vaga, que se conservam na água o tempo que se quer, e que, partindo de Havre-des-Pas, dobram a Colette, fazem a volta de Ermitage e a do Castelo Elisabeth e voltam ao cabo de duas horas ao ponto de partida. Era de Torteval e dizia-se que fizera muitas vezes a nado o temível trajeto desde Manois até a ponta de Plaintmont.

 

Uma das coisas que mais recomendaram o Sr. Clubin a Mess Lethierry foi que, conhecendo ou penetrando Rantaine, assinalou a Mess Lethierry a improbidade daquele homem, e disse-lhe: “Rantaine há de roubá-lo”. Verificou-se a profecia. Mais de uma vez, em negócios pouco importantes, é verdade, Mess Lethierry experimentou a escrupulosa honestidade do Sr. Clubin, e descansava nele. Mess Lethierry dizia: “Consciência quer confiança”.

 

 

 

CAPÍTULO X

NARRATIVAS DE VIAGENS DE LONGO CURSO

 

Mess Lethierry, que se não acomodava de outro modo, vestia sempre a sua roupa de bordo, preferindo mesmo a japona de Mess Lethierry, que se não acomodava de outro modo, vestia sempre a sua roupa de bordo, preferindo mesmo a japona de marinheiro à japona de piloto. Déruchette torcia o nariz por isso. Nada é tão belo como uma caretazinha da formosura em cólera. Déruchette ralhava e ria: “Bom paizinho”, dizia ela, “está cheirando a alcatrão”. — E dava uma palmadinha na larga espádua do marinheiro.

 

Aquele velho herói do mar trouxe das suas viagens narrativas maravilhosas. Viu em Madagáscar plumas de pássaro das quais bastavam três para cobrir uma casa. Viu na Índia hastes de azedinhas de 9 pés de altura. Viu na Nova Holanda bandos de perus e de patos dirigidos e guardados por um cão de pastor, que naquela terra é um pássaro e chama-se galinha-silvestre. Viu cemitérios de elefantes. Viu na África uma espécie de homens-tigres de 7 pés de altura. Conhecia os costumes de todos os macacos, desde o macaco bravo até o macaco barbado. No Chile viu uma bugia comover os caçadores apresentando-lhes o filho.

 

Viu na Califórnia um tronco de árvore oco, no interior do qual um homem a cavalo podia andar 150 passos. Viu em Marrocos os mozabitas e os biskris baterem-se com matraks e barras de ferro, os biskris por terem sido tratados de kelb, que quer dizer cães, e os mozabitas por terem sido tratados de khamsi, que quer dizer gente da quinta seita. Viu na China cortarem em pedacinhos o pirata Chanh-thong-quan-harh-Quoi, por ter assassinado o âp de uma aldeia. Em Thudanmot, viu um leão arrebatar uma mulher velha do meio do mercado da cidade. Assistiu à chegada da grande cobra mandada de Cantão a Saigon, para celebrar, no Pagode de Choeen, a festa de Quan-nam, deusa dos navegantes. Contemplou na terra dos Moi o grande Quan-Su.

 

No Rio de Janeiro, viu as senhoras brasileiras colocarem nos cabelos pequenas bolas de gaze contendo cada uma delas um vaga-lume, o que lhes fazia uma coifa de estrelas. Destruiu no Uruguai os formigueiros, e no Paraguai um certo bichinho, que ocupa com as patas um diâmetro de um terço de vara, e ataca o homem por meio dos próprios pêlos, que lhe atira em cima, e que se cravam na carne, produzindo pústulas. No rio Arinos, afluente do Tocantins, nas matas virgens do norte de Diamantina, verificou a existência do terrível povo-morcego, os murcilagos, homens que nascem com os cabelos brancos e os olhos vermelhos, habitam os bosques sombrios, dormem de dia, acordam de noite e pescam e caçam nas trevas, vendo melhor do que quando há lua.

 

Perto de Beirute, no acampamento de uma expedição de que fazia parte, foi roubado de uma tenda um pluviômetro; então um feiticeiro vestido de duas ou três faixas de couro, assemelhando-se a um homem vestido com os próprios suspensórios, agitou tão furiosamente uma campainha na ponta de um chifre que apareceu logo uma hiena trazendo o pluviômetro. A hiena é que o tinha roubado.

 

Estas histórias verdadeiras assemelhavam-se tanto a histórias da carochinha que divertiam Déruchette.

 

A boneca de Durande era o elo entre o vapor e a moça. Chama-se boneca nas ilhas normandas a figura talhada na proa, estátua de madeira mais ou menos esculpida. Daí vem que, para dizer navegar, a gente das ilhas usa desta locução: estar entre popa e boneca (poupe et poupée).

 

A boneca de Durande tinha as predileções de Mess Lethierry. Ele encomendara ao carpinteiro que a fizesse parecida com Déruchette. Parecia-se como obra feita a machado. Era uma acha de lenha esforçando-se por ser moça bonita.

 

Mas a coisa, embora disforme, iludia Mess Lethierry. Contemplava-a como um crente. Estava de boa-fé diante daquela figura. Reconhecia nela a imagem de Déruchette. E mais ou menos assim que o dogma se parece com a verdade, e o ídolo com Deus.

 

Mess Lethierry tinha duas grandes alegrias por semana; uma na terça-feira e outra na sexta. Primeira alegria, ver partir Durande; segunda alegria, vê-la chegar. Encostava-se à janela, contemplava a sua obra, era feliz. Há alguma coisa assim no Gênesis: Et vidit quod esset bonum.

 

Na sexta-feira, a presença de Mess Lethierry na janela era um sinal. Quem o via chegar à janela da casa de Bravées, acender o cachimbo, dizia logo: “Ah! o vapor está a chegar”. Uma fumaça anunciava a outra.

 

A Durande, entrando no porto, atava amarra debaixo das janelas de Mess Lethierry, numa grande argola de ferro. Nessas noites Lethierry gozava um admirável sono na sua maca, sentindo de um lado Déruchette adormecida, do outro Durande amarrada.

 

O ancoradouro de Durande era perto do porto. Diante da casa de Lethierry havia um pequeno cais.

 

O cais, a casa, o jardim, as marinhas, orladas de sebes, a maior parte das casas vizinhas, nada existe hoje. A exploração do granito de Guernesey fez vender os terrenos todos. Aquele lugar está hoje ocupado por estâncias de quebradores de pedra.

 

 

 

CAPÍTULO XI

LANCE DE OLHOS AOS MARIDOS EVENTUAIS

 

Déruchette ia crescendo e não se casava.

 

Mess Lethierry fê-la uma moça de mãozinhas alvas, mas tornou-a exigente. Educações daquelas voltam-se sempre contra os pais.

 

Ele próprio era mais exigente ainda que a filha. Imaginava um marido para Déruchette que fosse também marido de Durande. Queria de um lance prover as duas filhas. Queria que o companheiro de uma fosse o piloto da outra. Que é um marido? É o capitão de uma viagem. Por que motivo não dar um só capitão ao navio e à filha? O casal obedece às marés. Quem sabe guiar uma barca sabe guiar uma mulher. Ambas são sujeitas à lua e ao vento. O Sr. Clubin, tendo apenas quinze anos menos que Mess Lethierry, não podia ser para Durande senão um capitão provisório; era preciso um piloto moço, um capitão definitivo, um verdadeiro sucessor do inventor, do criador. O piloto de Durande seria o genro de Mess Lethierry. Por que motivo não fundir os dois genros em um só?

 

Lethierry afagava esta idéia. Via aparecer-lhe em sonhos um noivo. Um gajeiro possante e tostado, um atleta do mar, eis o seu ideal. Não era esse o ideal de Déruchette, o sonho da moça era mais cor-de-rosa.

 

Fosse como fosse, o tio e a sobrinha pareciam estar de acordo em não ter pressa. Quando viram Déruchette tornar-se herdeira provável, apresentaram-se pedidos aos centos. Estas solicitudes nem sempre são de boa qualidade. Mess Lethierry sentia isso, e dizia entre dentes: “Moça de ouro, noivo de cobre”. E despedia os pretendentes. Esperava. Ela também.

 

Coisa singular, Lethierry não fazia cabedal da aristocracia. Por esse lado era um inglês inverossímil. Dificilmente se acreditará que ele chegou a recusar um Ganduel, de Jersey, e um Bugnet-Necolin, de Serk. Houve mesmo quem ousasse afirmar, mas nós não acreditamos, que ele recusou uma proposta da aristocracia de Aurigny, indeferindo o pedido de um membro da família Edou, que evidentemente descende de Edouard, o Confessor.

 

 

 

CAPÍTULO XII

EXCEÇÃO NO CARÁTER DE LETHIERRY

 

Mess Lethierry tinha um defeito, e grande. Odiava, não uma pessoa, mas uma coisa, o padre. Lendo um dia, em Voltaire — costumava ler e lia Voltaire —, estas palavras: “os padres são gatos”, Mess Lethierry pôs o livro de parte, e ouviram-no murmurar baixinho: “sinto-me cão”.

 

Cumpre não esquecer que os padres luteranos, calvinistas e católicos atacaram-no vivamente e perseguiram-no docemente, por causa da construção do Devil-Boat local. Ser revolucionário em navegação, tentar introduzir um progresso no arquipélago normando, impor à pobre ilha de Guernesey os esboços de uma invenção nova era, conforme dissemos, uma temeridade condenável. Lethierry não escapou a uma certa condenação. Não se esqueçam que falamos do clero antigo, diferente do clero atual, que, em quase todas as igrejas locais, tem uma tendência liberal para o progresso. Pearam-no de todos os modos; opuseram-lhe toda a soma de obstáculos que pode haver nas prédicas e nos sermões. Odiado pelos homens da Igreja, Lethierry aborrecia-os também. O ódio dos outros era a circunstância atenuante do ódio dele.

 

Mas a sua aversão pelos padres era idiossincrática. Para odiá-los não precisava ser odiado. Como ele próprio dizia, era o cão daqueles gatos. Era contra eles pela idéia, e, o que é mais irredutível, pelo instinto. Sentia as garras latentes dos padres, e mostrava-lhes os dentes. A torto e a direito, confessemo-lo, e nem sempre a propósito. É erro não distinguir. Não são bons os ódios absolutos. Nem mesmo o vigário saboiano mereceria as simpatias de Lethierry. Não é certo que para ele houvesse um bom padre. À força de filosofar, ia perdendo a circunspecção. Existe a intolerância dos tolerantes, como existe o furor dos moderados. Mas Lethierry era tão boa alma que não podia ser odiento. Antes repelia que atacava. Fugia dos homens da Igreja. Tinham-lhe feito mal, Lethierry limitava-se a não querer-lhes bem. A diferença entre o ódio dos outros e o dele é que o dos outros era animosidade, e o dele antipatia.

 

Guernesey, apesar de ilha pequena, tem lugar para duas religiões. Existem nela a religião católica e a religião protestante. Devemos acrescentar que aí não entram as duas religiões na mesma igreja. Cada culto tem a sua capela ou o seu templo. Na Alemanha, em Heidelberg, por exemplo, a coisa arranja-se menos escrupulosamente; divide-se uma igreja; metade para São Pedro, metade para Calvino; entre as duas há um tabique para prevenir os murros e pescoções; partes iguais; os católicos têm três altares; os huguenotes têm três altares; como as horas do oficio são sempre as mesmas, o sino comum chama na mesma ocasião para os dois serviços. Convoca a um tempo os fiéis para Deus e para o diabo. Simplificação.

 

A fleuma alemã acomoda-se com estas propinqüidades. Mas, em Guernesey, cada religião tem casa própria. Há paróquia ortodoxa e paróquia herética. Pode-se escolher. Nem uma nem outra foi a escolha de Mess Lethierry.

 

Aquele marinheiro, aquele operário, aquele filósofo, aquele parvenu do trabalho, simples na aparência, não o era em substância. Tinha lá as suas contradições e pertinácias. Era inabalável a respeito do padre. Daria quinaus a Montlosier.

 

Costumava dizer chufas muito descabidas. Tinha expressões próprias dele, extravagantes, mas sem deixar de ter um sentido. Ir confessar-se era para ele pentear a consciência. Os poucos estudos que tinha, pouquíssimos, feitos aqui e ali, entre duas borrascas, complicavam-se com erros de ortografia. Tinha também erros de pronúncia, nem sempre ingênuos. Quando se fez a paz entre a França de Luís XVIII e a Inglaterra de Wellington, Mess Lethierry disse: “Bourmont foi o traitre d'union (‘traidor’ por ‘traço’) entre os dois campos”. Lethierry escreveu uma vez a palavra papado (papauté) do seguinte modo: pape ôté (papa arrancado). Não acreditamos que ele fizesse isto de propósito.

 

Este antipapismo não o conciliava com os anglicanos. Os presbíteros protestantes não o estimavam mais que os curas católicos. Ante os mais graves dogmas, ostentava-se quase sem reservas a irreligião de Lethierry. Deu-se o acaso de ser levado a ouvir um sermão acerca do inferno, pregado pelo Reverendo Jaquemin Herodes, sermão magnífico, empachado de textos sagrados, que provavam as penas eternas, os suplícios, os tormentos, as condenações, os castigos inexoráveis, os fogaréus sem fim, as maldições inextinguíveis, as cóleras do Onipotente, os furores celestes, as vinganças divinas, coisas incontestáveis; Lethierry ouviu o sermão e, ao sair com um dos fiéis, disse-lhe baixinho: “Ora, quer ver? Eu cá tenho uma idéia ratona. Suponho que Deus é bom”.

 

Adquiriu este germe de ateísmo quando residiu na França.

 

Posto que fosse guernesiano, e de raça pura, chamavam-no na ilha o francês, por causa de seu espírito improper. Nem ele o ocultava; estava impregnado de idéias subversivas. A sanha de fazer o vapor, o Devil-Boat, provava bem isto.

 

Lethierry costumava dizer: “Eu mamei o leite 89”. Mau leite.

 

E que despropósitos fazia! E difícil viver intato nos lugares pequenos. Na França, guardar as aparências, na Inglaterra, ser respeitável é quanto basta para passar a vida tranqüilo. Ser respeitável é coisa que implica uma imensidade de observâncias, desde o domingo bem santificado até a gravata bem atada.

 

“Não te faças apontar com dedo”, eis uma lei terrível. Ser apontado é o diminutivo de anátema. As pequenas cidades, charcos de mexeriqueiros, são exímias nesta malignidade isoladora, que é a maldição vista ao invés do óculo. Os mais intrépidos arreceiam-se disto. Afronta-se a metralha, afronta-se o furacão, recua-se diante da malignidade. Mess Lethierry era mais tenaz que lógico. Mas debaixo dessa pressão dobrava-se-lhe a tenacidade. Deitava água no vinho, locução prenhe de concessões latentes e às vezes inconfessáveis. Afastava-se dos homens do clero, mas não lhes fechava resolutamente a porta. Nas ocasiões oficiais e nas épocas das visitas pastorais, recebia atenciosamente tanto o presbítero luterano como o capelão papista. Acontecia-lhe de quando em quando acompanhar à paróquia anglicana a menina Déruchette, que, aliás, só ia lá nas quatro grandes festas do ano.

 

Em resumo, esses compromissos, que lhe custavam muito, irritavam-no, e, longe de incliná-lo para os homens da Igreja, aumentavam o seu pendor interno. Aquela criatura sem azedume era acrimoniosa apenas nesse ponto. Não havia meio de emendá-la.

 

De fato, e sem remissão, era esse o temperamento de Lethierry.

 

Aborrecia todos os cleros. Tinha a irreverência revolucionária. Distinguia pouco entre duas formas de culto. Nem mesmo fazia justiça a este grande progresso: não acreditar na presença real. A sua miopia nestas coisas chegava ao ponto de não ver a diferença entre um ministro e um sacerdote. Confundia um reverendo doutor com um reverendo padre. “Wesley não vale mais que Loiola”, dizia ele. Quando via passar um pastor protestante de braço com a mulher, desviava os olhos. “Padre casado!”, dizia ele, com o acento absurdo que essas duas palavras tinham na França naquela época. Contava que na viagem à Inglaterra tinha visto a “bispa de Londres”. A sua revolta contra essas uniões ia até a cólera. “Vestido não casa com vestido!”, exclamava ele. O sacerdote fazia-lhe efeito de um sexo. Não teria dúvida em dizer: “Nem homem nem mulher: padre”. Aplicava com mau gosto tanto ao clero anglicano como ao papista os mesmos epítetos desdenhosos; enrolava as duas sotainas na mesma fraseologia; e não se dava ao trabalho de variar, a propósito de padres, quaisquer que fossem, católicos e luteranos, as metonímias soldadescas usadas naquele tempo.

 

— Casa-te com quem quiseres — dizia ele a Déruchette —, contanto que não seja com algum padreco.

 

 

 

CAPÍTULO XIII

O DESLEIXO FAZ PARTE DA GRAÇA

 

Dita uma coisa, Mess Lethierry não a esquecia mais; dita uma coisa, Miss Déruchette esquecia-a logo. Esta era a diferença entre o tio e a sobrinha.

 

Déruchette, educada como os leitores viram, acostumou-se a pouca responsabilidade. Há mais um perigo latente numa educação tomada muito a sério. Querer tornar felizes os filhos, antes do tempo, é talvez uma imprudência.

 

Déruchette acreditava que, estando ela contente, tudo o mais ia muito bem. Via o tio alegre quando ela estava alegre. As suas idéias eram pouco mais ou menos as mesmas de Mess Lethierry. Satisfazia os sentimentos religiosos indo à paróquia quatro vezes por ano. Já a encontramos vestida para a festa do Natal. Da vida humana não sabia coisa alguma. Tinha disposições para amar um dia loucamente. Enquanto não chegava esse dia, era menina folgazã.

 

Déruchette cantava ao acaso, tagarelava ao acaso, vivia sem esforço, soltava uma palavra e passava, fazia um gesto e fugia, era encantadora. Ajunte-se a isto a liberdade inglesa. Na Inglaterra as crianças andam sós, as meninas são senhoras de si, a adolescência vai à rédea solta. Tais são os costumes. Mais tarde, as moças livres fazem-se mulheres escravas. Tomem à boa parte estas duas expressões: livres no crescimento, escravas no dever.

 

Déruchette acordava todos os dias com a inconsciência das suas ações da véspera. Bem embaraçado ficaria quem lhe perguntasse o que ela havia feito na semana anterior. Isto, porém, não impedia que ela tivesse, em certas horas turvas, uma indisposição misteriosa, e sentisse uma tal ou qual passagem do sombrio da vida no seu desabrochamento e na sua jovialidade.

 

Há nuvens dessas nos céus como aquele; mas passavam depressa. Déruchette voltava a si com uma gargalhada, sem saber nem por que estivera triste, nem por que estava serena.

 

Brincava com tudo. De travessa que era, bulia com quem passava. Caçoava com os rapazes. Não escaparia o próprio diabo, se o encontrasse em caminho. Era gentil, e ao mesmo tempo tão inocente que abusava de si própria. Dava um sorriso como um gatinho dá um bofete. Tanto pior para quem ficasse arranhado. Nem pensava mais nisso. O dia de ontem não existia para ela; vivia na plenitude do dia de hoje. Eis o que é a excessiva felicidade. Naquela moça a lembrança dissipava-se como neve que se funde.

 

 

 

LIVRO QUARTO

O “BAGPIPE”

 

CAPÍTULO PRIMEIRO

PRIMEIROS RUBORES DE AURORA OU DE INCÊNDIO

 

Gilliatt não trocara nunca uma palavra com Déruchette.

 

Conhecia-a por tê-la visto de longe, como se conhece a estrela da manhã.

 

Na época em que Déruchette encontrou Gilliatt, no caminho de SaintPierre-Port ao Vale, e fez-lhe a surpresa de traçar na neve o nome dele, tinha dezesseis anos. Exatamente na véspera Mess Lethierry disse-lhe as seguintes palavras:

 

— Deixa-te de seres travessa; estás moça feita.

 

O nome Gilliatt, escrito por aquela menina, caiu em uma profundidade desconhecida.

 

Que eram as mulheres para Gilliatt? Nem mesmo ele poderia dizê-lo. Quando encontrava alguma, causava-lhe medo e cobrava-lhe medo. Só na última extremidade falava às mulheres. Nunca foi amante de nenhuma camponesa. Quando se achava só em um caminho e avistava alguma mulher ao longe, Gilliatt galgava um cercado, ou metia-se em uma moita e ia-se embora. Até das velhas fugia. Só tinha visto uma parisiense. Parisiense de arribação, estranho acontecimento em Guernesey naqueles tempos idos. E Gilliatt ouvira a parisiense contar nestes termos os seus infortúnios: “Estou muito maçada, caíram-me uns chuviscos no chapéu, esta cor é muito sujeita a ficar manchada”.

 

Tendo encontrado, tempo depois, entre as folhas de um livro uma antiga gravura de modas representando uma dama da calçada de Antin em grande toalete, pregou-a na parede como lembrança dessa aparição. Nas noites de estio, escondia-se atrás das rochas de Houmet Paradis para ver as camponesas banharem-se no mar. Um dia, através de uma cerca, viu a feiticeira de Torteval atar a liga que lhe tinha caído. Provavelmente Gilliatt era virgem.

 

Naquela manhã de Natal em que Déruchette escrevera rindo o nome dele, Gilliatt voltou para casa não sabendo já por que motivo tinha saído.

 

Não dormiu de noite. Pensou em mil coisas: de que faria bem se cultivasse rabanetes no jardim; que não tinha visto passar o navio de Serk e talvez lhe houvesse acontecido alguma coisa; que tinha visto erva-pinheira em flor, coisa rara naquela estação.

 

Gilliatt nunca soubera com certeza que parentesco havia entre ele e a velha que morrera em casa; disse consigo que devia ser sua mãe e pensou nela com redobrada ternura. Lembrou-se do enxoval de mulher que estava na mala de couro. Pensou que o Reverendo Jaquemin Herodes seria provavelmente nomeado decano de Saint-Pierre-Port, e que a paróquia de Saint-Sampson ficaria vaga. Pensou que o dia seguinte ao de Natal seria o 27° dia de lua, e que por conseqüência a maré enchente seria às 3 horas e 21 minutos, a média às 7 horas e 15 minutos, a vazante às 9 horas e 36 minutos. Recordou até nas menores particularidades, o vestuário de highlander que lhe vendera o bagpipe, boné enfeitado com um cardo à claymore, a casaca de abas curtas e quadradas, o saiote, o scilt or philaberg, adornado com uma bolsa e uma boceta de chifre, o alfinete feito de uma pedra escocesa, os dois cintos, as sashwises, o belts, a espada, o swond, o sabre, o dirk e o skene dhu, faca preta de cabo preto ornada de dois cairgorums, e os joelhos nus do soldado, as meias, as polainas riscadas e os sapatos de borlas. Tudo aquilo tornou-se espectro, perseguiu-o, deu-lhe febre até que ele adormeceu.

 

Gilliatt acordou quando o sol já ia alto e o seu primeiro pensamento foi Déruchette.

 

Adormeceu no dia seguinte e sonhou toda a noite com o soldado escocês. Sonhou também com o velho cura Jaquemin Herodes. Quando acordou pensou outra vez em Déruchette e teve contra ela uma violenta cólera; lamentou não ser criança para ir atirar pedras nas vidraças da moça.

 

Depois lembrou-se de que, se fosse criança, teria ainda sua mãe, e entrou a chorar.

 

Projetou ir passar uns três meses em Chausey ou em Minquiers, mas não partiu.

 

Não tornou a pôr os pés na estrada de Saint-Pierre-Port ao Vale. Imaginava que o seu nome ficara gravado na terra e que todos os viandantes deviam olhar para ele.

 

 

 

CAPÍTULO II

GILLIATT VAI ENTRANDO PASSO A PASSO NO DESCONHECIDO

 

Gilliatt ia todos os dias ver a casa de Lethierry. Não o fazia de propósito, mas encaminhava-se para esse lado. Acontecia então passar sempre pelo caminho que costeava o muro do jardim de Déruchette.

 

Estando um dia naquele caminho, ouviu a uma mulher do mercado, que falava a outra, e vinha da casa de Lethierry: “Miss Lethierry gosta muito de sea kales”.

 

Gilliatt fez no jardim da casa mal-assombrada uma fossa de sea kales. O sea kale é uma couve que tem o sabor de aspargo.

 

O muro do jardim da casa de Déruchette era baixinho; podia-se pular facilmente. Esta idéia pareceu terrível a Gilliatt. Mas quem passava não podia deixar de ouvir as vozes das pessoas que falavam nos quartos ou no jardim. Gilliatt não escutava, mas ouvia. De uma vez ouviu disputar as duas criadas, Graça e Doce. Como o rumor vinha daquela casa, soou-lhe como se fosse música.

 

De outra vez, distinguiu uma voz que não era como as outras, e que lhe pareceu ser a voz de Déruchette. Deitou a correr.

 

As palavras que ouviu à moça ficaram para sempre gravadas no seu pensamento. Repetia-as a cada instante. Essas palavras eram: “Faz favor de me dar a vassoura?”

 

Gilliatt foi ousando a pouco e pouco. Já se atrevia a ficar parado. Aconteceu uma vez que Déruchette, que não podia ser vista de fora, embora tivesse a janela aberta, estava ao piano e cantava. Cantava a canção Bonny Dundee. Gilliatt empalideceu, mas levou a firmeza até ouvir a canção toda.

 

Chegou a primavera. Gilliatt teve uma visão: abriu-se o céu. Gilliatt viu Déruchette regando uns pés de alface.

 

Daí a pouco já ele fazia mais do que parar. Observava os hábitos da moça, notava as horas em que ela aparecia, e esperava.

 

Tinha cuidado de não ser visto por ela.

 

A pouco e pouco, ao tempo em que as noites se enchem de borboletas e de rosas, imóvel e mudo horas inteiras sem ser visto por ninguém, retendo a respiração, Gilliatt acostumou-se a ver Déruchette andar pelo jardim. É fácil acostumar-se ao veneno.

 

Do lugar em que se escondia, Gilliatt ouvia Déruchette conversar com Mess Lethierry, debaixo de um espesso caramanchão feito de caniço, dentro do qual havia um banco. As palavras chegavam-lhe distintamente aos ouvidos.

 

Quanto já não tinha andado! Chegou até a espiar e prestar ouvido. Ah! o coração humano é um velho espião!

 

Havia outro banco visível e próximo, no fim de uma alameda. Déruchette assentava-se ali algumas vezes.

 

Pelas flores que ele via Déruchette colher e cheirar, adivinhou as preferências da moça a respeito de perfumes.

 

A moça preferia antes de tudo a campânula, depois o cravo, depois a madressilva, depois o jasmim. A rosa estava em quinto lugar. Quanto aos lírios, olhava para eles, mas não os cheirava. À vista da escolha dos perfumes, Gilliatt compunha-a no seu pensamento. Cada cheiro significava para ele uma perfeição. Só a idéia de falar a Déruchette fazia-lhe arrepiar os cabelos. Uma boa velha que mascateava, e por esse motivo ia algumas vezes à rua que costeava o muro do jardim de Déruchette, veio a notar confusamente a assiduidade de Gilliatt junto daquele muro e a sua devoção por aquele lugar deserto. Ligaria ela a presença daquele homem à possibilidade de uma mulher que estivesse atrás do muro? Descobriria esse vago fio invisível? Restava-lhe acaso, na sua decrepitute mendicante, um pouco de mocidade para lembrar-se de alguma coisa dos belos tempos, e saberia ela, já no inverno e na noite, que coisa é o alvor da madrugada? Ignoramo-lo, mas parece que, passando uma vez perto de Gilliatt, que estava de sentinela, dirigiu para o lado dele toda a quantidade de sorriso de que ainda era capaz e murmurou entre as gengivas: “Aquece, aquece!”

 

Gilliatt ouviu a palavra, que lhe fez impressão, e murmurou com um ponto de interrogação interior: “Aquece? Que quer dizer a velha?”

 

Repetiu maquinalmente a palavra durante todo o dia, mas não chegou a compreendê-la.

 

Estando um dia à janela da casa mal-assombrada, cinco ou seis raparigas de Ancresse foram banhar-se por pagode na angra de Houmet Paradis. Brincavam ingenuamente na água, a cem passos dele. Gilliatt fechou violentamente a janela. Reparou então que uma mulher nua causava-lhe horror.

 

 

 

CAPÍTULO III

A CANÇÃO “BONNY DUNDEE” ACHA UM ECO NA COLINA

 

Atrás do muro do jardim, em um ângulo do muro coberto de azevinho e hera, empachado de urtigas, com um pé de malva silvestre arborescente e um grande verbasco do mato que brotava do granito, passou Gilliatt quase todo o verão. Ficava ali inexprimivelmente pensativo. As lagartixas, que se iam acostumando a Gilliatt, aqueciam-se ao sol nas mesmas pedras. O verão foi luminoso e suave. Gilliatt tinha sobre a cabeça as nuvens que perpassavam no céu. Assentava-se na relva. Tudo estava cheio de um rumorejar de pássaros. Punha a cabeça nas mãos e perguntava a si próprio: “Mas por que escreveu ela o meu nome na neve?”

 

O vento do mar soprava ao longe grandes lufadas. De quando em quando, nas pedreiras longínquas de Vaudue, troava bruscamente a trombeta dos pedreiros, advertindo os passantes de que ia rebentar uma mina. Não se via o porto de Saint-Sampson; mas via-se a ponta dos mastros por cima das árvores. As gaivotas voavam esparsas. Gilliatt ouvira dizer a sua mãe que as mulheres podem amar os homens, e que isso acontecia algumas vezes. Lembrava-se, e respondia a si mesmo: “É isso. Compreendo. Déruchette ama-me”. Sentia-se profundamente triste. Dizia ele: “Mas também ela pensa em mim; faz bem”. Pensava em que Déruchette era rica, e ele pobre. Pensava que o vapor era uma invenção execrável. Não podia lembrar nunca em que dia do mês estava. Contemplava vagamente os grandes zangões negros, de lombo amarelo e asas curtas, que penetram zumbindo nos buracos das paredes.

 

Déruchette recolhia-se uma noite ao quarto. Aproximou-se da janela para fechá-la. A noite estava escura. De repente, Déruchette aplicou o ouvido. Havia uma música no meio daquela noite profunda. Alguém que provavelmente estava na vertente da colina, ou ao pé das torres do castelo do Vale, ou talvez mais longe, executava uma canção num instrumento. Déruchette reconheceu a sua melodia favorita Bonny Dundee tocada em bagpipe. Não compreendeu nada.

 

Desde então, ouviu ela muitas vezes a mesma coisa, à mesma hora, especialmente nas noites escuras.

 

Déruchette não gostava muito daquilo.

 

 

 

CAPÍTULO IV

 

Pour l'oncle et le tuteur, bons hommes taciturnes,

Les sérénades sont des tapages nocturnes.

(Versos de uma comédia inédita).

 

Passaram-se quatro anos.

 

Déruchette aproximava-se dos 21 anos e conservava-se solteira.

 

Já alguém escreveu algures: “Uma idéia fixa é uma verruma. Vai-se enterrando de ano para ano. Para extirpá-la no primeiro ano é preciso arrancar os cabelos; no segundo rasga-se a pele; no terceiro ano quebra o osso; no quarto saem os miolos”. Gilliatt estava no quarto ano.

 

Não tinha trocado uma só palavra com Déruchette. Pensava nela; era tudo.

 

Aconteceu-lhe uma vez, estando por acaso em Saint-Sampson, ver Déruchette conversando com Mess Lethierry diante da porta da casa que dava para a calçada do porto. Gilliatt arriscou-se a aproximar-se dela. Cuidava estar certo de que sorrira quando ele passou. Não era coisa impossível.

 

Déruchette continuava a ouvir de tempos em tempos o bagpipe.

 

Também Mess Lethierry ouvia o bagpipe e notou a persistência desta música perto da janela de Déruchette. Música terna, circunstância agravante. Não lhe agradavam namorados noturnos. Queria casar Déruchette com dia claro, quando ela e ele quisessem e simplesmente, sem romance e sem música. Exasperado, procurou descobrir o amador e pareceu-lhe entrever Gilliatt. Meteu as unhas na barba em sinal de cólera e disse: “Por que motivo vem aquele animal sanfonear-me à porta? Ama Déruchette, é claro. Perde o tempo. Quem quiser Déruchette deve vir falar-me, e sem música”.

 

Previsto desde muito, veio a realizar-se um acontecimento importante. Anunciou-se que o Reverendo Jaquemin Herodes fora nomeado delegado do bispo de Winchester, decano da ilha e cura de Saint-Pierre-Port, e que partiria de Saint-Sampson logo depois de instalar o seu sucessor.

 

Estava a chegar o novo cura. Era ele gentleman de origem normanda, e chamava-se Joe Ebenezer Caudray.

 

A respeito dele havia circunstâncias que a benevolência e a malevolência comentavam em sentido inverso. Diziam que era moço e pobre, mas a mocidade era temperada por muita doutrina, e a pobreza por muita esperança. Na língua especial criada para a herança e a riqueza, a morte chama-se esperança. Era sobrinho e herdeiro do velho e opulento decano de Saint-Asaph. Morto este, ficava o outro rico. O Sr. Ebenezer Caudray era bem aparentado; tinha quase direito à qualidade de honorable. Quanto à sua doutrina, era julgada diversamente. Era anglicano, mas, segundo a expressão do Bispo Tilleston, era muito libertino, isto é, muito severo. Repudiava o farisaísmo; ligava-se antes ao presbitério que ao episcopado. Sonhava com a Igreja primitiva, onde Adão tinha o direito de escolher Eva, e Frumentanus, bispo de Hierópolis, raptava uma moça para ser mulher dele, dizendo aos pais: “Ela quer e eu quero, já não sois nem pai nem mãe, eu sou o anjo de Hierópolis, e esta é minha esposa. O pai é Deus”. A dar crédito aos boatos, o Sr. Ebenezer Caudray subordinava o texto: “Honrai pai e mãe” ao texto, segundo ele, superior: “A mulher é a carne do homem. A mulher deixará pai e mãe para acompanhar o marido”. Mas, afinal de contas, esta tendência para circunscrever a autoridade paternal e favorecer religiosamente todos os modos de formar o vínculo conjugal é própria a todo o protestantismo, particularmente na Inglaterra e singularmente na América.

 

 

 

CAPÍTULO V

JUSTA VITÓRIA É SEMPRE MALQUISTA

 

Eis o balanço de Mess Lethierry, no tempo em que ocorria isto. Durande cumpriu o que prometera. Mess Lethierry pagou as dívidas, reparou os prejuízos, satisfez as letras de Bremen, fez face aos vencimentos de SaintMalo. Exonerou a casa em que morava das hipotecas, comprou todas as rendas locais inscritas sobre a casa. Era possuidor de um grande capital produtivo, a Durande. O rendimento líquido do navio era então de 1.000 libras esterlinas e ia crescendo. A bem dizer, Durande era toda a fortuna dele. Era também a fortuna da terra. O transporte dos bois era dos que davam mais lucro; assim, para melhorar a arrumação a bordo, e facilitar a entrada e saída do gado, suprimiram-se as malas e as faluas. Foi talvez imprudência. A Durande veio a ter apenas a chalupa. É verdade que a chalupa era excelente.

 

Já havia dez anos que Rantaine tinha roubado Mess Lethierry.

 

A prosperidade de Durande tinha um lado fraco, é que não inspirava confiança; acreditava-se que era puro acaso. A situação de Mess Lethierry era aceita como exceção. Dizia-se que ele fizera uma loucura feliz. Quis alguém fazer o mesmo em Cowes, na ilha de Wight, e teve mau êxito na tentativa. A tentativa arruinou os acionistas. Dizia Lethierry: “É que a máquina foi mal construída”. Mas os outros abanavam a testa. As novidades têm contra si o ódio de todos; o menor erro compromete-as.

 

Consultado acerca de um negócio de vapores, disse o banqueiro Jauge, de Paris, um dos oráculos comerciais do arquipélago normando: “É uma conversão o que me propondes. Conversão de dinheiro em fumo”. Entretanto, os navios de vela achavam sempre quantas comanditas fossem precisas. Os capitães teimavam em estar do lado da lona contra a caldeira. Em Guernesey a Durande era um fato, mas o vapor não era um princípio. Tal era a pertinácia da navegação diante do progresso. Dizia-se de Lethierry: “Fez coisa boa, mas não há de meter-se em outra”. Longe de animar, o exemplo dele causava medo. Ninguém ousaria arriscar segunda Durande.

 

 

 

CAPÍTULO VI

FORTUNA DOS NÁUFRAGOS ENCONTRANDO A CHALUPA

 

Cedo anuncia-se o equinócio na Mancha. É um mar estreito, tolhe o vento e irrita-o. Desde fevereiro começam ali os ventos do oeste sacudindo as águas em todos os sentidos. A navegação torna-se inquieta; a gente da costa contempla o mastro de sinal; a todos preocupam os navios que podem estar em perigo. O mar aparece como uma emboscada; invisível clarim troa para uma estranha guerra. Longas e furiosas lufadas abalam o horizonte; é terrível o vento. A sombra silva e sopra. Na profundeza das nuvens o rosto negro da tempestade intumesce as bochechas.

 

O vento é um perigo; o nevoeiro outro.

 

Os nevoeiros causam sempre medo aos navegadores. Há nevoeiros que trazem suspensos prismas microscópicos de gelo, aos quais Mariotte atribui as auréolas, os parélios e os parasselenes. Os nevoeiros tempestuosos são compósitos; vapores diversos de peso específico desigual combinam-se com o vapor da água e surperpõem-se em uma ordem que divide a bruma em zonas e faz do nevoeiro uma verdadeira formação.

 

Embaixo fica o iodo, acima do iodo o enxofre, acima do enxofre o bromo, acima do bromo o fósforo.

 

Isto, em certa proporção, deduzindo a tensão elétrica e magnética, explica muitos fenômenos, o santelmo de Colombo e de Magalhães, as estrelas volantes de que fala Sêneca, as duas chamas, Castor e Pólux, de que fala Plutarco, a legião romana que a César pareceu ver arderem os dardos, a lança do castelo do Duíno no Frioul, que a sentinela acendia tocando com o ferro da sua lança, e talvez mesmo as fulgurações que os antigos chamavam relâmpagos terrestres de Saturno.

 

No equador, imensa bruma permanente parece cingir o globo, é o Cloud-ring, anel de nuvens.

 

O Cloud-ring resfria o trópico, do mesmo modo que o Gulf Stream aquece o pólo. Debaixo do Cloud-ring o nevoeiro é fatal. São essas as latitudes dos cavalos, Horse latitude; os navegadores dos últimos séculos, quando passavam ali, atiravam os cavalos ao mar, em ocasião de temporal para alijar o navio, em tempo de calma para economizar a água.

 

Dizia Colombo: “Nube abajo es muerte”. (Nuvem baixa, morte certa.) Os etruscos, que são para a meteorologia o que os caldeus são para a astronomia, tinham dois pontificados — o pontificado do trovão e o pontificado da nuvem: uns observavam o relâmpago, outros o nevoeiro. O colégio dos áugures de Tarqüínia era consultado pelos tírios, fenícios e pelásgicos, e de todos os navegadores primitivos do antigo Marinterno. O modo de geração das tempestades era entrevisto; ligava-se intimamente ao modo de geração dos nevoeiros, e, a bem dizer, é o mesmo fenômeno. Existem no mesmo oceano três regiões de brumas, uma equatorial, duas polares; os marinheiros dão-lhe um só nome — le pot au noir.

 

Em todas as paragens, e sobretudo na Mancha, os nevoeiros de equinócio são mui perigosos. Fazem anoitecer de súbito. Um dos perigos do nevoeiro, mesmo quando não é muito cerrado, é impedir que se reconheça a mudança de fundo pela mudança da cor da água; resulta daqui ficarem dissimulados os cachopos e parcéis. O navegador aproxima-se de um escolho sem ser advertido.

 

Muitas vezes os nevoeiros não deixam ao navio em marcha outro recurso que não seja pôr-se à capa ou ancorar. Há tantos naufrágios causados pelo nevoeiro como pelo vento.

 

Entretanto, após uma violentíssima borrasca que sucedeu a um dia de nevoeiro, a chalupa Cashmere chegou perfeitamente da Inglaterra. Entrou em Saint-Pierre-Port aos primeiros raios do dia, no momento em que o castelo Cornet salvava o sol com um tiro. Iluminava-se o horizonte. A chalupa Cashmere era esperada como devendo trazer o novo cura de Saint-Sampson. Pouco depois de chegar a chalupa, espalhou-se o boato de que encontrara à noite no mar outra chalupa com uma equipagem naufragada.

 

 

 

CAPÍTULO VII

BOA FORTUNA DE APARECER A TEMPO

 

Naquela noite, Gilliatt, quando o vento amainou, saiu a pescar, sem afastar-se muito da costa.

 

Na volta, estando a maré a encher, pelas 2 horas da tarde, e fazendo um sol esplêndido, quando Gilliatt passou por diante da Corne de la Bête para entrar na angra em que ficava a pança, pareceu-lhe ver na projeção da Cadeira Gild-Holm-'Ur uma sombra que não era a do rochedo. Deixou a pança chegar até ali e reconheceu que um homem estava assentado na Cadeira Gild-Holm-'Ur. O mar já estava alto, a rocha estava cercada pela água, não era possível ao homem voltar para terra. Gilliatt gesticulou para o homem, o homem ficou imóvel. Gilliatt aproximou-se. O homem estava adormecido.

 

Tinha ele vestuário preto. “Parece padre”, pensou Gilliatt. Aproximou-se ainda mais e viu um rosto de adolescente.

 

Não conheceu quem era.

 

A rocha felizmente era a pique; havia muito fundo; Gilliatt costeou a muralha. A maré levantava a barca quanto bastava para que Gilliatt, pondo-se de pé sobre a pança, pudesse tocar os pés do homem. Gilliatt levantou-se sobre a borda e ergueu os braços. Se caísse naquele momento, é duvidoso que tornasse a aparecer. A vaga batia entre a pança e o rochedo, era inevitável ser esmagado.

 

Gilliatt puxou o pé do homem adormecido.

 

— Olá, que faz aí?

 

O homem acordou.

 

— Estou olhando — disse ele.

 

Depois, acordando de todo, continuou:

 

— Cheguei há pouco à terra, vim passear aqui; passei a noite no mar, achei a vista bonita, estava cansado, adormeci.

 

— Dez minutos mais, afogar-se-ia — disse Gilliatt.

 

— Ah!

 

— Salte para a barca.

 

Gilliatt susteve a barca com o pé, pôs uma das mãos no rochedo e estendeu a outra ao homem, que pulou lestamente na barca. Era um bonito rapaz.

 

Gilliatt tomou o leme; em dois minutos, a pança chegou à angra da casa mal-assombrada.

 

O moço tinha chapéu redondo e gravata branca. Trazia abotoada até o pescoço a comprida sobrecasaca preta. Tinha cabelos loiros, rosto feminino, olhar puro, ar grave.

 

Entretanto a pança tocou em terra. Gilliatt passou o cabo na argola da amarra, depois voltou-se, e viu a mão do moço que lhe apresentou um soberano de ouro.

 

Gilliatt repeliu docemente a mão.

 

Houve um silêncio. O moço falou:

 

— Salvou-me a vida — disse ele.

 

— Talvez — respondeu Gilliatt.

 

A pança estava amarrada. Saíram da barca.

 

O moço continuou:

 

— Devo-lhe a vida, senhor.

 

— Que importa isso?

 

Essa resposta de Gilliatt foi acompanhada de novo silêncio.

 

— É desta paróquia o senhor? — perguntou o mancebo.

 

— Não — respondeu Gilliatt.

 

— De que paróquia é então?

 

Gilliatt levantou a mão direita, mostrou o céu e disse:

 

— Daquela.

 

O moço cumprimentou e foi caminhando.

 

Depois de alguns passos, voltou, meteu a mão no bolso, tirou um livro e voltou-se para Gilliatt.

 

— Consinta que lhe ofereça isto.

 

Gilliatt tomou o livro.

 

Era uma Bíblia.

 

Instantes depois, Gilliatt, encostado ao parapeito, olhava para o moço, que voltava o ângulo do caminho que ia ter a Saint-Sampson.

 

A pouco e pouco abateu a cabeça, esqueceu o mancebo, não soube mais se existia a Cadeira Gild-Holm-'Ur, e tudo desapareceu, na imersão sem fundo do cismar. Gilliatt tinha um abismo, Déruchette.

 

Tirou-o daquele abismo uma voz que lhe gritou:

 

— Olá, Gilliatt!

 

Reconheceu a voz e ergueu os olhos.

 

— Que há, Sr. Landoys?

 

Era com efeito o Sr. Landoys, que passava na estrada a cem passos da casa, no seu faéton, com um pequeno cavalo. Parou a fim de chamar Gilliatt à fala, mas parecia atarefado e apressado:

 

— Há novidade, Gilliatt.

 

— Onde?

 

— Na casa de Mess Lethierry.

 

— O que há?

 

— Estou longe para lhe contar o caso.

 

Gilliatt estremeceu.

 

— Casa-se Miss Déruchette?

 

— Não. Mas...

 

— Que quer dizer?

 

— Vá lá à casa dele, que há de saber.

 

E o Sr. Landoys chicoteou o cavalo.

 

 

 

LIVRO QUINTO

O REVÓLVER

 

CAPÍTULO PRIMEIRO

A PALESTRA NA POUSADA JOÃO

 

O Sr. Clubin era o homem que espera a ocasião.

 

Era baixo e amarelo, com a força de um touro. O mar não podia com ele. Tinha uma carne que parecia cera. Era da cor de uma tocha e tinha nos olhos uma luz discreta. A sua memória tinha um quê de imperturbável e especial. Ver um homem uma vez era conservá-lo como se fosse uma nota em um registro. O olhar lacônico apunhalava. A pálpebra tirava a prova de um rosto, e conservava-o; não importava que o rosto envelhecesse depois, o Sr. Clubin não deixava de reconhecê-lo. Era impossível fugir àquela memória tenaz. O Sr. Clubin era breve, sóbrio e frio; não fazia gesto algum. Tinha uns ares de candura que prendiam logo. Muitas pessoas acreditavam-no simplório; trazia no rosto uma certa ruga que indicava uma espantosa estupidez. Não havia melhor marinheiro que ele. Não havia reputação de religiosidade e integridade maior que a sua. Quem o suspeitasse é que era suspeito. Travara amizade com o Sr. Rebuchet, cambista em Saint-Malo, Rua de São Vicente, ao lado do armeiro, e o Sr. Rebuchet costumava dizer que confiaria a sua fábrica a Clubin. O Sr. Clubin era viúvo. A mulher foi tão honesta como ele. Morreu com a fama de uma virtude invencível. Se o bailio lhe fizesse uma declaração ela iria contá-lo ao rei, e se Nosso Senhor se apaixonasse por ela iria contá-lo ao padre vigário. O casal Clubin realizou em Torteval o ideal do epíteto inglês respectable. A Sra. Clubin era o cisne; o Sr. Clubin era o arminho. Morreria se lhe pusessem uma nódoa. Nunca achou um alfinete que não fosse logo à cata do proprietário. Era capaz de pôr em almoeda uma caixa de fósforos, se acaso a tivesse achado na rua. Entrou uma vez em uma taberna em Saint-Servan e disse ao taberneiro: “Almocei aqui há três anos e você enganou-se na conta”. E, dizendo isto, restituiu ao taberneiro 75 cêntimos. Era uma grande probidade, mordendo atentamente os beiços.

 

Parecia estar sempre à espera. De quem? Provavelmente dos velhacos.

 

Todas as terças-feiras levava a Durande de Guernesey a Saint-Malo. Chegava a Saint-Malo na terça-feira à noite, demorava-se dois dias para fazer o carregamento e voltava a Guernesey na sexta-feira de manhã. Havia então em Saint-Malo uma pequena hospedaria, situada no porto, que se chamava a Pousada João.

 

A construção do cais atual fez demolir a pousada. Naquela época vinha o mar até a porta de Saint-Vincent e a porta de Dinan; Saint-Malo e Saint-Servan comunicavam-se nas marés baixas por meio de carrinhos que rolavam e circulavam entre os navios em seco, evitando as bóias, as âncoras e os massames, e arriscando-se às vezes a rasgar a coberta de couro em alguma verga baixa. No intervalo de duas marés, os cocheiros fustigavam os cavalos naquela mesma areia, onde, seis horas depois, vinha o vento chicotear as vagas. Na mesma praia andavam outrora os 24 cães, porteiros de Saint-Malo, que devoraram um oficial de marinha em 1770. Tamanho zelo fez suprimir os cães. Já não se ouvem agora os latidos noturnos entre o pequeno e o grande Tallard.

 

O Sr. Clubin ia à Pousada João. Era ali o escritório francês da Durande. Os guardas da alfândega e os guardas da costa iam comer e beber na Pousada João. Faziam rancho à parte. Os guardas da alfândega de Binic encontravam-se, vantajosamente para o serviço, com os guardas da alfândega de Saint-Malo.

 

Também lá iam os mestres de navio, mas comiam em outra mesa.

 

O Sr. Clubin assentava-se ora numa, ora noutra, mas preferia a dos guardas à dos mestres. Era bem recebido em ambas.

 

As mesas eram bem servidas. Havia as mais apuradas bebidas estrangeiras para os marítimos expatriados. Um marinheiro gamenho de Bilbau acharia ali um copo de helada. Bebia-se stout como em Greenwich, e gueuse como em Antuérpia.

 

Capitães de longo curso e armadores tomavam às vezes lugar na mesa dos mestres de navio. Trocavam-se aí notícias:

 

— Como vai o açúcar?

 

— Pequenos lotes. Vende-se bem o açúcar bruto; 3.000 sacas de Bombaim e quinhentas barricas de Sagua.

 

— Há de ver, o partido da direita ainda derruba o ministério Villele.

 

— E o anil?

 

— Venderam-se apenas uns sete surrões da Guatemala.

 

— A Nanine Julie ancorou. Lindo navio da Bretanha.

 

— As duas cidades do rio da Prata estão outra vez desavindas.

 

— Quando Montevidéu engorda, Buenos Aires emagrece.

 

— Foi preciso deitar ao mar a carga do Regina Coeli, condenado em Calhao.

 

— O cacau vai andando; os sacos Caracas são cotados a 234, e os sacos Trindade a 73.

 

— Parece que na revista do Campo de Marte ouviu-se gritar: abaixo os ministros.

 

— Os couros salgados, Saladeros, vendem-se o dos bois a 60 francos e o das vacas a 48.

 

— Já passaram o Balkan? O que faz Diebitsch?

 

— Em San Francisco há falta de anisete. O azeite Plagniol está calmo. O queijo de Gruyère está a 32 francos o quintal.

 

— Com que então, Leão XII morreu?

 

— Etc., etc., etc.

 

Todas estas coisas eram ditas e comentadas no meio de grande barulho. À mesa dos guardas da alfândega e dos guardas da costa falava-se menos.

 

A polícia das costas e dos portos quer menos sonoridade e menos clareza no diálogo.

 

A mesa dos mestres de navio era presidida por um velho capitão de longo curso, o Sr. Gertrais-Gaboureau. Não era homem, era um barômetro. Os hábitos do mar deram-lhe uma espantosa infalibilidade de prognóstico. Ele decretava o tempo que devia haver no dia seguinte; auscultava o vento; tomava o pulso à maré. Dizia à nuvem: mostra-me a tua língua. A língua era o relâmpago. Era o doutor da vaga, da brisa e da lufada. O oceano era o seu doente; fez uma viagem à roda do mundo como quem faz uma clínica, examinando todos os climas na sua boa e má saúde; sabia a fundo a patologia das estações. Enunciava fatos como este: o barômetro desceu uma vez em 1796 a três linhas abaixo da tempestade. Era marinheiro por amor. Odiava a Inglaterra tanto quanto estimava o mar. Estudou cuidadosamente a marinha inglesa para conhecer os seus lados fracos. Explicava em que ponto o Sovereign de 1637 diferia do Royal William de 1670 e do Victory de 1755. Comparava os castelos de popa. Lamentava as torres no tombadilho e os cestos de gávea afunilados do Great Harry de 1514, provavelmente no ponto de vista da bala francesa que se aninhava perfeitamente naquelas superfícies. Para ele as nações só existiam por suas instituições marítimas; fazia sinônimos extravagantes. Chamava a Inglaterra Trinity House, a Escócia Northern Commissioners, e a Irlanda Ballast Board. Abundava de informações; era alfabeto e almanaque. Sabia de cor a portagem dos faróis, principalmente ingleses; 1 penny por tonelada ao passar diante deste, 1 farthing ao passar diante daquele. Dizia: o Farol de Smalt Rock, que consumia apenas 200 galões de azeite, consome agora 500. Achando-se muito doente um dia, a bordo, a tripulação, que já o tinha por defunto, estava à roda de sua maca, quando ele interrompeu os soluços da agonia para dar ao mestre carpinteiro uma ordem relativa a um conserto do navio.

 

Era raro que o assunto de conversa fosse sempre o mesmo na mesa dos capitães e na mesa dos guardas. Apresentou-se, porém, o seguinte caso nos primeiros dias do mês de fevereiro, em que se passam os fatos que estamos contando. A galera Tamaulipas, Capitão Zuela, vinda do Chile, e prestes a voltar, chamava a atenção das duas mesas. Na mesa dos mestres falou-se do carregamento, e na mesa dos guardas falou-se dos ares suspeitos do navio.

 

O Capitão Zuela, de Copiapó, era chileno, um pouco colombiano; tinha feito com independência as guerras da independência, acompanhando ora Bolívar, ora Morillo, conforme os lucros a haver. Tinha-se enriquecido obsequiando a toda a gente. Não havia homem mais bourbônico, mais bonapartista, mais absolutista, mais liberal, mais ateu e mais católico. Ele pertencia a este grande partido que se pode chamar o Partido Lucrativo. De tempos a tempos fazia aparições comerciais na França; e, a acreditar-se nos boatos, dava passagem a bordo aos fugitivos, bancarroteiros ou proscritos políticos, fossem quem fossem, contanto que pagassem. O meio de embarcá-los era simples. O fugitivo esperava num ponto deserto da costa, e, no momento de aparelhar, Zuela destacava um escaler, que ia buscá-lo. Foi deste modo que na sua precedente viagem fez evadir um homem implicado no processo Berthon, e desta vez contava levar pessoas comprometidas na questão da Bidassoa. A polícia, já avisada, estava com o olho nele.

 

Era um tempo de fugas aquele. A restauração era uma reação; ora, as revoluções trazem emigrações, e as restaurações arrastam proscrições. Durante os sete ou oito primeiros anos, depois da entrada dos Bourbons, espalhou-se o terror em tudo, nas finanças, na indústria, no comércio, que sentiam tremer a terra e viam multiplicar-se as falências. Havia um salve-se quem puder na política. Lavalette fugira. Lefebvre Desnouettes fugira; Delon fugira. Os tribunais de exceção trabalhavam; depois veio Trestaillon. Fugia-se à ponte de Saumur, à esplanada de Reole, ao muro do observatório de Paris, à torre de Taurias d'Avignon, tudo isso que se conserva de pé na história, vestígios da reação, aonde se distingue ainda a sua mão sanguinolenta.

 

Em Londres, o processo Thistlewood, ramificado na França, em Paris o processo Trogoff, ramificado na Bélgica, na Suíça e na Itália, multiplicaram os motivos da inquietação e desaparecimento, e aumentaram essa profunda derrota subterrânea, que deixava vazios os mais altos lugares da ordem social de então. Pôr-se em segurança era a preocupação universal. O espírito dos tribunais prebostais sobrevivera à instituição. As condenações eram feitas por complacência. Fugiam para o Texas, para o Peru, para o México. Os homens da Loire, salteadores então, paladinos hoje, tinham fundado o campo de Asilo. Dizia uma canção de Béranger:

 

Sauvages, nous sommes français;

Prenez pitié de notre gloire.

 

Expatriar-se era o recurso; porém nada menos simples que fugir; este monossílabo encerra abismos. Tudo é obstáculo para quem se esquiva. Fugir é disfarçar-se. Pessoas importantes, e até ilustres, viram-se reduzidas aos expedientes dos malfeitores. E ainda assim saíam-se mal. Eram inverossímeis. Os seus hábitos de franqueza tornavam-lhes difícil resvalar pelas malhas da evasão. Um gatuno fugitivo mostrava-se mais correto aos olhos da polícia do que um general. Imaginem a inocência constrangida a disfarçar-se, a virtude contrafazendo a voz, a glória mascarando o rosto. Algum indivíduo que passasse com ar suspeito, era uma reputação à cata de um passaporte falso. O ar embaraçado de um fugitivo não provava que ele deixasse de ser um herói. Traços fugazes e característicos dos tempos, que a história regular esquece, mas que o verdadeiro pintor de um século deve rememorar. Atrás dos homens honestos, fugiam os tratantes, menos vigiados, menos suspeitos. Um tratante obrigado a eclipsar-se aproveitava-se da confusão, fazia parte dos proscritos, e muitas vezes, graças a uma arte apurada, parecia naquele crepúsculo mais honesto que o honesto. Que há aí mais acanhado que a probidade diante da justiça? Nada entende, nada finge. Um falsário escapa-se mais facilmente que um convencional.

 

Coisa estranha! Especialmente em relação aos tratantes, quase se pode dizer que a evasão fazia subir o indivíduo. A quantidade de civilização que um velhaco levava de Paris ou de Londres valia-lhe por dote nos países primitivos ou bárbaros, recomendava-o e fazia dele um iniciador. Era fácil que um aventureiro, escapando ao código, chegasse depois ao sacerdócio. Havia fantasmagoria na desaparição, e mais de uma evasão tinha os resultados de um sonho. Uma fuga deste gênero levava ao desconhecido e ao quimérico. Tal bancarroteiro saía da Europa e aparecia mais tarde grão-vizir em Mogol ou rei na Tasmânia.

 

Ajudar as evasões era uma indústria, e visto a freqüência do fato, uma indústria lucrativa. Esta especulação completava certos gêneros de comércio. Quem queria fugir para a Inglaterra dirigia-se aos contrabandistas; quem queria fugir para a América dirigia-se aos trapaceiros de longo curso, tais como Zuela.

 

 

 

CAPÍTULO II

CLUBIN DESCOBRE ALGUÉM

 

Zuela ia comer, algumas vezes, à Pousada João. O Sr. Clubin conhecia-o de vista.

 

E o Sr. Clubin não era soberbo; não se desprezava de conhecer de vista um tratante. Às vezes chegava mesmo a conhecê-los de fato, dando-lhes a mão em plena rua. Falava inglês com o smogler e engrolava o espanhol com o contrabandista.

 

A este respeito tinha ele as seguintes máximas:

 

— Pode-se adquirir o bem pelo conhecimento do mal. — O monteiro conversa proveitosamente com o ladrão de caça. — O piloto deve sondar o pirata; o pirata é um escolho. — Trata de provar um velhaco como o médico prova o veneno.

 

Não tinha réplica. Todos davam razão ao Capitão Clubin. Era aprovado por não ter escrúpulos tolos. Quem ousaria dizer mal dele? Tudo quanto fazia era para bem do serviço. Nele tudo era simples. Nada podia comprometê-lo. O cristal querendo manchar-se não pode. Esta confiança era a justa recompensa de uma longa honestidade e é essa a excelência das reputações firmes. Fizesse o que fizesse o Sr. Clubin, todos lhe viam malícia no sentido da virtude; tinha adquirido a impecabilidade; e de mais a mais dizia-se que era muito esperto; deste ou daquele encontro que com outra pessoa seria suspeito, a sua probidade saía sempre com um relevo de habilidade. A fama de habilidade combinava-se harmoniosamente com a fama de ingenuidade, sem contradição alguma. Ingênuo hábil é coisa que existe. É uma das variedades do homem honesto e das mais apreciadas. O Sr. Clubin era desses homens que, encontrados em conversa íntima com um larápio ou um bandido, são recebidos, compreendidos, e mais respeitados, e têm ainda por si o piscar de olhos satisfeitos da estima pública.

 

O Tamaulipas tinha completado o carregamento. Estava próximo a partir e ia aparelhar.

 

Em uma terça-feira à tarde, ainda com sol, chegou a Durande a Saint-Malo. O Sr. Clubin, de pé no passadiço e dirigindo a manobra da entrada, descobriu perto de Petit Bey, na praia, entre dois rochedos, em um lugar muito solitário, dois homens conversando. Deitou-lhes o óculo e reconheceu um dos homens. Era o Capitão Zuela. Parece que reconheceu também o outro.

 

O outro era alto, um pouco grisalho. Trazia o chapéu largo e o vestuário grave dos Amigos. Era provavelmente um quaker. Baixava os olhos com modéstia.

 

Chegando à Pousada João, o Sr. Clubin soube que o Tamaulipas ia aparelhar dentro de dez dias.

 

Soube-se depois que ele tomara outras informações.

 

À noite, entrou em casa do armeiro da Rua de São Vicente, e disse-lhe:

 

— Sabe o que é um revólver?

 

— Sei — respondeu ele —, é americano.

 

— É uma pistola que renova sempre a conversação.

 

— Na verdade, ela tem pergunta e resposta.

 

— E réplica.

 

— É justo, Sr. Clubin. O cano é girante.

 

— E cinco ou seis balas.

 

O armeiro levantou o cantinho do beiço e fez ouvir aquele estalo de língua, que, acompanhado de um movimento de cabeça, exprime a admiração.

 

— A arma é boa, Sr. Clubin. Creia que há de vir a ser universal.

 

— Eu queria um revólver de seis tiros.

 

— Não tenho desses.

 

— Pois que, o senhor não é armeiro?

 

— Mas ainda não tenho desse. Bem vê que é coisa nova. Na França só se fazem pistolas.

 

— Diabo!

 

— É coisa que ainda não está no comércio.

 

— Diabo!

 

— Tenho pistolas excelentes.

 

— Quero um revólver.

 

— Convenho que é melhor. Mas espere, Sr. Clubin.

 

— O que é?

 

— Creio que há um em Saint-Malo.

 

— Revólver?

 

— Sim.

 

— Para vender?

 

— Sim.

 

— Onde?

 

— Creio que sei. Hei de informar-me.

 

— Quando me dá a resposta?

 

— O revólver é bom.

 

— Quando devo voltar?

 

— Se eu lhe arranjo um revólver, é porque é bom.

 

— Quando me dá a resposta?

 

— Na sua primeira viagem.

 

— Não diga que é para mim.

 

 

 

CAPÍTULO III

CLUBIN LEVA UNS OBJETOS E NÃO OS TRAZ

 

O Sr. Clubin fez o carregamento da Durande, embarcou o gado e alguns passageiros, e, como de costume, saiu de Saint-Malo para Guernesey na sexta-feira de manhã.

 

Nesse mesmo dia, quando o navio já estava ao largo, o que permite ao capitão ausentar-se do tombadilho alguns momentos, Clubin entrou no seu camarote, fechou-se, pegou em um saco de viagem que tinha, meteu alguma roupa no compartimento elástico, biscoitos, latas de conserva, algumas libras de cacau, um cronômetro e um óculo no compartimento sólido, e passou pelas argolas uma maroma preparada para içá-lo se fosse preciso. Depois desceu ao porão, entrou no depósito dos cabos e viram-no subir com uma dessas cordas armadas de um gancho que servem aos calafates no mar e aos ladrões em terra. Essas cordas facilitam a escalada.

 

Chegando a Guernesey, Clubin foi a Torteval. Passou aí 36 horas. Levou o saco e a corda, mas não voltou com eles.

 

Digamo-lo uma vez por todas, o Guernesey de que se trata neste livro é o antigo Guernesey que já não existe e seria impossível achá-lo hoje, a não ser no campo. É aí que ele existe vivo, mas nas cidades morreu. A observação que fazemos a respeito de Guernesey deve ser feita a respeito de Jersey. Saint-Hélier vale Dieppe; Saint-Pierre-Port vale Lorient. Graças ao progresso, graças ao admirável espírito de iniciativa daquele valente povo insular, transformou-se tudo em quarenta anos no arquipélago da Mancha. Onde havia sombra há luz. Dito isto, continuemos. Naqueles tempos que, pelo afastado, já são históricos, o contrabando ativava-se no mar da Mancha. Abundavam os navios trapaceiros, principalmente na costa oeste de Guernesey. As pessoas demasiado informadas e que sabem em todas as minúcias o que se passava há quase meio século chegam a citar os nomes de muitos desses navios quase todos asturianos. O que é fora de dúvida é que não se passava semana, sem que aparecesse um ou dois, ora na baía dos Santos, ora em Plainmont. Parecia um serviço regular. Havia uma cava de mar em Serk que se chamava e ainda se chama a loja, porque era nessa gruta que a gente da terra ia comprar aos contrabandistas as suas mercadorias de importação. Para as necessidades desse comércio falava-se na Mancha uma espécie de língua contrabandista, esquecida hoje, e que estava para o espanhol como o levantino para o italiano.

 

Em muitos pontos do litoral inglês e francês o contrabando estava em boa harmonia com o negócio lícito. Entrava na casa de mais de um financeiro de alta classe, às escondidas, é verdade; e dilatava-se subterraneamente na circulação comercial e por todas as vias de indústria. Negociante em público, contrabandista às escondidas, eis a história de muitas fortunas. Seguin dizia isto de Bourguin. Bourguin dizia isto de Seguin. Não garantimos o dito de ambos. Talvez se caluniassem um ao outro. Fosse como fosse, o contrabando perseguido pela lei estava, sem contestação, muito aparentado no comércio. Carteava-se com a gema da sociedade. A caverna onde Maudrin acotovelava outrora o Conde de Charolais era honesta exteriormente e tinha uma fachada irrepreensível para o lado da sociedade.

 

Daqui resultaram muitas conveniências necessariamente mascaradas. Tais mistérios exigiam sombra impenetrável. Um contrabandista sabia de muitas coisas e devia guardar segredo; a sua lei era uma fé inviolável e rígida. A primeira qualidade de um trapaceiro era a lealdade. Sem discrição não há contrabando. Havia o segredo da fraude como há o segredo da confissão.

 

Esse segredo era imperturbavelmente guardado. O contrabandista jurava não dizer nada e mantinha a sua palavra. Ninguém inspirava mais confiança que um contrabandista. O juiz alcaide de Oyarzun apanhou um dia um contrabandista e pôs-lhe a questão para obrigá-lo a declarar quem era o seu caixa de fundos. O contrabandista não confessou quem era o caixa de fundos. O caixa de fundos era o juiz alcaide. Dos dois cúmplices, juiz e contrabandista, o primeiro devia, para cumprir a lei aos olhos de todos, ordenar a tortura, à qual o segundo resistia para cumprir o juramento.

 

Os dois mais famosos contrabandistas que andavam em Plainmont naquela época eram Blasco e Blasquito. Eram tocaios. Parentesco espanhol e católico que consiste em ter o mesmo patrão no paraíso, coisa não menos digna de consideração que ter o mesmo pai na terra.

 

Quem estava pouco mais ou menos ao fato do furtivo itinerário do contrabando e queria falar a esses homens, era isso a coisa mais fácil e mais difícil. Bastava não ter preconceitos noturnos, ir a Plainmont e afrontar o misterioso ponto de interrogação que ali se levanta.

 

 

 

CAPÍTULO IV

PLAINMONT

 

Plainmont, perto de Torteval, é um dos três ângulos de Guernesey. Há, na extremidade do cabo, uma coroa de relva que domina o mar. O cume é deserto. Tanto mais deserto quanto há ali uma casa. Aquela casa aumenta o horror da solidão. Dizem que é mal-assombrada. Assombrada ou não, o aspecto é medonho. É feita de granito, tem um só andar e está no meio da relva. Não tem aspecto de ruína. E perfeitamente habitável. As paredes são grossas e o teto sólido. Não falta uma só pedra às paredes, nem uma só telha ao telhado. Tem uma chaminé de tijolo. A casa está de costas para o mar. A fachada do lado do mar é apenas uma parede. Examinando bem essa parede vê-se uma janela murada. Há três trapeiras, uma a leste, duas a oeste, muradas todas. A frente da casa tem uma só porta e janelas. A porta é murada e as duas janelas de baixo também. No primeiro andar, e é isso que espanta logo ao princípio, há duas janelas abertas; mas as janelas tapadas são menos assustadoras que as janelas abertas. Por estarem abertas, aparecem negras em pleno dia. Não têm vidros nem caixilhos. Abrem para as trevas do interior. Dir-se-ia umas órbitas vazias de olhos arrancados. Nada há naquela casa. Vê-se pelas janelas abertas o descalabro de dentro. Nem retábulos, nem entalhos de madeira, pedra nua. Parece um sepulcro com janelas para deixar que os espectros olhem para fora. As chuvas aluem os alicerces do lado do mar. Algumas urtigas agitadas pelo vento beijam a barra das paredes. No horizonte, nenhuma habitação humana. Aquela casa é uma coisa vazia e silenciosa. Mas quem pára e põe o ouvido à parede ouve confusamente um bater de asas assustadas.

 

Por cima da porta tapada, na pedra que faz a arquitrave, estão gravadas estas letras: ELM — PBILG, e esta data: 1780.

 

De noite o luar lúgubre penetra na casa.

 

Todo o mar está em roda da casa. A situação é magnífica, e, por conseqüência, sinistra. A beleza do lugar torna-se um enigma. Por que motivo aquela casa não é habitada por nenhuma família humana? O lugar é bonito, a casa é boa. Donde procede esse abandono? Às perguntas da razão ajuntam-se as perguntas da superstição. O campo é cultivável, por que motivo está inculto? Não há dono. A porta, murada. Que tem, pois, esse lugar? Por que foge o homem? Que se faz aqui? Se não há nada por que é que não há ninguém? Quando todos dormem há alguém acordado? A lufada tenebrosa, o vento, as aves de rapina, os animais escondidos, os entes ignorados, aparecem ao pensamento e misturam-se àquela casa. A que passageiros serve ela de hospedaria? A gente imagina trevas de granizo e de chuva metendo-se pela janela dentro. Há na parte interior uns vagos sinais de chuva que gotejou. Os quartos fechados e abertos são visitados pelo furacão.

 

Cometer-se-ia algum crime ali? Parece que aquela casa, à noite, entregue às trevas, deve chamar por socorro. Será muda? Saem vozes de dentro? Que faz ela na solidão? O mistério das horas negras existe ali facilmente. A casa assusta ao meio-dia; que será ela à meia-noite? Contemplando-a, contempla-se um segredo. Pergunta-se — porque a superstição tem a sua lógica e o possível a sua inclinação — o que será aquela casa entre o crepúsculo da noite e o crepúsculo da manhã. A imensa dispersão da vida extra-humana tem acaso naquele cume deserto um vínculo em que ela pára, e que a obriga a fazer-se visível e a descer? O espaço vai redemoinhar ali? O impalpável vai ali condensar-se? Enigmas. Sai daquelas pedras o horror sagrado. A treva que está nesses quartos defesos é mais do que treva; é o desconhecido. Depois do sol posto voltam barcos de pescadores para terra, calam-se os pássaros, o cabreiro que está atrás do rochedo vai-se com as suas cabras, as fendas das pedras darão passagem aos répteis mais animados, as estrelas começarão a olhar, soprará o vento, far-se-á plena escuridão, as duas janelas estarão ali escancaradas. Abrem-se para o sonho; e é por aparições, larvas, fantasmas mal distintos, sombras cobrindo luzes, misteriosos tumultos de almas e espectros, que a crença popular estúpida e profunda traduz as sombrias intimidades daquela casa com a noite.

 

A casa é mal-assombrada, esta palavra explica tudo.

 

Os espíritos crédulos dão a sua explicação; mas os espíritos positivos dão outra. Nada mais simples do que essa casa, dizem eles. É um antigo posto de observação, do tempo das guerras da revolução e do império e dos contrabandos. Foi construída para isso. Acabada a guerra, foi abandonado o posto. Não se demoliu a casa porque pode tornar-se útil. Taparam-se a porta e as janelas do rés-do-chão contra os estercorários humanos, e para que ninguém pudesse entrar; taparam-se as janelas do lado do mar, por causa do vento do sul e do vento do oeste. Eis tudo.

 

Os ignorantes e os crédulos insistem. Em primeiro lugar a casa não foi construída no tempo das guerras da revolução. Traz a data de 1780, anterior à revolução. Depois, não foi construída para ser posto; tem as letras ELM — PBILG, que são o duplo monograma de duas famílias, e que indicam, segundo o uso, que a casa foi construída para algum jovem casal. Portanto foi habitada. Por que não o é agora? Se se tapou a porta e as janelas para que ninguém entrasse, por que motivo deixaram-se abertas duas janelas? Deviam tapar tudo ou nada. Por que não há vidros, nem caixilhos, nem postigos? Por que fechá-las de um lado, sem fechá-las de outro? A chuva não entra pelo sul, mas entra pelo norte.

 

Os crédulos não têm razão, é certo; mas os positivos também não a têm. O problema persiste.

 

O que é certo é que dizem ter sido a casa mais útil que nociva aos contrabandistas.

 

Quando o medo cresce, os fatos perdem a verdadeira proporção. Não há dúvida que muitos fenômenos noturnos, entre aqueles de que a pouco e pouco se compôs o assombramento da casa, poderiam explicar-se por presenças fugitivas e obscuras, curtas estações de homens logo embarcados, já pelas precauções, já pela ousadia de certos comerciantes suspeitos, escondendo-se para fazer mal, e deixando-se entrever para causar medo.

 

Naquela época já remota, muitas audácias eram possíveis. A polícia, sobretudo, nos lugares pequenos, não era o que é hoje.

 

Ajunte-se a isto que, se a casa era cômoda aos contrabandistas, as suas entrevistas ali deviam ser francas, exatamente porque a casa era malvista. O ser malvista impedia que fosse denunciada. Ninguém pede à polícia socorro contra os espectros. Os supersticiosos persignam-se, mas não fazem processo. Vêem ou acreditam ver, fogem e calam. Existe uma conivência tácita involuntária, mas real, entre os que fazem medo e os que têm medo. Os assustados sentem que fizeram mal em se assustarem, imaginam ter surpreendido um segredo, receiam agravar a posição misteriosa para eles, e enfadar as aparições. Isto fá-los discretos. E ainda, fora deste cálculo, o instinto dos crédulos é o silêncio; o medo é mudo; os aterrorizados falam pouco; parece que o horror diz: silêncio!

 

Devem recordar-se que isto remonta à época em que os camponeses guernesianos acreditavam que o mistério do presépio era repetido todos os anos pelos bois e pelos asnos; época em que ninguém, na noite de Natal, ousaria penetrar em uma estrebaria com receio de encontrar os animais ajoelhados.

 

Se se deve acreditar nas legendas locais e narrativas dos camponeses, a superstição chegou a suspender nas paredes da casa de Plainmont, em pregos de que ainda existem vestígios, ratos sem pés, morcegos sem asas, arcabouços de animais mortos, sapos esmagados entre as páginas de uma Bíblia, febras de tremoços amarelos, estranhos ex-votos pendurados por viandantes imprudentes que acreditavam ver alguma coisa, e por meio desses presentes contavam obter perdão e conjurar o mau humor das estriges, das larvas e dos duendes. Houve sempre quem acreditasse em congressos de feitiçaria, e alguns desses crédulos altamente colocados. César consultava Sagana, e Napoleão Mademoiselle Lenormand. Há consciências tão inquietas que chegam a procurar indulgências do diabo. “Faça-o Deus, mas não o desfaça Satanás”, era uma das orações de Carlos V.

 

Há espíritos mais timoratos ainda. Esses chegam a persuadir-se de que o mal pode ter razão contra eles. Ser irrepreensível para com o demônio é uma das suas preocupações. Daí vêm as práticas religiosas voltadas para a imensa malícia obscura. É uma carolice como qualquer outra. Os crimes contra o demônio existem em certas imaginações doentias; violar a lei do inimigo é uma coisa que faz sofrer os estranhos casuístas da ignorância; há escrúpulos para com as regiões das trevas. Crer na eficácia da devoção aos mistérios do Brocken e de Armuyr, imaginar que se peca contra o inferno recorrendo a penitências quiméricas por infrações quiméricas, confessar a verdade ao espírito da mentira; fazer o mea culpa diante do pai da Culpa, confessar-se em sentido inverso, tudo isto existe ou existiu. Os processos de magia provam-no em cada uma de suas páginas. Vai até esse ponto o sonho humano. Quando o homem começa a assustar-se, não pára mais. Sonha culpas imaginárias, sonha purificações imaginárias, e faz limpar a sua consciência com a vassoura das feiticeiras.

 

Fosse como fosse, se aquela casa teve aventuras, é coisa que lá ficou; pondo de parte alguns acasos e algumas exceções, ninguém subiu a ver o que era; a casa ficou só; ninguém gosta de arriscar-se aos encontros infernais.

 

Graças ao terror que a cerca e afasta dali todo aquele que pudesse observar e testemunhar, fácil foi em todos os tempos entrar de noite naquela casa por meio de uma escada de corda ou simplesmente por meio da primeira tranqueira que se achasse nas hortas vizinhas. Levava-se um rancho de víveres, o que dava lugar a esperar ali com toda segurança a eventualidade de um embarque furtivo. Conta a tradição que há quarenta anos um fugitivo, dizem uns que da política outros que do comércio, lá esteve algum tempo escondido, e dali embarcou num barco de pesca para a Inglaterra. Da Inglaterra é fácil passar à América.

 

A mesma tradição afirma que as provisões depositadas naquele albergue lá se conservam sem que ninguém as toque, visto como Lúcifer e os contrabandistas têm interesse em que a pessoa que lá as põe vá buscá-las.

 

Do lugar em que existe aquela casa, vê-se ao sudoeste, a 1 milha da costa, o escolho de Hanois.

 

É célebre aquele escolho. Fez todas as más ações que um rochedo pode fazer. Era um dos mais temíveis assassinos do mar. Esperava perfidamente os navios à noite. Entulhou os cemitérios de Torteval e de Rocquaine.

 

Em 1862 pôs-se ali um farol.

 

Hoje o escolho de Hanois alumia a navegação que ele próprio extraviava outrora; a emboscada traz agora um archote na mão. Procura-se hoje como protetor e guia o rochedo do qual fugia-se outrora como de um malfeitor. O escolho tranqüiliza aqueles vastos espaços noturnos onde outrora inspirava o medo. Assemelha-se a um salteador feito soldado de polícia.

 

Há três Hanois: o grande Hanois, o pequeno Hanois e a Mauve. No pequeno Hanois é que existe hoje o Red Light.

 

O escolho faz parte de um grupo de picos, uns submarinos, outros acima da água. Domina-os. Como se fora uma fortaleza, tem baterias avançadas; do lado do mar alto, um cordão de treze rochas; ao norte, dois cachopos, Hautes-Fourquies e Aiguillons e um banco de areia, Heronce; ao sul três rochedos, Cat-Rock, Persée e Roque-Herpin; depois a South Boue e a Boue Mouet, e além disso em frente de Plainmont, à flor da água, o Tas-de-Pois-d'Aval.

 

Atravessar a nado o estreito de Hanois a Plainmont é coisa incômoda, mas não impossível. O leitor lembra-se de que era essa uma das proezas do Sr. Clubin. O nadador que conhece os baixios tem duas estações em que pode descansar, a Roque redonda, e, mais longe, obliquando um pouco à esquerda, a Roque vermelha.

 

 

 

CAPÍTULO V

OS FURTA-NINHOS

 

Pouco mais ou menos naquele dia de sábado em que o Sr. Clubin esteve em Torteval, deu-se um fato singular, pouco assoalhado em princípio e que só transpirou muito depois. Como dissemos, há muitas coisas que ficam desconhecidas, mesmo por causa do medo que inspiram às suas próprias testemunhas.

 

Na noite de sábado ao domingo (precisamos o dia e cremo-lo exato), três meninos escalaram o rochedo de Plainmont. Voltavam à vila. Vinham do mar. Eram o que, na língua local, chamam deniquoiseaux: leia-se denicheoiseaux (furta-ninhos). Onde quer que haja penhascos na praia e fendas de rochedos acima do mar há furta-ninhos em abundância. Já falamos deles. O leitor lembra-se de que Gilliatt preocupava-se com isto, por causa dos pássaros e por causa das crianças.

 

Os furta-ninhos são espécies de gaiatos do oceano, pouco tímidos.

 

A noite era escura. Espessas superposições de nuvens escondiam o zênite. Três horas da manhã soavam no sino de Torteval, que é redondo e pontudo, semelhante a um chapéu de mágico.

 

Por que voltavam tão tarde aqueles pequenos? Nada mais simples. Tinham ido à caça dos ninhos de cotovias no Tas-de-Pois-d'Aval.

 

Como a estação tinha sido amena, começaram cedo os amores dos pássaros. Os pequenos espreitando os machos e as fêmeas à roda dos ninhos, e distraídos pela tenacidade da empresa tinham esquecido as horas. Foram cercados pela maré. Não puderam voltar a tempo para a canoa e tiveram que esperar que o mar se retirasse, assentados em uma das pontas de Tas-de-Pois. Tal foi o motivo da volta noturna. Estas voltas são esperadas sempre pela febril inquietação das mães que, uma vez tranqüilas, manifestam a alegria por meio da cólera, e lacrimosas dissipam o terror a cachações. Por isso os pequenos apressavam-se, mas iam assustados. Apressavam-se, mas de boa vontade se demorariam, era um certo desejo de não chegar nunca. Tinham em perspectiva um beijo complicado de sopapo.

 

Só um dos meninos nada receava; era um órfão. Era francês e ia bem contente de não ter naquele dia nem pai nem mãe. Não tendo ninguém que se interessasse por ele, escapava à bordoada. Os outros dois eram guernesianos e da paróquia de Torteval.

 

Escaladas as rochas, os três furta-ninhos chegaram à planura onde estava a casa mal-assombrada.

 

Começaram por ter medo, dever de todo o viandante, sobretudo crianças, àquela hora e naquele lugar.

 

Quiseram fugir e quiseram parar a fim de contemplar a casa.

 

Pararam.

 

Contemplaram a casa.

 

Era negra e formidável.

 

Era, naquele deserto, um montão escuro, uma excrescência simétrica e hedionda, uma alta massa quadrada de ângulos retilíneos, uma coisa semelhante a um enorme altar de trevas.

 

O primeiro pensamento dos meninos tinha sido fugir; o segundo foi aproximar-se. Nunca tinham visto aquela casa àquela hora. A curiosidade de ter medo existe. Havia entre eles um francês, donde resultou que os pequenos aproximaram-se da casa.

 

É sabido que os franceses não acreditam em coisa alguma.

 

Demais, quando são muitos, todos se tranqüilizam; o medo dividido por três dá animação.

 

E depois, eram curiosos; eram crianças, somada a idade dos três não dava trinta anos; era a idade de perscrutar, de escavar, esquadrinhar as coisas ocultas; deve-se acaso parar no meio? Mete-se a cabeça neste buraco, por que não metê-la no outro? A caça arrasta; andar em uma descoberta é o mesmo que se meter em um moinho. Ter olhado para o ninho dos pássaros dá vontade de olhar um pouco para o ninho dos espectros. Investigar o inferno, por que não?

 

De caça em caça, chega-se ao demônio. Depois dos pardais os diabretes. Há vontade de saber o que é esse medo inspirado pelos pais. Andar na pista dos contos da carocha é o que há mais resvaladiço. Saber tanto como as contadeiras de histórias é coisa que tenta.

 

Todo este amálgama de idéias no estado de confusão e instinto, na cabeça dos rapazes, deu em resultado a temeridade deles. Caminharam para a casa.

 

Demais, o pequeno que lhes servia de apoio nesta bravura era digno disso. Era um rapaz resoluto, aprendiz de calafate, uma dessas crianças que já são homens, dormindo no estaleiro em cama de palha, ganhando a vida, tendo uma voz grossa, trepando às árvores e às paredes sem escrúpulos a respeito das frutas que encontrava, tendo trabalhado em consertos de navios de guerra, filho do acaso e do bambúrrio, órfão alegre, nascido na França, sem saber em que ponto, duas razões para ser atrevido, dando sem reparar aos pobres, muito mau, muito bom, loiro rastejando a ruivo, tendo já falado aos parisienses. Agora ganhava 1 xelim por dia calafetando os barcos dos pescadores. Dando-lhe a veneta punha-se em férias e ia tirar os ninhos dos pássaros. Tal era o francês.

 

A solidão do lugar tinha um não sei quê de fúnebre. Sentia-se a inviolabilidade ameaçadora. Era medonho. Aquela planura silenciosa e nua escondia no precipício a sua curva em declive. Embaixo calava-se o mar. Não havia vento. As ervas não se mexiam.

 

Os furta-ninhos avançavam devagar, com o francês à frente, contemplando a casa.

 

Um deles, contando depois o fato, ou o pouco que lhe restava na memória, acrescentava: “A casa não dizia nada”.

 

Aproximavam-se retendo a respiração, como quem se aproxima de um animal feroz.

 

Tinham subido o cômoro que fica atrás da casa, e que vai ter a um pequeno istmo de rochedos pouco praticável; estavam perto da casa; mas viam apenas a fachada do sul, que é toda murada; não tinham ousado voltar à esquerda, o que os teria exposto a ver a outra fachada em que há apenas duas janelas, o que é terrível. Entretanto atreveram-se, porque o aprendiz de calafate disse-lhes baixinho: “Viremos de bombordo; daquele lado é que é bonito; é preciso ver as duas janelas negras”.

 

Viraram de bombordo e chegaram ao outro lado da casa.

 

As duas janelas estavam iluminadas.

 

Os meninos fugiram.

 

Quando estavam longe, voltou-se o francês.

 

— Olhem — disse ele — já não há luz.

 

Com efeito, não havia luz nas janelas. A casa desenhava-se na lividez difusa do céu.

 

O medo não se foi, mas a curiosidade voltou. Os furta-ninhos aproximaram-se.

 

De repente apareceram as luzes outra vez.

 

Os dois rapazes de Torteval tornaram a pôr sebo às canelas. O pequeno Satanás francês não avançou, mas não recuou. Ficou imóvel em frente da casa olhando para ela.

 

Extinguiu-se a luz, depois brilhou de novo. Nada mais horrível. O reflexo fazia um vago rastilho de fogo na relva úmida pelo orvalho. Em certo momento o clarão desenhou na parede interior da casa grandes perfis negros que se mexiam e sombras de cabeças enormes.

 

Demais a casa não tinha teto nem tabiques, e, tendo apenas as quatro paredes e o telhado, uma janela não pode ser iluminada sem que a outra o seja.

 

Vendo que o aprendiz de calafate ficava, os outros dois voltaram trêmulos, curiosos. O aprendiz de calafate disse-lhes baixinho: “Há almas do outro mundo na casa. Vi o nariz de uma delas”. Os dois pequenos agruparam-se atrás do francês, e levantando-se sobre a ponta dos pés, por cima do ombro, abrigados por ele, fazendo dele um escudo, opondo-o à casa, tranqüilizados por tê-lo entre si e a visão, olharam também.

 

A casa a seu turno parecia olhar para eles. Tinha, naquela vasta obscuridade muda, duas órbitas vermelhas. Eram as janelas. A luz eclipsava-se, reaparecia, eclipsava-se ainda, como essas luzes costumam fazer. Estas intermitências sinistras representavam provavelmente as alternativas do inferno. Abre-se, fecha-se. O respiradouro do sepulcro tem efeitos de lanterna surda.

 

De repente uma escuridão opaca com forma humana levantou-se em uma das janelas, como se viesse de fora, depois mergulhou no interior da casa. Parece que alguém chegava.

 

Entrar pela janela era o hábito dos visitantes.

 

O clarão apareceu um momento mais vivo, depois apagou-se e não reapareceu mais. A casa tornou-se escura. Então ouviram-se rumores. Esses rumores pareciam vozes. É sempre assim. Quando se vê, não se ouve; quando não se vê, ouve-se.

 

O mar tem à noite uma taciturnidade particular. O silêncio da sombra é aí mais profundo que em qualquer outra parte. Quando não há nem vento nem marulho, naquela agitada extensão de águas, onde de ordinário não se ouvem as águias voar, ouvir-se-ia voar uma mosca. Aquela paz sepulcral dava um relevo lúgubre aos rumores que saíam da casa.

 

— Vejamos — disse o francês.

 

E deu um passo para a casa.

 

Os outros dois tinham tal medo que se decidiram a acompanhá-lo. Não ousavam fugir sós. Acabavam de passar um grande montão de lenha que, sem que o saibamos, os animava naquela solidão, quando de uma moita voou uma coruja. As corujas têm uns vôos tortos, de assustadora obliqüidade. Aquela passou de través pelos rapazes, fixando neles os olhos claros no meio da treva.

 

Houve um certo estremecimento no grupo atrás do francês.

 

O francês clamou contra a coruja.

 

— Tarde vens, coruja. Já não é tempo. Quero ver.

 

E avançou.

 

O ranger dos seus sapatos grossos e ferrados não lhes impedia ouvir os rumores da casa que se elevavam e baixavam, com a acentuação calma e a continuidade de um diálogo.

 

Momentos depois acrescentou o francês:

 

— Demais, só os tolos podem crer em almas do outro mundo.

 

A insolência no perigo reúne os retardados e impele-os para a frente.

 

Os dois rapazes de Torteval puseram-se a caminho atrás do aprendiz de calafate.

 

A casa mal-assombrada fazia-lhes o efeito de crescer desmesuradamente. Nesta ilusão de óptica do medo, havia realidade. A casa crescia realmente porque eles aproximavam-se dela.

 

Entretanto, as vozes que estavam na casa tornavam-se mais distintas. Os rapazes paravam, ouviam. O ouvido tem os seus aumentos. Não era murmúrio, era mais que um cochichar, menos que um alarido. De quando em quando destacava-se uma ou duas palavras claramente articuladas. Essas palavras, impossíveis de compreender, soavam estranhamente. Os rapazes paravam, ouviam e depois continuavam a andar.

 

— É a conversa das almas do outro mundo, mas eu não creio em almas do outro mundo — disse o aprendiz de calafate.

 

Os pequenos de Torteval tinham vontade de esconder-se atrás da lenha; mas já estavam longe, e o amigo francês continuava a andar para a casa. Temiam ir com ele, e não ousavam deixá-lo.

 

Acompanhavam-no, a passo e passo e perplexos.

 

O aprendiz de calafate voltou-se para eles e disse-lhes:

 

— Bem sabem que não é verdade. Não existe nenhuma.

 

A casa tornava-se cada vez mais alta.

 

Aproximavam-se.

 

Aproximando-se, reconheciam que havia na casa uma luz abafada. Era um clarão vago, um desses efeitos de lanterna surda, indicados há pouco, e que abundam na iluminação das feitiçarias.

 

Quando se acharam ao pé da casa, pararam de todo.

 

Um dos rapazes de Torteval arriscou esta observação:

 

— Não são almas do outro mundo, são fantasmas.

 

— Que é aquilo que pende ali à janela? — perguntou o outro.

 

— Parece uma corda.

 

— É uma serpente.

 

— É corda de enforcado — disse o francês com autoridade. — Serve-lhes. Mas eu não creio.

 

E mais em três pulos que em três passos o francês estava ao pé da parede da casa. Havia febre naquele atrevimento.

 

Os outros, trêmulos, imitaram-no, e foram colocar-se ao pé dele, encostando-se um à direita, outro à esquerda. Os rapazes aplicaram o ouvido à parede. Continuava-se a falar dentro da casa.

 

Eis o que diziam os fantasmas:

 

— Assim pois, está entendido?

 

— Entendido.

 

— Dito?

 

— Dito.

 

— Aqui esperará um homem e partirá depois para a América com Blasquito?

 

— Pagando?

 

— Pagando.

 

— Blasquito tomará o homem na barca.

 

— Sem indagar de que terra ele é?

 

— Não temos nada com isso.

 

— Sem lhe perguntar o nome?

 

— Não se pede o nome, pede-se a bolsa.

 

— Bem. O homem esperará nesta casa.

 

— Tendo o que comer.

 

— Terá.

 

— Onde?

 

— Neste saco que trago.

 

— Muito bem.

 

— Posso deixar o saco aqui?

 

— Os contrabandistas não são ladrões.

 

— E os senhores quando vão?

 

— Amanhã de manhã. Se o seu homem está pronto poderá vir conosco.

 

— Não está pronto.

 

— É lá com ele.

 

— Quantos dias esperará aqui?

 

— Dois, três, quatro dias. Mais ou menos.

 

— É certo que Blasquito virá?

 

— Certo.

 

— Aqui, a Plainmont?

 

— A Plainmont.

 

— Em que semana?

 

— Na próxima.

 

— Em que dia?

 

— Sexta, sábado ou domingo.

 

— Não pode faltar?

 

— É meu tocaio.

 

— Virá com qualquer tempo?

 

— Qualquer. Não tem medo. Eu sou Blasco, ele é Blasquito.

 

— Assim não deixará de ir a Guernesey?

 

— Eu venho num mês, ele virá noutro.

 

— Entendo.

 

— A contar de sábado próximo, de hoje a oito dias não se passarão cinco dias sem que venha Blasquito.

 

— Mas se o mar estiver muito mau?

 

— Mau tempo?

 

— Sim.

 

— Não virá tão depressa, mas virá.

 

— Donde virá?

 

— De Bilbau.

 

— Para onde irá?

 

— Para Portland.

 

— Bem.

 

— Ou para Tor Bay.

 

— Melhor.

 

— O seu homem pode ficar tranqüilo.

 

— Blasquito não será traidor?

 

— Os covardes são traidores. Somos valentes. O mar é a igreja do inverno. A traição é a igreja do inferno.

 

— Ninguém nos ouve?

 

— É impossível ouvir-nos ou ver-nos. O medo faz isto deserto.

 

— Sei.

 

— Quem se atreveria a escutar?

 

— É verdade.

 

— Mesmo que escutassem não poderiam entender. Falamos uma língua que ninguém conhece. Desde que você a sabe, é dos nossos.

 

— Eu vim para arranjarmos os negócios.

 

— Bem.

 

— E agora vou-me embora.

 

— Pois sim.

 

— Diga-me cá, homem. Se o passageiro quiser que Blasquito vá a outro lugar que não Portland ou Tor Bay?

 

— Traga onças.

 

— Blasquito fará o que o homem quiser?

 

— Blasquito fará o que as onças quiserem.

 

— É preciso muito tempo para ir a Tor Bay?

 

— Depende do vento.

 

— Oito horas?

 

— Mais ou menos.

 

— Blasquito obedecerá ao passageiro?

 

— Se o mar obedecer a Blasquito.

 

— Há de ser bem pago.

 

— Ouro é ouro. Vento é vento.

 

— É justo.

 

— O homem faz o que pode com o ouro. Deus com o vento faz o que quer.

 

— O homem que quer ir com Blasquito aqui virá sexta-feira.

 

— Bem.

 

— A que horas chega Blasquito?

 

— À noite. Chega-se à noite, sai-se à noite. Temos uma mulher que se chama água salgada, e uma irmã que se chama noite. A mulher pode enganar, a irmã nunca.

 

— Está dito tudo. Adeus, homens.

 

— Boas tardes. Um gole de aguardente?

 

— Obrigado.

 

— É melhor que xarope.

 

— Tenho a sua palavra.

 

— O meu nome é Pundonor.

 

— Deus seja convosco.

 

— Se é fidalgo, eu sou cavalheiro.

 

Era claro que só diabos podiam falar assim. Os rapazes não ouviram mais, e desta vez fugiram deveras, até o francês, que convencido então corria mais depressa que os outros.

 

Na seguinte terça-feira, o Sr. Clubin estava de volta a Saint-Malo trazendo a Durande.

 

O Tamaulipas continuava ancorado.

 

O Sr. Clubin, entre duas baforadas de fumo, perguntou ao dono da Pousada João:

 

— Então, quando sai o Tamaulipas?

 

— Depois de amanhã, quinta-feira — respondeu o estalajadeiro.

 

Nessa noite, Clubin ceou à mesa dos guardas das costas, e, contra o costume, saiu logo depois de cear. Resultou desta saída que não pôde estar presente no escritório da Durande, e faltou ao carregamento. Foi isto reparado por ser ele um homem tão exato.

 

Parece que ele conversou alguns instantes com o seu amigo cambista.

 

Voltou duas horas depois que Noguette tocou a recolher. O sino brasileiro soa às 10 horas. Era, pois, meia-noite.

 

 

 

CAPÍTULO VI

A JACRESSARDE

 

Há quarenta anos Saint-Malo possuía uma viela chamada viela Coutanchez. Essa viela já não existe: foi compreendida nos melhoramentos da cidade.

 

Era uma dupla fileira de casas de pau inclinadas umas para as outras, e deixando no centro lugar suficiente para correr um rego que se chamava rua. Andava-se ali com as pernas abertas dos dois lados da água lamacenta, abalroando com a cabeça e o cotovelo as casas da direita e da esquerda.

 

As velhas choupanas da Idade Média normanda têm perfis quase humanos. De albergue a feiticeiro a distância não é grande. Os andares entrantes, as paredes inclinadas, os alpendres circunflexos e o embrenhado de ferros velhos simulam lábios, queixos, nariz e sobrancelhas. A trapeira é o olho, zarolho. A face é a parede rugosa e herpética. Tocam-se as paredes como se conspirassem uma ação iníqua. Todos estes nomes da antiga civilização, quebra-cabeças e quebra-ventas, prendem-se àquela arquitetura.

 

Uma das casas da viela Coutanchez, a maior, a mais famosa ou a mais afamada, chamava-se a Jacressarde.

 

A Jacressarde era a habitação daqueles que não têm habitação.

 

Em todas as cidades, e especialmente nos portos de mar, há, abaixo da população, um resíduo. Vagabundos, aventureiros, vivendo de expedientes, químicos de espécie larápio, pondo sempre a vida no alambique, todas as formas do andrajo e todas as maneiras de vesti-lo, os jubilados da improbidade, as existências em bancarrota, as consciências que já fizeram balanço, os que abortaram no assalto e no arrombamento de portas (porque os ladrões trabalham por baixo e por cima), os operários e as operárias do mal, os velhaquetes e as velhaquinhas, os escrúpulos rasgados e os cotovelos rotos, os tratantes chegados à indigência, os malévolos mal recompensados, os vencidos do duelo social, os famintos que foram devorados, os ganha-pouco do crime, os miseráveis, na dupla e lamentável acepção da palavra, tal é o pessoal. Ali é bestial a inteligência humana. É o montão de imundícies das almas. Ajunta-se tudo aquilo a um canto, onde passa de quando em quando a vassoura policial. Em Saint-Malo esse canto era a Jacressarde.

 

O que se encontra nessas espeluncas não são os grandes criminosos, os bandidos, os grandes produtos da ignorância e da indigência. Se o assassino é representado ali, é por algum bêbado brutal; ali o roubo não vai além da ratonice. É antes o escarro que o vômito da sociedade. O vagabundo sim, o salteador não. Todavia não há que fiar. Aquele último degrau dos boêmios pode ter extremidades malvadas. Um dia, lançando a rede no Epi-Scié, que era em Paris o que a Jacressarde é em Saint-Malo, a polícia apanhou Lacenaire.

 

Tudo entra naqueles albergues. A queda é um nivelamento. As vezes a honestidade esfarrapada escoa-se por ali. A virtude e a probidade têm aventuras. Não se deve, à primeira vista, estimar os Louvres nem condenar as galés. O respeito público e a reprovação universal devem ser descascados. Quantas surpresas não se dão! Um anjo no lupanar, uma pérola no monturo — não é impossível este sombrio e deslumbrante achado.

 

A Jacressarde era mais pátio que casa, e mais poço que pátio. Não tinha andares para a rua. A fachada era uma alta parede com uma porta baixa. Levantava-se o ferrolho, empurrava-se a porta, entrava-se em um pátio.

 

No meio desse pátio havia um buraco redondo, cercado de uma orla de pedra, ao nível do chão. Era um poço. O pátio era pequeno, e o poço era grande. Em roda do bocal do poço o chão era mal calçado.

 

O pátio, quadrado, tinha construções por três lados. Do lado da rua, nada; mas diante da porta, à direita e à esquerda, havia aposentos.

 

Quem, à noite, entrasse ali, um pouco arriscadamente, ouviria como que um rumor de respirações juntas, e se houvesse bastante luar ou estrelas, para dar forma aos lineamentos obscuros, eis o que veria:

 

O pátio. O poço. Em roda do pátio, em frente à porta, uma palhoça figurando uma espécie de ferradura quadrada, galeria carunchosa, toda aberta, com teto de vigas, sustentada por pilares de pedra desigualmente espaçados; no centro, o poço; à roda do poço, em uma liteira de palha, e fazendo como que um rosário circular, viam-se solas de sapato umas direitas, outras acalcanhadas, dedos aparecendo pelos buracos dos sapatos, e muitos tornozelos nus, pés de homem, pés de mulher, pés de criança. Todos esses pés dormiam.

 

Depois desses pés, penetrando o olhar na penumbra da palhoça, distinguiam-se corpos, formas, cabeças adormecidas, prolongamentos inertes, farrapos de ambos os sexos, uma promiscuidade no monturo, um sinistro jazido humano. Era um quarto de dormir para todos. Pagavam-se 2 soldos por semana. Os pés tocavam no poço. Nas noites de tempestade, chovia sobre os pés; nas noites de inverno, caía neve sobre os corpos.

 

Quem eram aquelas criaturas? Os desconhecidos. Iam ali de noite e saíam de manhã. A ordem social anda misturada com aquelas larvas. Alguns esgueiravam-se ali de noite e não pagavam. A maior parte entrava em jejum. Todos os vícios, todas as abjeções, todas as suposições, todas as misérias, o mesmo sono de prostração no mesmo leito do lodo. Os sonhos de todas essas almas faziam boa vizinhança. Fúnebre entrevista em que se remexiam e se amalgamavam no mesmo miasma os cansaços, os desfalecimentos, as borracheiras incubadas, as marchas e contramarchas de um dia sem um pedaço de pão e sem um bom pensamento, as noites lívidas e sonolentas, remorsos, cobiças, cabelos imundos, rostos com o olhar da morte, beijos, talvez, das bocas da treva. A podridão humana fermentava naquela tina. Eram atiradas àquele albergue pela fatalidade, pela viagem, pelo navio chegado na véspera, por uma saída de prisão, pelo acaso, pela noite. O destino vazava ali, todos os dias, a sua alcofa. Entrava quem queria, dormia quem podia, falava quem ousava. Era próprio para cochichar. Todos se apressavam em misturar-se. Tratavam de esquecer-se no sono, visto que não podiam perder-se na sombra. Tiravam à morte aquilo que podiam. Fechavam os olhos naquela agonia confusa que todas as noites começava. Donde saíam? Da sociedade, porque eram a miséria; da vaga, porque eram a espuma.

 

Nem todos tinham palha. Mais de uma nudez estava ali no chão; deitavam-se estafados; erguiam-se anquilosados. O poço sem parapeito e sem tampa, sempre aberto, tinha 30 pés de profundidade. Caía ali a chuva, escorriam as imundícies, filtravam todos os escoamentos do pátio. A caçamba para tirar água ficava a um lado. Quem tinha sede bebia. Quem estava aborrecido afogava-se. Do sono do monturo passava-se ao sono do poço. Em 1819 tirou-se dali um menino de catorze anos.

 

Para não correr risco naquela casa era preciso ser da laia. Os estranhos eram malvistos.

 

Conheciam-se acaso entre si aquelas criaturas? Não; farejavam-se.

 

A dona da casa era uma mulher moça, assaz bonita, trazendo um barrete ornado de fitas, lavada às vezes com água do poço e tendo uma perna de pau.

 

Desde madrugada esvaziava-se o pátio; iam-se embora os fregueses.

 

Havia no pátio um galo e algumas galinhas, que esgaravatavam no esterco durante o dia. O pátio era atravessado por um barrote horizontal, colocado sobre postes, figura de forca, que não estava ali em terra estranha. Via-se às vezes estendido no barrote, no dia seguinte às noites chuvosas, um vestido de seda molhado e enlameado, pertencente à mulher da perna de pau.

 

Acima da palhoça e circulando o pátio havia um andar superior e acima do andar um celeiro. Subia-se até lá por uma escada de madeira podre que furava o teto; escada vacilante por onde subia com estrépito a mulher coxa.

 

Os locatários de arribação, por semana ou por noite, moravam no pátio; os locatários residentes moravam na casa.

 

Janelas, nem um caixilho; portas, nem uma ombreira; lareiras, nem um fogão; era a casa. Passava-se de um quarto a outro indiferentemente por um buraco quadrado e comprido que fora porta, ou por uma fresta triangular que ficava entre duas pilastras do tabique. A caliça caída cobria o assoalho. Não se sabia como aquela casa estava em pé. O vento não a abalava. Mal se podia subir pela escada gasta e escorregadia. Tudo estava aberto. O inverno entrava na casa como água em esponja. A abundância das aranhas tranqüilizava os moradores contra o desmoronamento imediato. Mobília nenhuma. Dois ou três enxergões nos cantos, rotos no centro, deixando ver mais cinza que palha, aqui e ali uma bilha e um alguidar, servindo para diversos usos. Cheiro insípido e hediondo.

 

As janelas davam sobre o pátio. De cima o pátio assemelhava-se a um carro de lama. As coisas, sem contar os homens que ali apodreciam e enferrujavam-se, eram indescritíveis. Os destroços fraternizavam: caíam paredes, caíam criaturas. Os trapos semeavam entulhos.

 

Além da população flutuante alojada no pátio, a Jacressarde tinha três inquilinos, um carvoeiro, um trapeiro e um fabricante de ouro. O carvoeiro e o trapeiro ocupavam dois enxergões no primeiro andar; o fabricante de ouro, químico, morava nas águas-furtadas, que também se chamavam sótão. Não se sabia em que lugar dormia a mulher. O fabricante de ouro era um tanto poeta. Habitava debaixo das telhas, num quarto em que havia uma trapeira estreita e uma grande chaminé de pedra, golfão onde ia rugir o vento. A trapeira não tinha caixilhos; o fabricante de ouro pregou em cima um pedaço de ferro em folha, proveniente de um rasgão de navio. A folha deixava passar pouca luz e muito frio. O carvoeiro pagava a casa com um saco de carvão de quando em quando; o trapeiro pagava com um cestário de grãos para as galinhas, cada semana; o fabricante de ouro não pagava nada. Entretanto, ia queimando a casa. Já tinha arrancado a pouca madeira, e a cada instante tirava da parede, ou do teto, uma ripa para aquecer a caldeira do ouro. No tabique acima do grabato do trapeiro viam-se em duas colunas algarismos feitos com greda, escritos pelo trapeiro todas as semanas, uma coluna de três e uma coluna de cinco, conforme o cestário de grão custasse 3 liardes ou 5 cêntimos. A caldeira do químico era uma velha bomba quebrada promovida por ele ao cargo de caldeira, e que lhe servia para combinar os ingredientes. A transmutação absorvia-o. Algumas vezes falava nisso aos maltrapilhos do pátio, que deitavam a rir. Dizia ele: “Aquela gente está cheia de preconceitos”. Estava resolvido a não morrer sem atirar a pedra filosofal às vidraças da ciência. O forno com que trabalhava comia muita lenha. Já o patamar da escada tinha desaparecido. Ia-se toda a casa paulatinamente. Dizia a hoteleira: “Neste andar só me fica o casco”. O químico abrandava-lhe a cólera fazendo-lhe versos.

 

Tal era a Jacressarde.

 

O criado da casa era um menino, talvez anão, contando doze anos ou sessenta de idade, cheio de borbulhas, e trazendo sempre uma vassoura na mão.

 

Os freqüentadores entravam pela porta do pátio; o público entrava pela porta da loja. O que era a loja?

 

A alta parede que dava para a rua tinha à direita da entrada do pátio uma abertura feita em esquadria, que era a um tempo porta e janela, tendo postigo e caixilhos; o postigo era o único da casa que tinha eixos e fechaduras, o caixilho era o único que tinha vidros. Por trás da janela que abria sobre a rua havia um pequeno quarto que tomava uma parte do telheiro de dormir. Lia-se na porta da rua este dístico feito com carvão: “Aqui encontram-se as curiosidades”. A palavra já corria mundo. Sobre três tábuas que fingiam prateleiras colocadas por trás de vidraças, viam-se alguns potes de porcelana falsa, sem asa, um chapéu de sol chinês feito de pergaminho delgado, ornado de figuras, furado em diversos pontos, impossível de abrir e fechar, cadinhos de ferro, louça informe, chapéus de homem e mulher estragados, três ou quatro conchas, alguns embrulhos de botões de osso e de cobre já velhos, uma boceta com o retrato de Maria Antonieta, e um volume truncado da álgebra de Boisbertrand.

 

Tal era a loja. Aquele sortimento era a curiosidade. A loja comunicava por uma porta do fundo com o pátio onde estava o poço. Tinha uma mesa e um escabelo. A mulher da perna de pau era a moça do balcão.

 

 

 

CAPÍTULO VII

COMPRADORES NOTURNOS E VENDEDOR TENEBROSO

 

Clubin não foi à Pousada João, nem na noite de terça-feira, nem na noite de quarta-feira.

 

Nesta noite, ao escurecer, dois homens entraram pela viela Coutanchez; pararam diante da Jacressarde. Um deles bateu na vidraça. Abriu-se a porta da loja. Entraram ambos. A mulher da perna de pau deu-lhes o sorriso reservado aos burgueses. Havia uma vela sobre uma mesa.

 

Os dois homens eram efetivamente burgueses.

 

O homem que tinha batido na vidraça disse:

 

— Boa noite, mulher. Venho por aquilo.

 

A mulher da perna de pau sorriu segunda vez e saiu pela porta que dava para o pátio. Minutos depois abriu-se de novo a porta, e apareceu um homem pela fresta, trazendo boné e blusa, debaixo da qual havia um objeto volumoso. Tinha uns fios de palha nas dobras da blusa e pelos olhos via-se que acabava de acordar.

 

O homem avançou. Olharam-se todos. O homem da blusa tinha um ar turvado e esperto.

 

— O senhor é o armeiro? — disse ele.

 

O homem que tinha batido respondeu:

 

— Sim. O senhor é o Parisiense?

 

— Chamado Peaurouge. Sim.

 

— Deixe ver.

 

— Aqui está.

 

O homem tirou debaixo da blusa um instrumento muito raro na Europa naquela época, um revólver.

 

O revólver era novo e brilhante. Os dois burgueses examinaram-no. O que pareceu conhecer a casa e a quem o homem da blusa chamou armeiro fez mover o mecanismo. Entregou depois a arma ao outro burguês, que parecia não ser morador na cidade, e que se conservava com as costas voltadas para a luz.

 

O armeiro perguntou:

 

— Quanto custa?

 

O homem da blusa respondeu:

 

— Venho da América. Há pessoas que trazem macacos, papagaios, animais, como se os franceses fossem selvagens. Eu trouxe isto. É uma invenção útil.

 

— Quanto custa? — perguntou de novo o armeiro.

 

— É uma pistola que faz molinete.

 

— Quanto custa?

 

— Paf. Primeiro tiro. Paf. Segundo tiro. Paf... é uma saraivada! Isto faz obra.

 

— Quanto custa?

 

— Tem seis canos.

 

— Mas quanto custa?

 

— Seis canos são 6 luíses.

 

— Quer 5 luíses?

 

— Impossível. Um luís por cada bala. É o preço.

 

— Quer fazer negócio, seja razoável.

 

— Já disse o preço. Examine-me esta obra, senhor arcabuzeiro.

 

— Já examinei.

 

— O molinete anda de roda como o Sr. Talleyrand. Podiam pôr este molinete no dicionário das ventoinhas. É uma jóia.

 

— Já vi.

 

— Os canos são de fábrica espanhola.

 

— Já reparei.

 

— São lavrados. A coisa arranja-se assim. Deita-se na forja uma alcofa de ferros velhos, cravos, ferraduras quebradas...

 

— E velhas lâminas de foices.

 

— Ia dizê-lo, senhor armeiro. Depois deita-se em cima uma boa porção de fogo, e sai disto tudo um magnífico instrumento de ferro.

 

— Sim, mas pode ter gretas e buraquinhos; pode sair esconso.

 

— Sim. Mas tudo se arranja.

 

— O senhor é do ofício?

 

— Tenho todos os ofícios.

 

— Os canos são brancos.

 

— É beleza, senhor armeiro. Faz-se isto com borra de antimônio.

 

— Dizíamos nós que isto custa 5 luíses.

 

— Tomo a liberdade de observar que eu tive a honra de dizer 6 luíses.

 

O armeiro abaixou a voz.

 

— Ouça, Parisiense. Aproveite a ocasião. Desfaça-se disto. Isto para vocês não vale nada. Chama a atenção.

 

— Na verdade — disse Parisiense —, é um tanto vistoso. É melhor para um burguês.

 

— Quer 5 luíses?

 

— Não, 6. Um por cada buraco.

 

— Pois bem, 6 napoleões.

 

— Quero 6 luíses.

 

— Não é bonapartista. Prefere um luís a um napoleão?

 

Parisiense sorriu.

 

— Napoleão é melhor — disse ele —, mas luís vale mais.

 

— Seis napoleões.

 

— Seis luíses. É para mim uma diferença de 80 francos.

 

— Então não fazemos nada.

 

— Pois sim. Guardo o revólver.

 

— Guarde.

 

— Abater o preço! pois não! não se dirá que eu me desfiz sem mais nem menos de uma invenção destas!

 

— Então, boa noite.

 

— É um progresso sobre a pistola, que os índios chesapeakes chamam Nortay-u-Hoh.

 

— Cinco luíses à vista, é ouro.

 

— Nortay-u-Hoh quer dizer espingarda pequena. Muitas pessoas ignoram isto.

 

— Quer 5 luíses e mais 1 escudo?

 

— Eu já disse que custa 6.

 

O homem que estava de costas para a luz, e que ainda não tinha falado, fazia mover o mecanismo. Aproximou-se do armeiro e disse-lhe ao ouvido:

 

— A arma é boa?

 

— Excelente.

 

— Eu dou os 6 luíses.

 

Cinco minutos depois, enquanto Parisiense apertava em um buraco feito na manga da blusa os 6 luíses de ouro que acabava de receber, o armeiro e o comprador, levando no bolso da calça o revólver, saíram da viela Coutanchez.

 

 

 

CAPÍTULO VIII

CARAMBOLA DA BOLA VERMELHA E DA BOLA PRETA

 

No dia seguinte, que era quinta-feira, a pouca distância de Saint-Malo, perto da ponta do Decollé, num lugar em que as rochas das praias são altas, e o mar profundo, passou-se uma coisa trágica.

 

Nada mais freqüente na arquitetura do mar que uma língua de rochedos em forma de lança, que se prende à terra por um istmo estreito, prolonga-se na água e acaba-se aí bruscamente em forma de rochedo a pique. Para chegar ao alto desse rochedo, indo da praia, segue-se um plano inclinado cuja subida é às vezes assaz difícil.

 

No alto de um rochedo desse gênero, achava-se em pé, pelas 4 horas da tarde, um homem embrulhado em uma larga capa de uniforme, e provavelmente armado, o que era fácil de reconhecer por certas dobras retas e angulosas do manto. O sítio em que estava esse homem era uma plataforma assaz vasta semeada de cubos à semelhança de seixos imensos, deixando entre si estreita passagem. Esta plataforma onde brotava uma ervazinha estreita e curta terminava do lado do mar por um espaço livre, que ia dar a um despenhadeiro, de uns 60 pés de altura, acima do mar, e parecia talhado com um prumo. Entretanto, o ângulo da esquerda ia-se arruinando e oferecia uma dessas escadas naturais próprias aos granitos marinhos, cujos degraus pouco cômodos exigem às vezes pernas de gigante ou pulos de clowns. Descia perpendicularmente ao mar e mergulhava nas águas. Era um quebra-costas. Podia-se, contudo, a rigor, ir por ali embarcar na muralha da língua de rochas.

 

Soprava uma brisa. O homem, apertado na capa, firme nas pernas, com o cotovelo direito na mão esquerda, piscava um olho e aplicava ao outro um óculo. Parecia absorto em uma atenção séria. Aproximou-se da borda do rochedo, e ali estava imóvel com o olhar imperturbavelmente fito no horizonte. A maré estava cheia. A vaga batia por baixo dele no sopé do rochedo.

 

O que o homem observava era um navio ao largo que fazia manobras singulares.

 

Esse navio, que apenas uma hora antes saíra de Saint-Malo, tinha parado por trás dos Banquetiers. Era uma galera. Não tinha deitado âncora, talvez porque o fundo não lho permitisse, e porque o navio teria prendido a âncora debaixo do gurupés. Limitou-se a pôr-se à capa.

 

O homem, que era guarda-costa, como o uniforme indicava, espiava todas as manobras do navio e parecia tomar nota mentalmente. O navio tinha atravessado: era o que indicava a vela ré alada a barlavento, e as de proa largas por mão; tinha braceado o pano de ré o mais que lhe foi possível, de forma que neutralizava a força dos de proa. Deste modo, caindo a sotavento, não perdia mais de milha e meia por hora.

 

O dia ainda estava claro, sobretudo em pleno mar e no alto das rochas. Mas ao pé das costas começava a escurecer.

 

O guarda-costa, entregue ao seu trabalho, e espionando conscienciosamente ao largo, não tinha pensado em examinar o rochedo ao lado e embaixo. Dava as costas para a escada pouco praticável que punha em comunicação a plataforma com o mar. Não reparou que alguma coisa andava ali em movimento. Havia nessa escada, por trás da anfratuosidade, alguma pessoa, um homem escondido ali, segundo parecia, antes da chegada do guarda-costa. De tempos a tempos na sombra, aparecia uma cabeça por baixo da rocha, olhava para cima e espiava o espião. Essa cabeça coberta por um largo chapéu americano era a cabeça do quaker, que uns dez dias antes falara nas pedras do Petit Bey ao Capitão Zuela.

 

De repente pareceu redobrar a atenção do guarda-costa.

 

Limpou rapidamente com a manga o vidro do óculo e firmou-o com energia sobre o navio.

 

Destacara-se um ponto negro.

 

O ponto negro, semelhante a uma formiga no mar, era uma barcaça. A barcaça parecia querer ganhar a terra. Era tripulada por alguns marinheiros que remavam vigorosamente.

 

Já obliquava a pouco e pouco e dirigia-se para a ponta do Decollé.

 

A espreita do guarda-costa chegou ao seu maior grau de fixidez. Ele não perdia nenhum dos movimentos da barcaça. Aproximou-se mais ainda da borda do rochedo.

 

Neste momento um homem de alta estatura, o quaker, surgiu por trás do guarda-costa, no alto da escada. O espião não viu o quaker.

 

Parou este alguns instantes, com os braços caídos e os punhos crispados, e, com o olhar do caçador que aponta, olhou para as costas do espião.

 

Quatro passos apenas o separavam do guarda-costa; adiantou um pé, depois parou; deu outro passo e parou outra vez; o único movimento que fazia era andar, o resto do corpo era estátua; o pé firmava-se na relva sem rumor; deu terceiro passo e parou; estava quase tocando o guarda-costa, sempre imóvel, com o óculo fixo. O homem ajuntou as duas mãos fechadas na altura das suas clavículas, depois, bruscamente, abateram-se os antebraços, e os dois punhos, como que soltos por uma mola, bateram nos ombros do guarda-costa. O choque foi sinistro. O guarda-costa nem teve tempo de soltar um ai. Caiu de cabeça no mar. Viram-se-lhe os pés durante o tempo de um relâmpago. Foi uma pedra na água. A água cerrou-se depois, descrevendo dois ou três grandes círculos.

 

Ficou apenas o óculo escapo às mãos do guarda-costa e caído no chão. O quaker inclinou-se à borda das rochas, viu acalmar-se a água, esperou alguns minutos, depois endireitou-se, cantando entre os dentes:

 

Monsieur de a police est mort

En perdant a vie.

 

Inclinou-se outra vez. Nada reapareceu. Somente no lugar onde o guarda-costa tinha caído, formou-se na superfície da água uma espécie de espessura negra, que se alargava no movimento da vaga. Era provável que o guarda-costa tivesse quebrado o crânio em alguma rocha submarina. O sangue subira e fazia aquela mancha na espuma.

 

O quaker, contemplando aquela mancha, continuou:

 

Un quart d'heure avant sa mort,

Il était encore...

 

Não acabou.

 

Ouviu atrás de si uma voz doce que lhe dizia:

 

— Ora viva, Rantaine. Acaba o senhor de matar um homem. Ele voltou-se, e viu a quinze passos, no intervalo de dois rochedos, um homem baixo que tinha um revólver na mão.

 

Respondeu:

 

— Como vê. Bom dia, Sr. Clubin.

 

O homem baixo estremeceu.

 

— Reconheceu-me?

 

— Não me reconheceu o senhor? — disse Rantaine.

 

Entretanto, ouviu-se um rumor de remos no mar. Era a barcaça observada pelo guarda-costa que se aproximava.

 

O Sr. Clubin disse a meia-voz como se falasse consigo:

 

— A coisa foi rápida.

 

— Em que precisa de mim? — perguntou Rantaine.

 

— Pouca coisa. Há quase dez anos que nos não vemos. O senhor há de ter feito bons negócios. Como está de saúde?

 

— Bem — disse Rantaine. — E o senhor?

 

— Perfeitamente — respondeu Clubin.

 

Rantaine deu um passo para o Sr. Clubin.

 

Um pequeno som chegou aos seus ouvidos. Era o Sr. Clubin que armava o revólver.

 

— Rantaine, estamos a quinze passos. É uma boa distância. Fique onde está.

 

— Ah! Mas o que quer o senhor de mim?

 

— Venho conversar.

 

Rantaine não se mexeu. O Sr. Clubin continuou:

 

— O senhor matou agora mesmo um guarda-costa.

 

Rantaine levantou a aba do chapéu e respondeu:

 

— Já me fez a honra de dizê-lo.

 

— Em termos menos precisos. Disse há pouco: um homem; agora digo: um guarda-costa. O guarda-costa tinha o número 619. Era um pai de família. Deixa mulher e cinco filhos.

 

— Deve ser assim — disse Rantaine. Houve um imperceptível tempo de silêncio.

 

— São homens escolhidos esses guarda-costas — disse Clubin. Quase todos antigos marítimos.

 

— Notei que em geral deixam mulher e cinco filhos.

 

Clubin continuou:

 

— Adivinhe quanto me custou este revólver.

 

— É um lindo instrumento — respondeu Rantaine.

 

— Quanto vale?

 

— Vale muito.

 

— Custou-me 144 francos.

 

— Comprou naturalmente na loja de armas da Rua Coutanchez.

 

Clubin continuou.

 

— O guarda-costa nem gritou. A queda corta a voz.

 

— Sr. Clubin, há de ventar esta noite.

 

— Eu sou o único que sei do segredo.

 

— Continua a morar na Pousada João?

 

— Sim. Vive-se bem ali.

 

— Já lá comi muito boa couve fermentada.

 

— Rantaine, o senhor deve ser excessivamente forte. Tem cada espádua! Não seria eu quem lhe levaria um piparote. Era tão raquítico quando vim ao mundo, que nem se sabia se me poderiam criar.

 

— Felizmente criou-se.

 

— Sim, e continuo a morar na Pousada João.

 

— Sabe por que motivo eu o reconheci, Sr. Clubin? Porque o senhor me tinha reconhecido. Disse comigo: só Clubin pode reconhecer-me. E adiantou um passo.

 

— Fique onde estava, Rantaine. Rantaine recuou e disse à parte:

 

— A gente torna-se criança diante destes instrumentos.

 

O Sr. Clubin continuou.

 

— Situação. Temos aqui à direita, do lado de Saint-Enogat, a trezentos passos, outro guarda-costa, número 618, que está vivo, e à esquerda, do lado de Saint-Lunaire, um posto de alfândega. Sete homens armados que podem estar aqui dentro de cinco minutos. O rochedo ficará cercado. O desfiladeiro ficará guardado. Impossível fugir. Há um cadáver ao pé da rocha.

 

Rantaine deitou um olhar oblíquo ao revólver.

 

— Como diz, Rantaine. É um lindo instrumento. Talvez esteja carregado com pólvora seca. Mas que importa? Basta um tiro para fazer correr a força armada. Tenho seis tiros.

 

O choque alternativo dos remos tornava-se mais distinto. A barcaça não estava longe.

 

O homem alto olhava estranhamente para o homem baixo. O Sr. Clubin falava com um ar cada vez mais tranqüilo e doce.

 

— Rantaine, os homens da barcaça que vai chegar, sabendo o que fez há pouco, ajudar-me-iam a prendê-lo. O senhor paga 10.000 francos de passagem ao Capitão Zuela. Entre parênteses, a passagem ficaria mais barata se tratasse com os contrabandistas de Plainmont, mas estes só o levariam para Inglaterra, e demais o senhor não pode arriscar-se a ir a Guernesey, onde há quem tenha a honra de conhecê-lo. Volto à situação. Se eu disparar, prendem-no. Nesse caso pagará a Zuela 10.000 francos de fuga. Já lhe deu 5.000 francos; Zuela guardará esses 5.000 francos e vai-se embora. É isto, Rantaine, acho-o bem rebuçado. Esse chapéu, esse casaco e essas polainas disfarçam-no. Esqueceram-lhe os óculos. Fez bem em deixar crescer as suíças.

 

Rantaine sorriu como quem range os dentes. Clubin continuou:

 

— Rantaine, o senhor tem uma calça americana com duas algibeiras. Numa delas tem o seu relógio. Guarde-o.

 

— Obrigado, Sr. Clubin.

 

— Na outra há uma caixinha de ferro batido, que abre e fecha por molas. É uma velha boceta de marinheiro. Tire-a do bolso e atire-a para cá.

 

— Mas isto é um roubo!

 

— Pode chamar a guarda.

 

E Clubin fixou os olhos em Rantaine.

 

— Olhe, Mess Clubin... — disse Rantaine dando um passo e estendendo a mão aberta.

 

Mess era uma lisonja.

 

— Fique onde está, Rantaine.

 

— Mess Clubin, arranjemos as coisas. Ofereço-lhe metade.

 

Clubin executou um cruzar de braços, mostrando a boca do revólver.

 

— Rantaine, que pensa que eu sou? Sou um homem honrado. E acrescentou, depois de uma pausa:

 

— Quero tudo.

 

Rantaine disse entre dentes:

 

— É temível este.

 

Entretanto, acenderam-se os olhos de Clubin. A voz tornou-se cortante como o aço. Disse ele:

 

— Creio que se engana. O seu nome é que é Roubo, o meu é Restituição. Ouça, Rantaine. Há dez anos saiu o senhor de Guernesey à noite, tomando da caixa de uma sociedade 50.000 francos que lhe pertenciam e esquecendo de lá deixar 50.000 francos que pertenciam a outro. Esses 50.000 francos roubados ao seu sócio, o excelente e digno Mess Lethierry, fazem hoje, com os juros acumulados de dez anos, 80.666 francos e 66 cêntimos. O senhor entrou ontem na casa de um cambista. Reluchet chama-se ele, Rua de São Vicente. Deu-lhe 76.000 francos em bilhetes de banco franceses e em troca deu-lhe ele três bank-notes da Inglaterra de 1.000 libras esterlinas cada uma, e mais uns trocos. O senhor pôs essas bank-notes na boceta de ferro e a boceta de ferro na algibeira direita. As 3.000 libras esterlinas fazem 75.000 francos. Em nome de Mess Lethierry contento-me com isso. Parto amanhã para Guernesey, e vou levar-lhos. Rantaine, a galera que ali está à capa é o Tamaulipas. O senhor embarcou ali esta noite as malas misturadas com os sacos e canastras da equipagem. Quer sair da França. Tem suas razões para isso. Vai a Arequipa. A barcaça vem buscá-lo. Está à espera dela. Ela aí vem. Já a estamos ouvindo. Depende de mim deixá-lo partir ou obrigá-lo a ficar. Basta de palavras. Atire cá a boceta de ferro.

 

Rantaine abriu a bolsa, tirou uma caixinha de ferro e atirou-a a Clubin. A caixinha foi rolar aos pés de Clubin.

 

Clubin inclinou-se sem abaixar a cabeça, e apanhou a boceta, tendo dirigidos contra Rantaine os dois olhos e os seis canos do revólver.

 

Depois disse:

 

— Meu amigo, volte as costas.

 

Rantaine voltou as costas.

 

O Sr. Clubin pôs o revólver debaixo do braço e apertou a mola da caixinha. A caixinha abriu-se.

 

Havia dentro quatro bank-notes, três de 1.000 libras, e uma de 10 libras.

 

Clubin dobrou as três notas de 1.000 libras, pô-las outra vez na caixinha, fechou-a e meteu-a no bolso.

 

Depois apanhou no chão uma pedra. Embrulhou a pedra no bilhete de 10 libras e disse:

 

— Volte para cá.

 

Rantaine voltou-se.

 

O Sr. Clubin continuou:

 

— Disse-lhe que me contentava com as 3.000 libras. Aqui vão as 10 libras.

 

E atirou a Rantaine o bilhete e mais o lastro de pedra.

 

Rantaine, com um pontapé, deitou o bilhete e a pedra ao mar.

 

— Como queira — disse Clubin. — Vamos lá, o senhor há de estar rico. Estou tranqüilo.

 

O rumor dos remos que se tinha aproximado durante o diálogo cessou. Indicava isto que a barcaça estava ao pé das rochas.

 

— Está embaixo o seu carro. Pode ir, Rantaine.

 

Rantaine dirigia-se para a escada e desceu.

 

Clubin foi com precaução até a borda do rochedo e adiantando a cabeça, viu descer Rantaine.

 

A barcaça tinha parado ao pé do último degrau do rochedo, no mesmo lugar em que tinha caído o guarda-costa.

 

Vendo descer Rantaine, Clubin murmurou:

 

— Bom número 619! Pensava que estava só. Rantaine pensava que eram apenas dois. Só eu sabia que éramos três.

 

Clubin viu no chão o óculo do guarda-costa; apanhou-o.

 

Começou o ruído dos remos. Rantaine acabou de pular na barcaça e esta tomava o largo.

 

Quando Rantaine achou-se na barca, indo-se já afastando dos rochedos, levantou-se bruscamente, a face tornou-se-lhe monstruosa; mostrou o punho e gritou:

 

— Ah! o próprio diabo é um canalha!

 

Instantes depois, Clubin do alto das rochas e fixando o óculo na barcaça, ouviu distintamente estas palavras, articuladas por uma voz grossa, no meio do rumor do mar:

 

— O Sr. Clubin é um homem honrado, mas consinta que eu escreva a Lethierry para participar-lhe o fato, e aqui vai nesta barcaça um marinheiro de Guernesey que é da equipagem do Tamaulipas, que se chama Ahier-Tortevin, e que há de voltar a Saint-Malo, na próxima viagem de Zuela e que será testemunha de que eu lhe entreguei para Mess Lethierry a soma de 3.000 libras esterlinas.

 

Era a voz de Rantaine.

 

Clubin era o homem das coisas bem-feitas. Imóvel como estivera o guarda-costa, e no mesmo lugar, com o óculo no olho, não perdeu de vista a barcaça. Viu diminuírem-se os remos, desaparecer, reaparecer, aproximar-se a barcaça do navio; e pôde reconhecer a alta corpulência de Rantaine no tombadilho do Tamaulipas.

 

Quando a barcaça foi içada, o Tamaulipas entrou a preparar-se. A brisa soprava de terra, o navio abriu as velas todas, o óculo de Clubin continuava fixo no lineamento cada vez mais simplificado e, meia hora depois, o Tamaulipas era apenas um ponto negro que ia a diminuir-se, a diminuir-se, a diminuir-se no céu amarelo do crepúsculo.

 

 

 

CAPÍTULO IX

INFORMAÇÃO ÚTIL ÀS PESSOAS QUE ESPERAM OU RECEIAM CARTAS DE ALÉM-MAR

 

Nessa noite, o Sr. Clubin recolheu-se tarde.

 

Uma das causas da sua demora é que antes de recolher-se foi ele até a porta Dinan, onde havia tavernas. Tinha comprado em uma dessas tavernas, onde não era conhecido, uma garrafa de aguardente que pôs em uma larga algibeira da japona como se quisesse escondê-la; depois, devendo a Durande sair no dia seguinte de manhã, foi a bordo para ver se tudo estava em ordem.

 

Quando o Sr. Clubin entrou na Pousada João, já não havia na sala baixa senão o velho capitão de longo curso, Gertrais-Gaboureau, bebendo e fumando cachimbo.

 

O Capitão Gertrais-Gaboureau cumprimentou o Sr. Clubin entre um gole e uma baforada.

 

Goodbye, Capitão Clubin.

 

Boa noite, Capitão Gertrais.

 

Com que então, lá se foi o Tamaulipas.

 

Ah! — disse Clubin —, não reparei.

 

O Capitão Gertrais-Gaboureau cuspiu e disse:

 

Raspou-se o Zuela.

 

Quando?

 

Esta noite.

 

Aonde vai?

 

Vai ao diabo.

 

Sim, mas aonde?

 

A Arequipa.

 

Não sabia — disse Clubin.

 

Acrescentou:

 

Vou dormir.

 

Acendeu a vela, caminhou para a porta e voltou.

 

Já foi a Arequipa, Capitão Gertrais?

 

Sim. Há anos.

 

Onde se costuma a arribar?

 

Em diversos portos. Mas o Tamaulipas não arribará em parte alguma. O Sr. Gertrais-Gaboureau deitou na borda de um prato a cinza do cachimbo e continuou:

 

Conhece o Cheval-de-Troie e o Trentemousin, que foram a Cardiff. Não opinei a favor da partida por causa do tempo. Voltaram em belo estado. Cheval-de-Troie levava terebintina e abriu água, e fazendo trabalhar as bombas perdeu no meio da água todo o carregamento. Quanto ao Trentemousin, ficou bem estragado; quebrou-se-lhe o cepo da âncora, o botalós, ovéns; não sofreu o mastro de mezena, mas teve um forte abalo. Caiu o ferro do gurupés, que aliás não só ficou machucado, mas completamente nu. Veja o que resulta de não ouvir conselhos.

 

Clubin tinha posto a vela na mesa, e pôs-se a pregar de novo uma porção de alfinetes que tinha na japona.

 

Disse:

 

Não dizia, capitão, que o Tamaulipas não arriba em porto algum?

 

Não. Vai direito ao Chile.

 

Neste caso não pode mandar notícia alguma em caminho.

 

Perdão, Capitão Clubin. Primeiramente pode entregar despachos a todos os navios que encontrar em caminho para a Europa.

 

É justo.

 

Depois, tem a caixa de cartas do mar.

 

A que chama o senhor caixa de cartas do mar?

 

Não sabe, Capitão Clubin?

 

Não.

 

É quando se passa pelo estreito de Magalhães.

 

Que há então?

 

Neva em toda a parte, temporal sempre, ruins ventos, mar de trezentos diabos.

 

Depois?

 

Quando se dobra o cabo Monmouth.

 

Bem. Depois?

 

Depois, dobra-se o cabo Valentin.

 

E depois?

 

Depois dobra-se o cabo Isidoro.

 

E depois?

 

Dobra-se a ponta Ana.

 

Bem. Mas o que é que chama caixa das cartas do mar?

 

Chegamos à caixa. Montanhas à direita, montanhas à esquerda. De todos os lados aves marinhas. Terrível sítio! Ah! com um milhão de diabos! que chusma e que matinada! A borrasca ali não precisa de auxílio. Toca a vigiar a cinta da popa! toca a diminuir as velas! Da vela grande passava ao joanete! Lufada sobre lufada! Quatro, cinco, seis dias de capa. Quantas vezes de um velame novinho em folha não nos fica senão o fio. Que dança! furacões capazes de fazer saltar uma galera como fosse uma pulga. Já vi num brigue inglês, o True Blue, um grumete ocupado com o pau da giba ser levado por um milheiro de ventos, com pau e tudo. Anda-se no ar como borboletas! Vi o contramestre da Revenue ser arrancado do navio e morrer: A cinta do meu navio quebrou-se, e todas as peças de madeira do convés ficaram despedaçadas. A gente sai dali com as velas comidas, até fragatas de cinqüenta fazem água como se fossem cestos. E a endiabrada costa! É o que há de mais danado. Rochedos retalhados como por criancice. Aproxima-se a gente de Porto Fome. Aí é pior que pior. São as lâminas mais agudas que tenho visto. Paragens do inferno. De repente vêem-se estas duas palavras escritas com tinta vermelha: Post-Office.

 

Que quer dizer, Capitão Gertrais?

 

Quero dizer, Capitão Clubin, que logo depois de dobrar o cabo Ana vê-se em uma pedra de 100 pés de altura um grande pau. É um poste com uma barrica no alto. Essa barrica é a caixa das cartas. Os ingleses escreveram em cima: Post-Office. Por que se meteram eles nisto? Aquilo é o correio do oceano; não pertence a esse honrado gentleman, o rei da Inglaterra. A caixa das cartas é comum. Pertence a todas as bandeiras. PostOffice, há nada mais chinês! Parece uma xícara de chá que o diabo oferece em pleno oceano. Eis como se faz o serviço. Todos os navios que passam expedem ao poste um escaler com os seus despachos. O navio que vem do Atlântico envia cartas para a Europa, e o navio que vem do Pacífico manda cartas para a América. O oficial que comanda o escaler põe na barrica o maço de cartas e tira o maço que lá encontra. Toma-se conta dessas à espera que o próximo navio tome conta das cartas que se deixam. Como se navega em sentido contrário, o continente donde o senhor vem é aquele para onde eu vou. Levo as suas cartas, o senhor leva as minhas. A barrica está presa ao poste por uma corrente de ferro. E chove! E neva! Mar dos diabos! O Tamaulipas ficará aí. A barrica tem uma tampa mas sem fechadura nem cadeado. Bem vê que se pode escrever aos amigos. As cartas chegam ao seu destino.

 

É esquisito — murmurou Clubin, pensativo.

 

O Capitão Gertrais-Gaboureau voltou-se para a bebida.

 

Suponhamos que o brejeiro do Zuela me escreva, meta as suas garatujas na barrica de Magalhães, e dentro de quatro meses tenho as cartas do patife. Diga-me lá, Capitão Clubin, sai amanhã?

 

Clubin, absorto em uma espécie de sonambulismo, não ouviu. O Capitão Gertrais repetiu a pergunta.

 

Clubin despertou.

 

Sem dúvida, Capitão Gertrais. É o dia marcado. Devo sair amanhã de manhã.

 

Pois olhe, eu não saía. Capitão Clubin, os cães têm o pêlo molhado. As aves marinhas andam há duas noites à roda do farol. Mau sinal. Tenho um storm-glass que faz das suas. Estamos no segundo quarto da lua; é o máximo da umidade. Vi há pouco pimpinelas que fechavam as folhas e um campo de trevo cujas hastes estavam retesadas. Os vermes saem do chão, as moscas mordem, as abelhas não se afastam dos cortiços, os pardais consultam-se. Ouve-se o som dos sinos de longe. Eu ouvi hoje o sino de Saint-Lunaire dar ave-marias. E ao pôr-do-sol havia muitas nuvens no horizonte. Amanhã há de haver grande nevoeiro. Não lhe digo que parta. Receio mais o nevoeiro que o furacão. Grande sonso o nevoeiro.

 

 

 

LIVRO SEXTO

O TIMONEIRO ÉBRIO E O CAPITÃO SÓBRIO

 

CAPÍTULO PRIMEIRO

OS ROCHEDOS DOUVRES

 

Cerca de 5 léguas, em pleno mar, ao sul de Guernesey, em face da ponta de Plainmont, entre as ilhas da Mancha e Saint-Malo, há um grupo de cabeços chamados rochedos Douvres. Funesto lugar esse.

 

Esta denominação Douvre (Dover) pertence a muitos cachopos e rochedos. Há especialmente perto das costas do norte uma rocha Douvre na qual se constrói agora mesmo um farol, escolho perigoso, mas que não deve ser confundido com este.

 

O ponto da França mais próximo do rochedo Douvres é o cabo Brehant. O rochedo Douvres é um pouco mais longe da costa da França que a primeira ilha do arquipélago normando. A distância desse escolho a Jersey mede-se pouco mais ou menos pela grande diagonal de Jersey. Se a ilha de Jersey se voltasse sobre a Corbière como sobre um eixo, a ponta de Santa Catarina iria quase bater nos Douvres. E uma distância de quase 4 léguas.

 

Nesses mares da civilização os rochedos mais selvagens são raramente desertos. Encontram-se contrabandistas em Hagot, guardas da alfândega em Binic, cultivadores de ostras em Cancale, caçadores de coelhos em Césambre, ilha de César, apanhadores de caranguejos em Brecq-Hou, pescadores de rede em Minquiers e Ecré-Hou. Nos rochedos Douvres, ninguém.

 

As aves marinhas estão ali em sua casa.

 

Não há pior encontro. Os Casquets, onde dizem que se perdeu a Blanche Nef, o banco Calvados, as pontas da ilha de Wight, a Ronesse que faz a costa de Beaulieu tão perigosa, os baixios de Préel que tornam tão angustiosa a entrada de Merquel e que obrigam a deitar a umas 20 braças a baliza vermelha, as proximidades pérfidas de Étables e de Plouha, as duas druidas de granito do sul de Guernesey, o velho Anderlo e o pequeno Anderlo, a Corbière, os Hanois, a ilha de Ras, recomendada ao medo por este provérbio: “Quando passares o Ras, se não morreres, tremerás”; as Mortes Femmes, a passagem do Boue e de Frouquie, a Deroute entre Guernesey e Jersey, a Hardent entre os Minquiers e Chausey, o Mauvais-Cheval entre o Boulay-Bay e Berneville, são mal afamados. Vale mais afrontar todos os cachopos do que o Douvres uma só vez.

 

Em todo o perigoso mar da Mancha que é o mar Egeu do Ocidente, o rochedo Douvres só tem um rochedo igual no terror que inspira, é o escolho Pater Noster entre Guernesey e Serk.

 

E ainda no Pater Noster pode-se fazer um sinal; quem está ali em perigo pode ser socorrido. Vê-se ao norte a ponta Dicard ou de Ícaro, ao sul, Gros-Nez. Do rochedo Douvres não se vê nada.

 

O vento, a água, a nuvem, o ilimitado, o inabitado.

 

Só se passa ali perdido. Os granitos são de uma estatura brutal e hedionda. Avultam as rochas escarpadas. Severa inospitalidade do abismo.

 

E mar alto. A água é profunda. Um escolho absolutamente isolado, como o rochedo Douvres, atrai e abriga os animais que precisam afastar-se dos homens. É uma espécie de vasta madrépora submarina. É um labirinto afogado. Há ali, em profundezas que dificilmente alcançam os mergulhadores, antros, cavas, cavernas, cruzamentos de ruas tenebrosas. Pululam as espécies monstruosas. Devoram-se umas às outras. Os caranguejos comem os peixes, e são devorados também. Formas medonhas, feitas para não serem vistas por olhos humanos, andam vivas naquela obscuridade. Vagos lineamentos de goelas, antenas, tentáculos, barbatanas, bocas abertas, escamas, garras, unhas flutuam, tremem, engrossam, decompõem-se e desfazem-se na transparência sinistra. Tremendos nadadores andam ali na labutação. É uma colméia de hidras.

 

Ali o horrível é ideal.

 

Imagina, se podes, um formigueiro de holotúrias.

 

Ver o interior do mar é ver a imaginação do Ignoto. E vê-la do lado terrível. O golfão é análogo à noite. Também aí há sono, sono aparente ao menos, da consciência da criação. Cometem-se ali em plena segurança os crimes da irresponsabilidade. Os esboços da vida, fantasmas quase, completos demônios, vagam ali, em medonha paz, nas sombrias ocupações da sombra.

 

Há quarenta anos, duas rochas de forma extraordinária assinalavam de longe o escolho Douvres aos viandantes do oceano. Eram duas pontas verticais e recurvadas, tocando-se quase no cume. Parecia ver-se irrompendo do mar dois dentes de um elefante engolido. Mas eram dentes de tamanhos de torres que só poderiam pertencer a elefantes do tamanho de uma montanha. Essas duas torres naturais da obscura cidade dos monstros não deixavam entre si mais que uma passagem estreita onde a vaga se atirava. Essa passagem, tortuosa e de alguns côvados de comprimento, parecia um pedaço de rua entre duas paredes. A essas duas rochas gêmeas chamavam-se as duas Douvres. Havia a grande Douvre e a pequena Douvre; uma tinha 60 pés de altura, a outra 40. O vaivém das ondas fez na base dessas torres um aspecto de serra, e o violento furacão do equinócio de 26 de outubro de 1859 derrubou uma delas. A que ficou, a pequena, está mutilada e gasta.

 

Um dos mais estranhos rochedos do grupo Douvres chama-se o Homem. Esse ainda existe. No século passado alguns pescadores, perdidos naqueles cachopos, acharam um cadáver. Ao pé do cadáver havia uma porção de conchas vazias. Tinha naufragado ali um homem, refugiou-se naqueles rochedos, alimentou-se algum tempo de conchas, até que morreu. Veio daí chamar-se Homem ao rochedo.

 

São singulares as solidões da água. É o tumulto e o silêncio. O que aí se faz já nada tem com o gênero humano. E a utilidade desconhecida. Tal é o isolamento do rochedo Douvres. Em derredor, a perder de vista, o imenso tormento das vagas.

 

 

 

CAPÍTULO II

CONHAQUE INESPERADO

 

Na sexta-feira de manhã, um dia depois da partida do Tamaulipas, a Durande partiu para Guernesey.

 

Deixou Saint-Malo às 9 horas.

 

Claro estava o tempo, não havia nevoeiro; parece que o velho Capitão Gertrais-Gaboureau tinha delirado.

 

As preocupações do Sr. Clubin fizeram com que embarcasse pouco carregamento. Apenas meteu a bordo alguns fardos de Paris para as lojas de Saint-Pierre-Port, três caixas para o hospital de Guernesey, uma de sabão amarelo, outra de velas e a terceira de couro de sola e cordavão fino. Levava também, da precedente viagem, uma caixa de açúcar crushed e três caixas de chá conjou, que a alfândega francesa não quis receber. O Sr. Clubin embarcou pouco gado; alguns bois apenas. Os bois foram postos no porão e bem mal arranjados.

 

Havia a bordo seis passageiros: um guernesiano, dois maloenses vendedores de animais, um turista, como já se dizia nesse tempo, um parisiense meio burguês, provavelmente turista do comércio, e um americano distribuidor de Bíblias.

 

A Durande, sem contar com Clubin, tinha sete homens de tripulação; um timoneiro, um carvoeiro, um marinheiro carpinteiro, um cozinheiro, manobrista quando era preciso, dois trabalhadores da máquina e um grumete. Um dos penúltimos era também mecânico. Era um valente e inteligente negro holandês, evadido das fábricas de açúcar do Suriname; chamava-se Imbrancam. O negro Imbrancam compreendia e servia admiravelmente a máquina. Nos primeiros tempos, contribuiu ele não pouco, quando aparecia na fornalha, para dar um ar diabólico à Durande.

 

O timoneiro, jerseiano de nascimento, originário da costa, chamava-se Tangrouille. Tangrouille era de alta nobreza.

 

É verdade isto. As ilhas da Mancha são, como a Inglaterra, países hierárquicos. Ainda existem castas nessas ilhas. As castas têm as suas idéias, que são os seus dentes. Essas idéias são as mesmas em toda a parte, na Índia, como na Alemanha. A nobreza conquista-se pela espada e perde-se pelo trabalho. Conserva-se pela ociosidade. Não fazer coisa alguma é viver fidalgamente; quem não trabalha é reverenciado. Ofício faz decair. Na França de outrora só se excetuavam os operários de vidro. Sendo glória para os fidalgos esvaziar garrafas, fazê-las não era desonra alguma.

 

Nas ilhas da Mancha, assim como na Grã-Bretanha, quem quiser ser nobre deve conservar-se opulento. Um workman não pode ser gentleman. Ainda que o tenha sido, já não o é mais. Tal marujo descende de cavalheiros e é apenas marujo. Há trinta anos, em Aurigny, um Georges autêntico, que ao que parece tinha direitos à senhoria de Georges confiscada por Filipe Augusto, apanhava sargaço com os pés nus. Há em Serk um Carteret que é carreiro. Existe em Jersey um mercador de panos, e em Guernesey um sapateiro, que tem o nome de Gruchy, que se declaram Grouchy e primos do marechal de Waterloo. Os antigos registros do bispado de Coutances mencionam uma senhoria de Tangroville, parenta evidente de Tancarville no Baixo-Sena, que é Montmorency. No século XV Johan de Heroudeville, besteiro e afim do Sr. de Tangroville, levava sempre consigo justilhos e arneses. Em maio de 1371, em Pontorson, o Sr. Tangroville fez o seu dever como cavalheiro. Nas ilhas normandas quem cai em pobreza é logo eliminado da fidalguia. Basta uma mudança de nome. De Tangroville faz Tangrouille, e tudo se arranja.

 

Foi o que aconteceu ao timoneiro da Durande.

 

Há em Saint-Pierre-Port, no Bordage, um mercador de ferros chamado Ingrouille, que é provavelmente Ingroville. No reinado de Luís, o Gordo, os Ingroville possuíam três paróquias em Valognes. Fez um padre Trigan a História Eclesiástica da Normandia. Este cronista Trigan era cura de Digoville. O Sr. de Digoville, se caísse no populacho, chamar-se-ia Digouille.

 

Tangrouille, Tancarville provável e Montmorency possível, tinha esta antiga qualidade de fidalgo, defeito grave num timoneiro: embriagava-se.

 

O Sr. Clubin teimava em conservá-lo. Respondia por ele a Mess Lethierry.

 

O timoneiro Tangrouille não saía nunca do navio e dormia a bordo.

 

Na véspera da partida, quando o Sr. Clubin foi, já a horas mortas, visitar o navio, Tangrouille estava na sua maca e dormia. Acordou de noite. Era-lhe isso costume antigo. Quando o bêbado não é senhor de si tem um esconderijo. Tangrouille tinha o seu, a que chamava despensa. A despensa secreta de Tangrouille era no porão onde se guardava a água. Pô-la aí para torná-la inverossímil. Estava certo de que só ele conhecia aquele esconderijo. O Capitão Clubin era severo, porque era sóbrio. O pouco rum e gim, que o timoneiro podia subtrair à vigilância do capitão, punha de reserva naquele misterioso cantinho, no fundo de uma selha de sonda, e quase todas as noites tinha entrevista amorosa com aquela despensa. Era rigorosa a vigilância, pobre devia ser a orgia, e de ordinário os excessos noturnos de Tangrouille limitavam-se a dois ou três goles furtivamente bebidos. Muitas vezes a despensa estava vazia. Nessa noite Tangrouille achou lá uma garrafa de aguardente inesperada. Alegrou-se muito, e espantou-se ainda mais. De que céus lhe caiu aquela garrafa? Não pôde lembrar-se nem quando nem como levou-a para o navio. Bebeu-a imediatamente. Em parte fê-lo por prudência; tinha medo que a aguardente fosse descoberta e confiscada. Atirou a garrafa ao mar. No dia seguinte, quando tomou a cana do leme, Tangrouille tinha certa oscilação.

 

Todavia governou o barco quase como nos outros dias.

 

Quanto a Clubin, sabe-se que voltou a dormir na Pousada João.

 

Clubin trazia sempre debaixo da camisa um cinto de couro, de viagem, onde guardava uns 20 guinéus, e que só tirava à noite. No interior do cinto estava escrito o nome dele, escrito por ele mesmo no couro bruto com tinta litográfica, que é indelével.

 

Ao levantar, antes de partir, pôs no cinto a caixinha de ferro contendo 75.000 francos em notas de banco, depois atou o cinto como costumava, à roda do corpo.

 

 

 

CAPÍTULO III

PALESTRA INTERROMPIDA

 

Foi alegre a partida. Os passageiros, apenas arranjadas as malas por baixo e em cima dos bancos, passaram, ao navio, essa revista que nunca falta, e que parece obrigatória, tal é o costume. Dois passageiros, o turista e o parisiense, nunca tinham visto vapores, e, desde os primeiros movimentos da roda, contemplaram a espuma, depois o fumo. Examinaram peça por peça, e quase fio por fio, na coberta e entreponte, todos os aparelhos marítimos, argolas, ganchos, fateixas, cilindros, que, à força de precisão e justeza, são uma espécie de colossal ourivesaria; ourivesaria de ferro dourado com ferrugem pela tempestade. Circularam o pequeno canhão de rebate atado na coberta, “com uma corrente de cão de sentinela”, observou o turista, e “coberto com blusa de linho alcatroado para impedir as constipações”, acrescentou o parisiense. Afastando-se de terra, trocaram-se as observações do costume acerca da perspectiva de Saint-Malo; um passageiro emitiu o axioma de que as perspectivas do mar iludem, e que, a 1 légua da costa, nada se parece mais com Ostende como Dunquerque. Completou-se o que havia a dizer de Dunquerque, observando-se que os seus navios de vigia, pintados de vermelho, chamam-se um Ruytingue e o outro Mardyck.

 

Saint-Malo foi diminuindo até que desvaneceu-se de todo.

 

O aspecto do mar era o vasto calmo. O rasto do navio fazia no oceano uma rua franjada de espuma que se prolongava quase sem torção a perder de vista.

 

Guernesey está no centro de uma linha reta tirada de Saint-Malo na França, e Exeter na Inglaterra. A linha reta no mar nem sempre é a linha lógica. Entretanto, os vapores têm, até certo ponto, o poder de seguir a linha reta que não podem seguir os navios de vela.

 

O mar e o vento formam um composto de forças. O navio é um composto de máquinas. As forças são máquinas infinitas, as máquinas são forças limitadas. Entre os dois organismos, um inesgotável, outro inteligente, trava-se o combate que se chama navegação.

 

Uma vontade no mecanismo faz contrapeso ao infinito. Também o infinito encerra um mecanismo. Os elementos sabem o que fazem e para onde vão. Não há força cega. Cabe ao homem espreitar as forças e descobrir-lhes o itinerário.

 

Enquanto se não descobre a lei, prossegue a luta, e nessa luta a navegação a vapor é uma espécie de vitória perpétua que o gênio humano vai ganhando a todas as horas do dia em todos os pontos do mar. A navegação a vapor é admirável porque disciplina o navio. Diminui a obediência ao vento e aumenta a obediência ao homem.

 

Nunca a Durande trabalhou no mar como naquele dia. Andava maravilhosamente.

 

Pelas 11 horas, soprando uma fresca brisa de nor-nordeste, achou-se a Durande do lado de Minquiers, trabalhando com pouco vapor, navegando a oeste e conchegada ao vento. Claro e belo estava o céu. Todavia iam voltando para terra todos os pescadores.

 

A pouco e pouco, como se todos pensassem em ancorar nos portos, ia-se o mar limpando de navios.

 

Não se podia dizer que a Durande estivesse no caminho do costume. A tripulação não se preocupava com isso, era absoluta a confiança no capitão; entretanto, talvez por culpa do timoneiro, havia algum desvio. A Durande parecia antes ir para Jersey que para Guernesey. Pouco depois das 11 horas, o capitão retificou a direção e aproou para o lado de Guernesey. Perdeu-se algum tempo. Nos dias curtos o tempo perdido tem inconvenientes. Fazia um belo sol de fevereiro.

 

Tangrouille, no estado em que estava, já não tinha nem pés nem braços firmes. Resultava daí que o bravo timoneiro desviava-se da costa e atrasava a marcha.

 

O vento ia amainando.

 

O passageiro guernesiano, que tinha um óculo na mão, firmava-o de tempos a tempos para um floco de espuma coada pelo vento no extremo horizonte de oeste, assemelhando-se a um pouco de algodão, empoeirado em roda.

 

O Capitão Clubin tinha o aspecto puritano do costume. Parecia redobrar de atenção.

 

Tudo estava calmo e quase risonho a bordo da Durande; os passageiros conversavam.

 

Fechando os olhos, no meio de uma viagem, pode-se avaliar do estado do mar pelo trêmulo da conversa. A plena liberdade de espírito dos passageiros corresponde à perfeita tranqüilidade da água.

 

É impossível, por exemplo, que houvesse uma conversa, como esta que se segue, em mar que não fosse calmo.

 

Veja aquela bonita mosca verde e encarnada.

 

Perdeu-se no mar e descansa no navio.

 

As moscas não se cansam muito.

 

Pudera! São tão leves. Carrega-as o próprio vento.

 

Já se pesou 1 onça de moscas e, contadas depois, viu-se que eram 6 268.

 

O guernesiano do óculo tinha-se chegado aos maloenses mercadores de gado, e a conversa deles era pouco mais ou menos esta:

 

O boi de Aubrac tem o tronco redondo e bojudo, as pernas curtas, o pêlo amarelo. É demorado no trabalho por causa da pequenez das pernas.

 

Neste ponto, o Salers vale mais que o Aubrac.

 

Vi dois magníficos bois em minha vida. O primeiro tinha as pernas curtas, o joelho espesso, alcatra grossa, as nádegas largas, bom comprimento da nuca à garupa, boa altura no garrote, manejo fácil, pele boa de arrancar-se. O segundo apresentava todos os sinais de um engordamento judicioso, tronco reforçado, pescoço robusto, pernas leves, pele branca e vermelha, alcatra caída.

 

Isso é raça da costa.

 

Sim, mas com certa semelhança com o touro Angus ou o touro Suffolk.

 

Acredite se quiser, no meio-dia há concurso de bestas.

 

De bestas?

 

De bestas. Como tenho a honra de lhe dizer. E as feias é que são bonitas.

 

Então são como as jumentas. As feias é que são boas.

 

Justamente. A jumenta deve ter barriga grossa e pernas grossas.

 

A melhor jumenta deste mundo é uma barrica sobre quatro estacas.

 

A beleza dos animais não é como a beleza dos homens.

 

E sobretudo das mulheres.

 

Justo.

 

Eu cá, quero que a mulher seja bonita.

 

Prefiro-a bem trajada.

 

Sim, limpa, asseada, esticadinha.

 

Ares de mocidade. Uma rapariga deve parecer que sai do joalheiro.

 

Volto aos bois. Vi vender os tais bois no mercado de Thouars.

 

Conheço o mercado. Os Bonneau de la Rochelle, e os Bahu, os mercadores de trigo de Marans, não sei se ouviu falar deles, devem ter ido a esse mercado.

 

O turista e o parisiense conversavam com o americano das Bíblias; a conversação aí era como nos outros grupos.

 

Dizia o turista:

 

Eis a tonelagem flutuante do mundo civilizado: França, 716.000 toneladas; Alemanha, 1 milhão; Estados Unidos, 5 milhões; Inglaterra, 5 milhões e meio. Acrescente-se o contingente das pequenas bandeiras. Total: 12 904 000 toneladas distribuídas por 145 000 navios na água do globo.

 

O americano interrompeu:

 

Os Estados Unidos é que têm 5 milhões e meio.

 

Convenho — disse o turista. — O senhor é americano?

 

Sim, senhor.

 

Houve um silêncio; o americano missionário perguntou a si mesmo se era ocasião de oferecer uma Bíblia.

 

Será verdade — continuou o turista — que os senhores lá na América gostam tanto das alcunhas a ponto de as pôr em todos os homens célebres? Será verdade que chamaram ao famoso banqueiro do Missouri, Thomas Benton, “a velha barra de ouro”?

 

Do mesmo modo que chamamos ao Zacharias Taylor “o velho Zach”?

 

E o General Harrison, o “velho Tip”? E o General Jackson, o “ velho Hickory”?

 

Sim, porque Jackson é duro como pau hickory e Harrison bateu os peles-vermelhas em Tippecanoe.

 

É um costume bizantino esse.

 

É costume nosso. Chamamos Van Buren “o feiticeirinho”; Seward, que mandou fazer bilhetes miúdos do banco, “o bilhete miúdo”; e Douglas, o senador democrata do IIlinois, que tem 4 pés de altura e uma grande eloqüência, “o gigantinho”. Percorra do Texas ao Maine, não encontrará ninguém que diga esse nome: Cass; todos dizem: “o grande Michigantier”; nem este nome: Clay; dizem todos: “o rapaz do moinho acutilado”. Clay é filho de um moleiro.

 

Eu prefiro Clay ou Cass — observou o parisiense —, é mais curto.

 

Pois estaria fora do uso. Nós chamamos Corwin, que é secretário do Tesouro, “o rapaz da carreta”. Daniel Webster é “o negro Dan”. Quanto a Winfield Scott, como a sua primeira idéia, depois de bater os ingleses em Chippeway, foi assentar-se à mesa, chamamo-lo “Dá-cá-um-prato-de-sopa-depressa”.

 

Tinha se agigantado o floco de neve. Ocupava no horizonte um segmento de cerca de 15 graus. Dissera-se uma nuvem arrastada à flor da água por falta de vento. Não havia um sopro de brisa sequer. Embora fosse apenas meio-dia, o sol ia empalidecendo. Alumiava, mas já não aquecia.

 

Creio — disse o turista — que o tempo vai mudar.

 

Talvez haja chuva — disse o parisiense.

 

Ou nevoeiro — disse o americano.

 

Na Itália — continuou o turista — o lugar em que cai menos chuva é Molfetta, e onde cai mais é em Tolmezzo.

 

Ao meio-dia, segundo o uso do arquipélago, tocou a sineta para jantar. Jantou quem quis. Alguns passageiros levavam comida consigo e comeram no convés. Clubin não jantou.

 

Ao jantar, a palestra continuou.

 

O guernesiano, tendo o faro das Bíblias, aproximou-se do americano. O americano disse-lhe:

 

Conhece este mar?

 

Sem dúvida, sou filho dele.

 

E também eu — disse um dos maloenses.

 

O guernesiano aderiu com um cumprimento, e continuou:

 

Agora estamos ao largo mas não me agradava nada ter nevoeiro enquanto estávamos ao pé dos Minquiers.

 

O americano disse ao maloense:

 

Os insulares são mais homens do mar que a gente da costa.

 

É exato, nós, os filhos da costa, temos apenas metade do mar. Que coisa é essa dos Minquiers? — continuou o americano.

 

O maloense respondeu:

 

São umas pedras ruins.

 

Há também os Grelets — disse o guernesiano.

 

Ora! — disse o maloense.

 

E os Chouas — acrescentou o guernesiano.

 

O maloense deu uma gargalhada.

 

Dessa forma — disse ele —, temos também os Sauvages.

 

E os Maine — observou o guernesiano.

 

E o Canard — disse o maloense.

 

O senhor tem resposta para tudo — disse o guernesiano com rapidez.

 

Maloense, malicioso.

 

Dando esta resposta, o maloense piscou o olho.

 

O turista interpôs uma pergunta:

 

Dar-se-á o caso que vamos atravessar toda essa pedraria de que os senhores falam?

 

Qual! Deixamo-la a sudoeste. Já ficou atrás de nós.

 

E o guernesiano continuou:

 

Entre grandes e pequenos os Grelets têm 57 pontas de rocha.

 

E os Minquiers 48 — disse o maloense.

 

Aqui o diálogo concentrou-se entre o maloense e o guernesiano.

 

Parece-me, senhor de Saint-Malo, que há três rochedos que o senhor deixou de contar.

 

Contei tudo.

 

A Derée da Maitre-Ile?

 

Sim.

 

E Maisons também?

 

Que são sete rochas no meio dos Minquiers. Sim.

 

Já vejo que conhece os cachopos.

 

Quem não os conhece não é de Saint-Malo.

 

Causa gosto ouvir o raciocínio dos franceses.

 

O maloense cumprimentou, e disse:

 

Sauvages são três rochedos.

 

E Maines são dois.

 

Canard é um.

 

Basta dizer Canard; já se sabe que é um.

 

Não, porque a Suarde são quatro rochedos.

 

Que é a Suarde? — perguntou o guernesiano.

 

Chamamos Suarde ao que o senhor chama Chouas.

 

Não é bom passar entre Chouas e Canard.

 

Só os pássaros podem passar aí.

 

E os peixes.

 

Nem sempre. Quando há mau tempo, os peixes esbarram-se nas rochas.

 

Há areia em Minquiers.

 

A roda de Maisons.

 

Vêem-se oito rochedos de Jersey.

 

Da praia de Azette, é justo. Não são oito, são sete.

 

Nas vazantes pode-se passear entre os Minquiers.

 

Sem dúvida, há espaço.

 

E Dirouilles?

 

Dirouilles não tem nada com Minquiers.

 

Quero dizer que é perigoso.

 

É do lado de Granville.

 

Vê-se que, como nós, os senhores de Saint-Malo gostam de navegar nestes mares.

 

Sim — disse o maloense —, com a diferença de que nós dizemos: estamos acostumados, e os senhores dizem: gostamos.

 

São bons marinheiros os senhores.

 

Eu sou mercador de gado.

 

Quem é que foi também de Saint-Malo?

 

Surcouf.

 

Não, outro.

 

Duguay-Trouin.

 

Aqui o viajante parisiense interrompeu.

 

Duguay-Trouin? Foi apanhado pelos ingleses. Era tão amável quão valente. Agradou a uma jovem inglesa. Foi ela quem lhe quebrou os ferros.

 

Neste momento uma voz tremenda gritou:

 

Estás bêbado!

 

 

 

CAPÍTULO IV

MOSTRAM-SE TODAS AS QUALIDADES DO CAPITÃO CLUBIN

 

Voltaram-se todos.

 

Era o Capitão Clubin que interpelava o timoneiro.

 

O Sr. Clubin não tratava ninguém por tu. Para que ele atirasse a Tangrouille semelhante apóstrofe era preciso que estivesse colérico ou quisesse mostrar-se assim.

 

Uma expressão de cólera, vindo a propósito, demite a responsabilidade, e algumas vezes deita-a para as costas de outrem.

 

O capitão, de pé no lugar de comando, entre as caixas das rodas, olhava fixamente para o timoneiro. Repetiu entre dentes: “Beberrão!” O honesto Tangrouille abaixou a cabeça.

 

Desenvolvia-se o nevoeiro. Já ocupava metade do horizonte. Avançava em todos os sentidos ao mesmo tempo; o nevoeiro parece-se com a gota de óleo. A bruma alargava-se insensivelmente. O vento soprava-a sem pressa e sem rumor. A pouco e pouco ia ele apoderando-se do oceano. Vinha de nordeste e o navio estava com ela pela proa. Era um vasto penedio movediço e vago. Cortava-se no mar como se fosse uma muralha. Havia um ponto preciso em que a água imensa entrava por baixo do nevoeiro e desaparecia.

 

Este ponto de entrada no nevoeiro estava ainda a meia légua de distância. Se o vento mudasse, podia-se evitar a imersão na bruma; mas era preciso que mudasse logo. A meia légua de intervalo enchia-se e diminuía a olhos vistos; a Durande caminhava, o nevoeiro também. O nevoeiro ia para o navio, o navio para o nevoeiro.

 

Clubin mandou aumentar o vapor e obliquar a leste.

 

Deste modo costeou-se algum tempo o nevoeiro, mas ele avançava sempre. Todavia o navio continuava a andar em pleno sol.

 

Perdia-se o tempo naquelas manobras que dificilmente podiam dar bom resultado. Anoitece cedo em fevereiro.

 

O guernesiano contemplava a bruma. Disse aos maloenses:

 

É atrevido este nevoeiro.

 

Desasseio do mar — observou um dos maloenses.

 

O outro acrescentou:

 

Isto atrasa a viagem.

 

O guernesiano aproximou-se de Clubin.

 

Capitão Clubin, receio que sejamos envolvidos pelo nevoeiro. Clubin respondeu:

 

Eu queria ficar em Saint-Malo, mas aconselharam-me que partisse.

 

Quem?

 

Veteranos do mar.

 

Fez bem em partir — continuou o guernesiano. — Quem sabe se não haverá tempestade amanhã. Nesta estação espera-se o pior.

 

Alguns minutos depois a Durande entrava no nevoeiro.

 

Foi singular esse momento. Toda a gente que estava na popa ficou de repente sem ver a gente que ia na proa. Tênue tabique cinzento cortou o navio ao meio.

 

Depois, todo o navio mergulhou na bruma. O sol parecia uma lua. Súbito todos começaram a tiritar. Os passageiros vestiram as capas, e os marinheiros as japonas. O mar, quase sem uma dobra, tinha a fria ameaça da tranqüilidade. Parece que há conluio neste excesso de calma. Tudo estava pálido e enfiado. O negro cano e a fumaça negra lutavam contra a lividez que cercava o navio.

 

A derivação a leste já não tinha razão de ser. O capitão aproou de novo sobre Guernesey e aumentou o vapor.

 

O passageiro guernesiano, andando à roda da máquina, ouviu o negro Imbrancam que falava a um dos companheiros. O passageiro prestou ouvidos. Dizia o negro:

 

Quando havia sol, íamos devagar; agora que há nevoeiro vamos depressa.

 

O guernesiano foi ter com o Sr. Clubin.

 

Capitão Clubin, não há cuidado; mas não acha que vamos depressa demais?

 

Que quer, senhor? É preciso ganhar o tempo perdido por culpa daquele bêbado.

 

É verdade, Capitão Clubin.

 

E Clubin acrescentou:

 

Quero chegar quanto antes. Já basta o nevoeiro; com a noite ficaríamos asseados.

 

O guernesiano foi ter com os maloenses e disse-lhes:

 

Temos um excelente capitão.

 

De quando em quando ondas grandes de bruma, que pareciam cardadas, passavam e escondiam o sol. Depois o sol reapareceu mais pálido e como que enfermo. O pouco céu que se via assemelhava-se às faixas de ar sujas e manchadas de uma velha decoração de teatro.

 

A Durande passou junto de um cúter que tinha ancorado por prudência. Era o Shealtiel, de Guernesey. O patrão do cúter notou a rapidez com que ia a Durande. Pareceu-lhe que não estava no caminho exato; afigurou-se-lhe que obliquava a oeste. Vendo aquele navio, andando a todo vapor no meio do nevoeiro, o homem pasmou.

 

Pelas 2 horas a bruma era tão espessa, que o capitão foi obrigado a deixar o lugar do costume, e a aproximar-se do timoneiro. O sol desmaiara, tudo era nevoeiro. Havia na Durande uma espécie de escuridão branca. Navegava-se na palidez difusa. Já se não via nem o céu nem o mar.

 

Não ventava.

 

A ancoreta da terebintina suspensa em uma argola ao pé da caixa das rodas já não tinha oscilação.

 

Os passageiros tornaram-se silenciosos.

 

Contudo o parisiense cantarolava entre dentes a canção de Béranger Un Jour le Bon Dieu s'Éveillant*.

 

Um dos maloenses dirigiu-lhe a palavra:

 

O senhor vem de Paris?

 

Sim, senhor. Il mit la tête à la fenêtre**.

 

Que se faz por lá?

 

Leur planète a péri peut-être. Lá em Paris tudo anda mal.

 

Então é tanto lá em terra como aqui no mar.

 

Realmente, este nevoeiro é o diabo.

 

E pode causar desgraças.

 

O parisiense exclamou:

 

Mas por que desgraças? A propósito de quê? De que servem desgraças? É o caso do incêndio do Odeon! Ficou uma porção de famílias reduzidas à miséria! É justo isto? Olhe cá, eu não sei qual é a sua religião, mas digo-lhe que não estou contente.

 

Nem eu — disse o maloense.

 

Tudo o que se passa neste mundo — continuou o parisiense — parece um desconcerto. Creio que Deus não entra nisto.

 

O maloense coçou o alto da cabeça, como quem procura compreender. O parisiense continuou:

 

Deus está ausente. Devia-se lavrar um decreto para obrigá-lo a residir aqui. Anda lá na sua casa de campo e não se importa conosco. E tudo vai torto e mal encaminhado. É evidente, meu bom senhor, que Deus já não está no governo, está em férias, e é o vigário, algum anjo seminarista, algum beócio com asas de pardal, quem dirige os negócios.

 

O Capitão Clubin, que se aproximara, pôs a mão no ombro do parisiense.

 

Silêncio — disse ele. — Cuidado nas palavras. Estamos no mar.

 

Ninguém mais falou.

 

No fim de cinco minutos o guernesiano, que tudo ouvira, murmurou aos ouvintes:

 

É um capitão religioso.

 

Não chovia e todos estavam molhados. Só se reparava no caminho que o navio descrevia por uma espécie de mal-estar. Parecia que se entrava na tristeza. O nevoeiro emudece o oceano, adormenta a vaga e sopita o vento. Naquele silêncio, o rumor da Durande tinha um não sei quê de inquieto e lamentoso.

 

Já se não encontravam navios. Só ao longe, quer do lado de Guernesey, quer do lado de Saint-Malo, alguns navios estavam no mar, fora do nevoeiro; para esses a Durande, submergida na bruma, não era visível, e a sua longa fumaça, presa a coisa nenhuma, parecia-lhes um cometa negro no céu branco.

 

De repente Clubin exclamou:

 

Com seiscentos! Estás dirigindo mal. Olha que me avarias o barco. Mereces bem que te ponha a ferros. Vai-te, bêbado!

 

E tomou a cana do leme.

 

O timoneiro humilhado refugiou-se na cordoalha da proa.

 

Disse o guernesiano:

 

Estamos salvos.

 

A marcha continuou rápida.

 

Pelas 3 horas, a orla inferior do nevoeiro começou a levantar-se e viu-se o mar.

 

Mau! — disse o guernesiano.

 

Só o sol ou o vento deve levantar a bruma. Quando é o sol, é bom sinal; quando é o vento, não é tão bom sinal. Era tarde já para ser o sol. Às 3 horas, em fevereiro, o sol está fraco. Não era coisa desejável a volta do vento naquela situação crítica. Muitas vezes anuncia o furacão.

 

Verdade seja que se havia brisa, mal se sentia.

 

Clubin, com o olhar na bitácula, governando o leme, mastigava algumas palavras que chegavam aos passageiros; era isto mais ou menos:

 

Não há tempo a perder. Aquele bêbado demorou a viagem.

 

O seu rosto, porém, não tinha expressão alguma.

 

O mar estava menos adormecido. Já se enxergavam algumas vagas. Luzes geladas flutuavam na água. Essas placas de clarão nas ondas preocupam os marinheiros. Indicam que o vento faz buracos por cima do nevoeiro. A bruma levantava-se e tornava a cair mais densa. As vezes a opacidade era completa. O navio estava numa verdadeira montanha de nevoeiro. De quando em quando aquele círculo tremendo abria-se como uma tenaz, deixava ver o horizonte, e fechava-se depois.

 

O guernesiano, armado de um óculo, estava como uma vedeta, na frente do navio.

 

Clareou, depois escureceu outra vez.

 

O guernesiano voltou-se assustado:

 

Capitão Clubin!

 

Que é?

 

Vamos direto aos cachopos de Hanois.

 

É engano — disse Clubin friamente.

 

O guernesiano insistiu:

 

Estou certo.

 

Impossível.

 

Vi uma pedra no horizonte.

 

Onde?

 

Ali!

 

É ao largo. Impossível.

 

E Clubin continuou a pôr o navio no ponto indicado pelo passageiro.

 

O guernesiano travou do óculo.

 

Minutos depois correu para o capitão.

 

Capitão!

 

Que é?

 

Vire de bordo.

 

Por quê?

 

Vi uma rocha muito alta e muito perto. É o grande Hanois.

 

Há de ser algum nevoeiro mais escuro.

 

E o grande Hanois. Vire de bordo, em nome do céu!

 

Clubin deu uma volta à cana do leme.

 

 

 

CAPÍTULO V

CLUBIN LEVA A ADMIRAÇÃO AO CÚMULO

 

Ouviu-se um estalo. O rasgamento do flanco de um navio, em um cachopo, em mar alto, é um dos sons mais lúgubres que se pode imaginar. A Durande parou.

 

Com o choque muitos passageiros caíram e rolaram no tombadilho.

 

O guernesiano levantou as mãos para o céu.

 

Nos Hanois! Eu bem dizia!

 

Longo grito soou no navio.

 

Estamos perdidos!

 

A voz de Clubin, seca e breve, dominou o grito.

 

Ninguém está perdido! E silêncio!

 

O corpo negro de Imbrancam, nu até a cintura, saiu do espaço da máquina.

 

O negro disse com calma:

 

Capitão, a água está entrando. A máquina vai apagar-se.

 

Terrível foi o momento.

 

O choque assemelhava-se a um suicídio. Se fosse de propósito, não seria mais terrível. A Durande atirou-se como se atacasse o rochedo. Uma ponta da rocha penetrou no navio como um prego. Mais de 1 toesa quadrada de vergas rebentou, rompeu-se a roda de proa, fracassou a quilha, partiu-se o gurupés, o casco aberto bebia água aos borbotões. Era uma chaga por onde entrava o naufrágio. A reação foi tão violenta que quebrou na popa a caixa do leme, que ficou solto e oscilante. O cachopo arrancara o fundo e à roda do navio não se via nada, além do nevoeiro espesso e compacto e agora quase negro. Chegava a noite.

 

A Durande mergulhava pela proa. Era o cavalo que tem nas entranhas a ponta do touro. Estava morta.

 

Sentia-se no mar a hora da maré.

 

Tangrouille estava desperto da embriaguez; ninguém fica bêbado em um naufrágio; desceu abaixo, subiu e disse:

 

Capitão, a água enche o porão. Dentro de dez minutos está nos embornais.

 

Os passageiros corriam no tombadilho fora de si, torcendo os braços, inclinando-se na amurada, olhando para a máquina, fazendo todos os movimentos inúteis do terror. O turista desmaiou.

 

Clubin fez um sinal com a mão, calaram-se todos. Interrogou Imbrancam:

 

Quanto tempo pode a máquina trabalhar ainda?

 

Cinco ou seis minutos.

 

Depois interrogou o passageiro guernesiano:

 

Eu estava ao leme. O senhor observou o rochedo. Em qual dos Hanois estamos nós?

 

Na Mauve. Reconheci ainda agora, com um pouco de claridade.

 

Sendo a Mauve — continuou Clubin — temos o grande Hanois a bombordo e o pequeno Hanois a estibordo. Estamos a 1 milha de terra.

 

A equipagem e os passageiros escutavam, trêmulos de ansiedade e de atenção, com os olhos fixos no capitão.

 

Alijar o navio era inútil e, demais, impossível. Para pôr a carga ao mar, era preciso abrir as portinholas e aumentar as probabilidades de entrar água. Atirar a âncora era inútil; estavam pregados. Demais podia ficar presa. Não estava avariada a máquina, e continuando à disposição do navio enquanto o fogo não estava apagado, isto é, por alguns minutos, podia-se, à força de rodas e de vapor, recuar e arrancar o navio do escolho. Nesse caso iria ao fundo imediatamente. O rochedo, até certo ponto, tapava o rombo e tolhia a passagem da água. Servia de obstáculo. Desobstruída a abertura, seria impossível impedir a entrada da água. Quem retira o punhal de uma ferida no coração, mata logo o ferido. Sair do cachopo era ir ao fundo.

 

Os bois, atacados pela água, começavam a mugir.

 

Clubin ordenou:

 

A chalupa ao mar.

 

Imbrancam e Tangrouille precipitaram-se e desataram as amarras. O resto da tripulação olhava petrificado.

 

Todos à obra — gritou Clubin.

 

Desta vez obedeceram todos.

 

Clubin, impassível, continuou a dar ordens, naquela velha língua do mar, que os marinheiros de hoje não compreenderiam.

 

A chalupa estava no mar.

 

No mesmo instante, as rodas da Durande pararam, cessou o fumo, a fornalha estava cheia de água.

 

Os passageiros, resvalando ao longo da escada ou pendurando-se nas enxárcias, deixavam-se antes cair que descer na chalupa. Imbrancam apanhou o turista desmaiado, levou-o para a chalupa, depois subiu ao navio.

 

Os marinheiros atiravam-se após os passageiros. O grumete rolou; eles pisavam o rapaz. Imbrancam barrou a passagem:

 

Ninguém antes do moço — disse ele.

 

Afastou com os braços negros os marinheiros, apanhou o grumete, e estendeu-o ao passageiro guernesiano, que, de pé na chalupa, recebeu o rapaz.

 

O grumete salvo, Imbrancam deu caminho e disse:

 

Passem.

 

Entretanto, o Sr. Clubin foi ao seu camarote e fez um embrulho dos papéis de bordo e dos instrumentos. Tirou a bússola da bitácula. Entregou os papéis e os instrumentos a Imbrancam e a bússola a Tangrouille, e disse-lhes:

 

Desçam à chalupa.

 

Eles desceram. A tripulação tinha-os precedido. A chalupa estava cheia. Estava quase rasa.

 

Agora — disse Clubin — vão embora.

 

E o senhor, capitão?

 

Fico.

 

As pessoas que naufragam têm pouco tempo de deliberar e ainda menos de enternecer-se. Entretanto, os que estavam na chalupa, e relativamente em segurança, tiveram uma comoção que não era por eles. Todas as vozes insistiram ao mesmo tempo:

 

Venha conosco, capitão.

 

Fico.

 

O guernesiano, que conhecia o mar, replicou:

 

Ouça, capitão. O senhor naufragou nos Hanois. A nado há apenas 1 milha até Plainmont. Mas na chalupa só se pode abordar na Rocquaine, e são 2 milhas. Há cachopos e nevoeiro. Esta chalupa não chega à Rocquaine antes de 2 horas. Não tarda a anoitecer. Enchendo a maré, refresca o vento. Está próxima a borrasca. E nosso desejo vir buscá-lo depois, mas se romper o temporal, não será possível. Se fica está perdido. Venha.

 

O parisiense interveio:

 

A chalupa está cheia, e cheia demais, é verdade, e um homem de mais seria ainda pior. Mas nós somos treze, é mau número para a barca, e é melhor sobrecarregá-la de um homem que de algarismo.

 

Tangrouille acrescentou:

 

A culpa é minha, não é sua. Não é justo que o senhor fique.

 

Fico — disse Clubin. — O navio será despedaçado pela tempestade hoje de noite. Não o deixarei. Quando o navio se perde, morre o capitão. Dir-se-á de mim que eu cumpri o meu dever. Perdôo-te, Tangrouille.

 

E cruzando os braços, gritou:

 

Atenção às ordens. Larguem a banda da amarra. Partam!

 

Abalou-se a chalupa. Imbrancam tomou o leme. Todas as mãos que não remavam voltaram-se para o capitão. Todas as bocas gritaram: “Hurrah para o Capitão Clubin!”

 

Eis um homem admirável — disse o americano.

 

É o mais honrado homem do mar — respondeu o guernesiano.

 

Tangrouille chorava.

 

Eu devia ter ficado com ele.

 

A chalupa internou-se por entre o nevoeiro, e desapareceu.

 

Não se viu mais nada.

 

O rumor dos remos diminuiu e perdeu-se.

 

Clubin estava só.

 

 

 

CAPÍTULO VI

ALUMIA-SE O INTERIOR DE UM ABISMO

 

Quando aquele homem achou-se naquele rochedo debaixo daquela nuvem, no meio daquela água, longe do contato humano, deixado por morto, sozinho entre o mar que subia e a noite que descia, teve profundo júbilo.

 

Alcançara o que queria.

 

Realizara-se-lhe o sonho. Estava paga a letra de longo prazo que ele sacou sobre o destino.

 

Para ele, ficar abandonado, era ficar livre. Estava no Hanois, a 1 milha de terra; tinha 75.000 francos. Nunca se realizou mais acertado naufrágio. Nada falhou; é verdade que tudo estava previsto. Desde a juventude, Clubin teve uma idéia; fazer da honestidade uma parada no jogo da roleta da vida, passar por homem probo, e partir daí, esperando que a sorte corresse; não apalpar, segurar; fazer um lance, mas só um, agarrar tudo, e deixar atrás os papalvos. Assentava que devia alcançar de uma vez aquilo que os larápios tolos deixam de agarrar vinte vezes, e, enquanto estes vão ter à forca, ele iria à fortuna. O encontro de Rantaine foi o raio de luz. Construiu imediatamente o plano: obrigar Rantaine à restituição; quanto às suas revelações possíveis, anulá-las desaparecendo; passar por morto, que é a melhor desaparição do mundo; para isso fazer naufragar a Durande. O naufrágio era necessário. Além de tudo, ir-se embora deixando boa fama, era fazer da sua existência uma obra-prima. Quem pudesse ver Clubin naquele naufrágio acreditaria ver um demônio feliz.

 

Viveu toda a sua vida naquele minuto.

 

Toda a sua pessoa exprimia esta palavra: enfim! Tremenda serenidade empalideceu aquela fronte obscura. Os olhos embaciados, no fundo dos quais parecia haver um tabique, tornaram-se profundos e terríveis. O abrasamento interno daquela alma reverberou-se neles.

 

O foro íntimo, como a natureza externa, tem a sua tensão elástica. Uma idéia é um meteoro; no momento do triunfo, entreabrem-se as meditações acumuladas que o preparam, e jorra uma faísca; ter em si uma garra do mal, e sentir nela uma presa, ventura é esta que tem a sua irradiação; mau pensamento que triunfa e ilumina o rosto daquele que o concebeu; certas combinações triunfantes, certos desejos realizados, certas felicidades ferozes fazem aparecer e desaparecer nos olhos dos homens lúgubres e luminosas dilatações. É a tempestade jubilosa, é a aurora ameaçadora. Tudo isso sai da consciência, que se faz sombria e enevoada.

 

Foi esse fulgor que iluminou aqueles olhos.

 

Relâmpago que não se parecia com coisa alguma do que se pode ver no céu e na terra.

 

O velhaco comprimido que havia em Clubin fez explosão.

 

Clubin fitou a imensa obscuridade, e não pôde reter uma gargalhada baixa e sinistra.

 

Estava livre! Estava rico!

 

Achara a incógnita. Resolvera o problema.

 

Clubin tinha tempo de cuidar de si. A maré enchia e por conseguinte sustentava a Durande e afinal devia pô-la a nado. Mas o navio aderia solidamente ao rochedo; não havia perigo de soçobrar. Além disso, era preciso deixar à chalupa o tempo de afastar-se, perder-se talvez; Clubin contava com isso.

 

De pé sobre a Durande naufragada, cruzou os braços, saboreando aquele abandono nas trevas.

 

A hipocrisia pesou àquele homem durante trinta anos. Era o mal, e consorciou-se com a probidade. Odiava a virtude com um ódio de mal casado. Teve sempre uma premeditação malvada; desde que se fizera homem, trazia aquela armadura rígida, a aparência. Era monstro internamente; vivia em uma pele de homem de bem, com um coração de bandido. Era o pirata ameno. Era prisioneiro da honestidade, estava fechado naquele caixão de múmia, a inocência; tinha nas costas asas de anjo, esmagadoras para um velhaco. Pesava-lhe demais a estima pública. Passar por homem honrado é duro! Manter constante equilíbrio, pensar mal e falar bem, que labutação! Clubin era o fantasma da retidão, sendo o espectro do crime. Este contra-senso foi o destino dele. Era-lhe preciso mostrar ares apresentáveis, escumar por baixo do nível, sorrir em vez de ranger. A virtude, para ele, era coisa que esmagava. Passou a vida a ter vontade de morder aquela mão que lhe tapava a boca.

 

E querendo mordê-la foi obrigado a beijá-la.

 

Ter mentido é ter sofrido. O hipócrita é um paciente na dupla acepção da palavra; calcula um triunfo e sofre um suplício. A premeditação indefinida de uma ação ruim, acompanhada por doses de austeridade, a infâmia interior temperada de excelente reputação, enganar continuadamente, não ser jamais quem é, fazer ilusão, é uma fadiga. Compor a candura com todos os elementos negros que trabalham no cérebro, querer devorar os que o veneram, acariciar, reter-se, reprimir-se, estar sempre alerta, espiar constantemente, compor o rosto do crime latente, fazer da disformidade uma beleza, fabricar uma perfeição com a perversidade, fazer cócegas com o punhal, pôr açúcar no veneno, velar na franqueza do gesto e na música da voz, não ter o próprio olhar, nada mais difícil, nada mais doloroso. O odioso da hipocrisia começa obscuramente no hipócrita. Causa náuseas beber perpetuamente a impostura. A meiguice com que a astúcia disfarça a malvadez repugna ao malvado, continuamente obrigado a trazer essa mistura na boca, e há momentos de enjôo em que o hipócrita vomita quase o seu pensamento. Engolir essa saliva é coisa horrível. Ajuntai a isto o profundo orgulho. Existem horas estranhas em que o hipócrita se estima. Há um eu desmedido no impostor. O verme resvala como o dragão e como ele retesa-se e levanta-se. O traidor não é mais que um déspota tolhido que não pode fazer a sua vontade senão resignando-se ao segundo papel. É a mesquinhez capaz da enormidade. O hipócrita é um titã-anão.

 

Clubin imaginava de boa-fé que tinha sido oprimido. Por que razão não nascera rico? O que ele queria era que os pais lhe houvessem deixado 100 000 libras de renda. Por que não as tinha? Não era culpa dele. Por que motivo, não lhe dando todos os gozos da vida, forçaram-no a trabalhar, isto é, a enganar, a trair, a destruir? Por que motivo condenaram-no assim a essa tortura de adular, de rastejar, de comprazer, de fazer-se amar e respeitar, e trazer dia e noite no rosto um rosto que não era dele? Dissimular é uma violência imposta. Odeia-se diante de quem se mente. Soara enfim a hora. Clubin vingava-se.

 

De quem? De todos e de tudo.

 

Lethierry não lhe fez senão bem: queixava-se demais; vingava-se de Lethierry.

 

Vingava-se de todos aqueles ante quem foi obrigado a constranger-se. Desforrava-se. Quem quer que pensasse bem dele, era seu inimigo, porque ele foi cativo desse homem.

 

Clubin achava-se livre. Realizava-se a fuga. Estava fora dos homens. O que se tinha por morte, era vida; ele ia começar agora. O verdadeiro Clubin despojava-se do falso Clubin. De um lance dissolveu tudo. Empurrou, com o pé, Rantaine ao espaço, Lethierry à ruína, a justiça humana às trevas, a opinião ao erro, a humanidade inteira para longe de si. Tinha eliminado o mundo.

 

Quanto a Deus, Clubin curava pouco dessa palavra de quatro letras. Passou como religioso. Que importa?

 

Há cavernas no hipócrita ou, antes, o hipócrita é uma caverna.

 

Quando Clubin ficou só, abriu-se-lhe o antro. Teve um instante de delícias; arejou a alma.

 

Respirou largamente o seu crime.

 

O fundo do mal tornou-se visível naquele rosto. Clubin abriu-se. Nesse momento o olhar de Rantaine ao pé daqueles olhos pareceria um olhar de recém-nato.

 

Arrancar a máscara, que livramento! A consciência de Clubin alegrou-se por ver-se hediondamente nua, e por tomar livremente um banho ignóbil no mal. O constrangimento de um longo respeito humano acaba por inspirar um gosto violento à impudência. Chega-se a uma certa lascívia na perversidade. Existe nessas tremendas profundezas morais tão pouco sondadas uma não sei que ostentação atroz e agradável, que é a obscenidade do crime. A insipidez da falsa reputação dá apetite de vergonha. Desdenham-se os homens a ponto tal que se deseja o desprezo deles. Ser estimado aborrece. Admira-se a franqueza da degradação. Olha-se cobiçosamente a torpeza que se mostra tão a seu gosto na ignomínia. Os olhos obrigados a baixar-se têm muitas vezes destes olhares oblíquos. Nada se aproxima tanto de Messalina como Maria Alacoque. Vede Cadière e a religiosa de Louviers.

 

Clubin vivera debaixo do véu. O descaramento foi sempre a sua ambição. Invejava a mulher pública e a fronte de bronze do opróbrio aceito; sentia-se mais mulher pública do que ela e tinha desgosto em passar por virgem. Foi o Tântalo do cinismo. Enfim, naquela solidão, podia ser franco; era-o. Que volúpia não é sentir-se sinceramente abominável! Todos os êxtases possíveis no inferno teve-os Clubin naquele momento; foram-lhe pagos todos os atrasados da dissimulação; a hipocrisia é um adiantamento; Satanás embolsou-o, Clubin embriagou-se de desfaçamento, pois que os homens tinham desaparecido e apenas ficara o céu. Disse consigo: “Sou um pícaro!” E ficou satisfeito.

 

Jamais houve coisa igual em uma consciência humana.

 

Erupção de um hipócrita, não há rompimento de cratera igual a esse.

 

Achava-se feliz por não haver ali ninguém, e não desgostaria que alguém o visse. Teria prazer em ser medonho à vista de uma testemunha.

 

Teria prazer em dizer ao gênero humano: és idiota!

 

A ausência de homens assegurava-lhe o triunfo, mas diminuía-o. Só ele era o espectador da sua glória.

 

Há certo encanto em estar de golilha. Toda a gente vê que és infame.

 

Obrigar a multidão a examinar-te é reconhecer a tua força. Um galé sobre um estrado, com uma coleira de ferro ao pescoço, é o déspota de todos os olhares que ele obriga a voltarem-se para si. Aquele cadafalso é ao mesmo tempo pedestal. Que mais belo triunfo do que esse de ficar no centro de convergência para a atenção geral? Obrigar o olhar público é uma das formas de supremacia. Os que têm o mal por ideal acham no opróbrio uma auréola. Domina-se daí. Olha-se de cima de alguma coisa. Mostra-se com soberania. Um poste, à vista de todo o universo, tem alguma analogia com um trono.

 

Estar exposto é ser contemplado.

 

Um mau reinado tem evidentemente júbilos do pelourinho. Nero incendiando Roma, Luís XIV tomando traiçoeiramente o Palatinado, o Regente Jorge matando lentamente Napoleão, Nicolau assassinando a Polônia em face da civilização, deviam sentir um pouco daquela volúpia sonhada por Clubin. A imensidade do desprezo parece grandeza ao desprezado.

 

Ser desmascarado é uma derrota, mas desmascarar-se é uma vitória. É a ebriedade, é a imprudência insolente e satisfeita, é uma nudez transportada que insulta tudo diante de si. Suprema felicidade.

 

Estas idéias em um hipócrita parecem contradição, e não são. Toda a infâmia é conseqüente. O mel é fel. Escobar confina no Marquês de Sade. Prova: Léotade. O hipócrita, sendo perverso completo, tem em si os dois pólos da perversidade. De um lado é padre, do outro cortesão. O seu sexo de demônio é duplo. O hipócrita é o horrível hermafrodita do mal. Fecunda-se a si próprio; gera-se, transforma-se. Queres vê-lo formoso? Olha-o. Queres vê-lo horrível? Vira-o.

 

Clubin tinha em si toda esta sombra de idéias confusas. Pouco as percebia, mas gozava-as muito.

 

Uma porção de faíscas do inferno, atravessando a noite, era a sucessão dos pensamentos naquela alma.

 

Clubin conservou-se pensativo algum tempo; olhava para a sua honestidade com o ar com que a serpente contempla a pele que despiu.

 

Toda a gente acreditou naquela honestidade, ele próprio acreditou um bocadinho nela.

 

Deu segunda gargalhada.

 

Iam pensar que ele estava morto, e estava vivo.

 

Pensavam que estava perdido, e estava salvo. Que boa caçada à tolice universal!

 

E nessa tolice universal contava-se Rantaine. Clubin pensava em Rantaine com um desdém sem limites. Desdém da fuinha para com um tigre. Tinha conseguido o que falhara a Rantaine. Rantaine retirara-se enfiado, e Clubin triunfante. Tomou o lugar de Rantaine no leito da sua má ação, e foi ele quem teve a boa fortuna.

 

Quanto ao futuro, Clubin não tinha plano. Possuía os bilhetes do banco na boceta de ferro atada à cintura; bastava-lhe esta certeza. Mudaria de nome. Há países onde 60 000 francos valem 600 000. Não seria má solução ir para um desses lugares viver honestamente com o dinheiro apanhado ao ladrão Rantaine. Especular, entrar em um grande negócio, engrossar o capital, tornar-se seriamente milionário também não era mau.

 

Por exemplo, em Costa Rica, como era o começo do grande comércio do café, podia ganhar tonéis de ouro. Veria isso.

 

Demais, pouco importava. Clubin tinha tempo de pensar nessas coisas. O mais difícil estava feito. Despojar Rantaine, desaparecer com a Durande era o mais importante. Estava feito. O resto era simples. Não havia obstáculo possível. Nada a temer. Não podia acontecer nada. Nadaria para a costa, abordaria a Plainmont, de noite, galgaria as rochas da praia, iria à casa mal-assombrada, entraria facilmente por meio da corda de nós escondida de antemão no buraco do rochedo; acharia na casa a mala contendo roupa e víveres, dentro de oito dias lá estavam os contrabandistas da Espanha, Blasquito provavelmente; por alguns guinéus, far-se-ia transportar, não a Tor Bay, como disse a Blasco para iludir, mas a Pasages ou a Bilbau. Daí iria a Vera Cruz ou a Nova Orleans. Já era tempo de atirar-se ao mar, a chalupa estava longe, uma hora a nado era coisa nenhuma para Clubin, só 1 milha o separava da terra, pois que estava no Hanois.

 

Neste ponto dos seus cálculos, rasgou-se uma fresta do nevoeiro. O formidável rochedo Douvres surgiu aos seus olhos.

 

 

 

CAPÍTULO VII

INTERVÉM O INESPERADO

 

Clubin olhou espantado.

 

Era o medonho escolho isolado.

 

Não era possível a ilusão a respeito daquela configuração disforme. As duas Douvres gêmeas campeavam horríveis deixando ver entre si, como uma armadilha, a garganta de que falamos. Dissera-se um quebra-costas do oceano.

 

Estavam perto dele as rochas Douvres; o nevoeiro, como cúmplice, escondera-as.

 

Clubin errara o caminho por causa do nevoeiro. Apesar de toda a atenção, aconteceu-lhe o mesmo que a dois grandes navegadores, a González, que descobriu o cabo Branco, e a Fernández, que descobriu o cabo Verde. A bruma desencaminhou-o. Pareceu-lhe excelente para a execução do projeto, mas tinha os seus perigos. Clubin desviou-se para o oeste e enganou-se. O passageiro guernesiano, acreditando ver o Hanois, determinou o movimento do leme final; Clubin cuidou que se atirava ao Hanois.

 

A Durande, arrombada por um dos bancos do escolho, estava separada das Douvres apenas por algumas centenas de braças.

 

A 200 braças mais longe via-se um maciço cubo de granito. Descobriam-se nas faces escarpadas desta rocha algumas estrias e relevos apropriados para galgá-la.

 

Os cantos retilíneos dessas rudes muralhas de ângulo reto faziam pressentir no cume uma planura.

 

Era o Homem.

 

A rocha Homem era mais alta ainda que as Douvres. A sua plataforma dominava as pontas inacessíveis das duas rochas. Essa plataforma, abatendo-se pelas bordas, tinha uma cimalha e mostrava uma certa regularidade arquitetural. Não se podia imaginar nada mais triste e funesto. As vagas iam dobrar as suas tranqüilas toalhas nas faces quadradas daquele enorme rochedo negro, espécie de pedestal para os espectros imensos do mar e da noite.

 

Tudo aquilo estava mudo e morto. Havia apenas um sopro no ar e uma ruga nas ondas. Debaixo daquela superfície muda da água adivinhava-se a vasta vida afogada das profundezas.

 

Clubin vira muitas vezes de longe o escolho Douvres.

 

Convenceu-se bem que eram ali as Douvres.

 

Não podia duvidar.

 

Súbita e terrível mudança. As Douvres em vez de Hanois. Em vez de 1 milha, 5 léguas do mar! O impossível. A rocha Douvres, para o náufrago solitário, é a presença visível e palpável dos últimos momentos. É impossível chegar à terra.

 

Clubin estremeceu. Tinha se metido na goela da sombra. Não havia outro refúgio além do rochedo Homem. Era provável que a tempestade sobreviesse de noite, e que a chalupa da Durande, sobrecarregada, soçobrasse. Nenhum aviso do naufrágio chegaria à terra. Não se saberia mesmo que Clubin ficara no rochedo Douvres. Não havia outra perspectiva senão a morte por frio e fome. Os seus 75.000 francos nem mesmo lhe davam um bocado de pão. Tudo quanto ele construíra deu em resultado aquela cilada; foi ele próprio o arquiteto laborioso de sua emboscada. Nenhum recurso. Nenhuma solução possível. O triunfo fazia-se precipício. Em vez da liberdade, a captura. Em vez de um futuro próspero e longo, a agonia. De um relance esboroou-se-lhe o edifício. O paraíso sonhado por aquele demônio retomou a sua verdadeira figura: o sepulcro.

 

Entretanto, soprava o vento. O nevoeiro, sacudido, furado, repuxado, desfazia-se no horizonte em grandes lanhos informes. Reapareceu o mar.

 

Os bois, cada vez mais invadidos pela água, continuavam a berrar no porão.

 

Aproximava-se a noite; provavelmente a tempestade.

 

A Durande, a pouco e pouco levantada pelo mar, oscilava da direita para a esquerda, depois da esquerda para a direita, e começava a girar sobre o escolho como sobre um eixo.

 

Podia-se pressentir o momento em que uma vaga arrancaria o navio e o levaria água abaixo.

 

Havia menos obscuridade do que no momento do naufrágio. Apesar da hora ser já avançada, estava mais claro. O nevoeiro levou consigo uma parte da escuridão. O oeste limpou-se de nuvens. O crepúsculo é um vasto céu branco. Essa vasta claridade alumiava o mar.

 

A Durande naufragara em plano inclinado de popa a proa. Clubin trepou à proa que estava quase fora da água. Fitou no horizonte os olhos.

 

É próprio da hipocrisia ater-se à esperança. O hipócrita é o homem que espera. A hipocrisia é uma esperança horrível: o fundo dessa mentira é feito desta virtude, tornada vício.

 

Coisa estranha de dizer, há confiança na hipocrisia. O hipócrita confia-se a certa indiferença do desconhecido, que consente no mal.

 

Clubin olhava para a extensão.

 

A situação era desesperada: aquela alma sinistra não desesperou.

 

Dizia consigo que depois daquele longo nevoeiro os navios conservados na bruma, à capa ou ancorados, iam continuar viagem, e algum passaria no horizonte.

 

E, com efeito, apareceu uma vela.

 

Vinha de leste e ia para oeste.

 

Aproximando-se, desenhava-se o navio; tinha apenas um mastro, e estava armado em goleta. O gurupés era quase horizontal.

 

Antes de meia hora devia passar por perto do escolho Douvres.

 

Clubin disse consigo: “Estou salvo”.

 

Em momentos semelhantes, pensa-se primeiro na vida.

 

O cúter era quase estrangeiro. Quem sabe se não era um dos contrabandistas que iam a Plainmont? Quem sabe se não era Blasquito? Nesse caso, não somente salvava a vida como a fortuna; e o encontro do rochedo Douvres, apressando a conclusão, suprimindo a espera na casa mal-assombrada, dando desfecho à aventura em pleno mar, seria um incidente feliz.

 

Toda a certeza do bom êxito entrou freneticamente naquele espírito sombrio.

 

Estranha coisa é ver com que facilidade os tratantes acreditam que devem ser bem-sucedidos.

 

Cumpria fazer apenas uma coisa.

 

A Durande, metida nos rochedos, misturava a sua configuração à deles, confundia-se com os seus recortes, sobre os quais parecia apenas um lineamento, ficava indistinta e perdida, e não bastava, com o pouco dia que havia, para atrair a atenção da embarcação que ia passar.

 

Mas uma figura humana, desenhando-se na alvura crepuscular, de pé na planura do rochedo Homem, e fazendo sinais de perigo, seria vista, sem dúvida alguma. Mandariam um escaler para recolher o náufrago.

 

O rochedo Homem ficava a 200 braças. Era simples atingi-lo a nado, fácil trepar por ele.

 

Não havia tempo a perder.

 

Estando a proa da Durande sobre a rocha, era do alto da popa e do ponto em que estava que Clubin devia atirar-se ao mar.

 

Começou por deitar uma sonda, e reconheceu que havia ao pé da popa muito fundo. As conchas microscópicas de foraminíferos e de policistináceos que a sonda trouxe consigo estavam intactas, o que indicava que havia ali profundas cavas de rocha, onde a água, qualquer que fosse a agitação da superfície, era sempre tranqüila.

 

Despiu-se, deixando as roupas no tombadilho. Acharia roupa no cúter. Conservou apenas o cinto de couro.

 

Depois de despir-se, levou a mão ao cinto, apertou-o bem, apalpou a caixinha de ferro, estudou rapidamente com o olhar a direção que devia seguir no meio dos parcéis e das vagas para alcançar o rochedo Homem; depois, precipitou-se de cabeça para baixo.

 

Como caiu de alto, mergulhou muito.

 

Chegou ao fundo do mar, tocou-o. Costeou alguns instantes as rochas submarinas, depois fez um movimento para subir à superfície.

 

Nesse momento sentiu-se agarrado pelo pé.

 

 

 

LIVRO SÉTIMO

IMPRUDÊNCIA DE INTERRROGAR UM LIVRO

 

CAPÍTULO PRIMEIRO

A PÉROLA NO FUNDO DO PRECIPÍCIO

 

Minutos depois do curto colóquio com o Sr. Landoys, Gilliatt estava em Saint-Sampson.

 

Gilliatt ia inquieto até à ansiedade. Que teria acontecido?

 

Saint-Sampson tinha um rumor de colmeia assustada. Toda a gente estava às portas. As mulheres exclamavam. Muitas pessoas contavam alguma coisa fazendo gestos; as outras agrupavam-se à roda dessas. Ouviam-se estas palavras: “Que desgraça!”. Alguns sorriam. Gilliatt não interrogou ninguém. Não era próprio dele fazer perguntas. Demais ia demasiado comovido para falar a indiferentes. Desconfiava das narrações, preferia saber logo tudo; foi à casa de Lethierry.

 

A sua ansiedade era tal que nem mesmo teve medo de entrar naquela casa.

 

Demais, a porta da sala baixa estava escancarada. Na soleira havia um formigueiro de homens e mulheres. Todos entravam; ele entrou.

 

Entrando, achou encostado à porta o Sr. Landoys, que lhe disse a meia-voz:

 

Então, já sabe do sucesso?

 

Não.

 

Eu não quis dizer-lhe há pouco do meio da rua. Pareceria correio de desgraças.

 

Que foi então?

 

Perdeu-se a Durande.

 

Havia muita gente na sala.

 

Os grupos falavam baixo, como no quarto de um doente.

 

Os assistentes, que eram os vizinhos, os viandantes, os curiosos, estavam amontoados ao pé da porta, com uma espécie de receio, e deixavam vazio o fundo da sala onde estava, ao lado de Déruchette lacrimosa e assentada, Mess Lethierry de pé.

 

Lethierry estava encostado ao tabique do fundo. O boné de marujo caía-lhe nas sobrancelhas; uma mecha de cabelos grisalhos prendia-se-lhe na face. Não dizia nada. Os braços não tinham movimento, a boca parecia não ter alento. Parecia uma coisa encostada à parede.

 

Ao vê-lo, sentia-se um homem dentro de quem se extinguira a vida. Deixando de existir a Durande, Lethierry já não tinha razão de ser. Tinha uma alma no mar, e essa alma acabava de perecer. Que faria ele agora? Levantar-se de manhã, deitar-se de noite. Já não podia esperar a Durande, nem vê-la partir nem voltar. O que é um resto de existência sem objeto? Beber, comer, e depois? Aquele homem tinha coroado os seus trabalhos com uma obra-prima, e as dedicações com um progresso. Abolira-se-lhe o progresso, morrera-lhe a obra-prima. Para que viver ainda alguns anos vazios? Não tinha mais nada que fazer. Naquela idade não é possível recomeçar; de mais a mais estava arruinado. Pobre velho!

 

Déruchette, assentada ao pé dele e chorando, tinha entre as suas duas mãos a mão de Mess Lethierry. As dela estavam postas, a de Lethierry apertada. Via-se nisso a diferença daqueles dois abatimentos. As mãos postas ainda têm esperança; a apertada nenhuma.

 

Mess Lethierry abandonava-lhe o braço sem resistência. Estava passivo. Tinha em si apenas aquela porção de vida que pode haver depois do raio.

 

Há certas descidas ao fundo do abismo que retiram um homem do meio dos vivos. As pessoas que andam em roda são confusas e indistintas; acotovelam-no e não lhe chegam. De parte a parte ficam inacessíveis. A ventura e o desespero não são os mesmos centros respiráveis; o desesperado assiste à vida dos outros, mas de muito longe; ignora quase a sua presença; perde o sentimento da própria existência; que importa ser de carne e osso, o desesperado já se não sente real; já não é ele próprio, é apenas um sonho.

 

Mess Lethierry tinha o olhar dessa situação.

 

Cochichavam os grupos.

 

Cada qual dizia o que sabia.

 

Eis as notícias:

 

A Durande perdera-se na véspera nos rochedos Douvres, com o nevoeiro, uma hora antes do pôr-do-sol. À exceção do capitão, que não quis deixar o navio, toda a gente salvou-se na chalupa. Uma borrasca, vinda do sudoeste, depois do nevoeiro, quase fez naufragar a chalupa, e carregou-a para o mar largo, além de Guernesey. De noite tiveram os náufragos a boa fortuna de encontrar o Cashmere, que os recolheu e levou a Saint-Pierre-Port. O culpado de tudo foi o timoneiro Tangrouille, que já estava preso. Clubin mostrou-se magnânimo.

 

Os pilotos que abundavam nos grupos pronunciavam estas palavras “escolho Douvres” de um modo particular. “Má hospedaria aquela!”, dizia um deles.

 

Viam-se na mesa uma bússola e um maço de registros e notas; eram sem dúvida a bússola da Durande e os papéis de bordo entregues por Clubin a Imbrancam e a Tangrouille no momento de partir a chalupa; magnífica abnegação desse homem, salvando até os papéis no momento em que ia morrer; minuciazinha cheia de grandeza, esquecimento sublime de si próprio.

 

Todos eram unânimes em admirar Clubin, e igualmente unânimes em julgá-lo salvo. O cúter Shealtiel chegara poucas horas depois do Cashmere, e esse cúter trazia as últimas informações. Esteve 24 horas nas mesmas águas da Durande. Parou e bordejou durante o nevoeiro e a tempestade. O patrão do Shealtiel estava também na sala de Lethierry.

 

No momento em que Gilliatt entrou, acabava ele de fazer a sua narração a Mess Lethierry. Era um verdadeiro relatório. De manhã, tendo cessado a borrasca e acalmado o vento, o patrão do Shealtiel ouviu mugido de bois em pleno mar. Este rumor próprio das campinas, ouvido ali nas vagas, surpreendeu o patrão. Descobriu a Durande nos rochedos Douvres. A calma era suficiente para que ele pudesse acercar-se dos rochedos. Chamou o navio à fala. Só lhe respondeu o mugido dos bois que se afogavam no porão. O patrão do Shealtiel estava certo de que não havia ninguém a bordo da Durande. O casco estava completamente preso; e por mais violenta que fosse a borrasca, devia ter passado a noite de bordo. Não era homem de desanimar facilmente. Não estava de bordo. Logo estava salvo.

 

Muitos sloops e lugres de Granville e Saint-Malo, desprendendo-se do nevoeiro, era fora de dúvida que deviam ter costeado as Douvres. Evidentemente algum deles recolheu o Capitão Clubin. Devem lembrar-se que a chalupa da Durande estava cheia ao deixar o navio, ia correr perigos, mais um homem poderia fazê-la soçobrar, e foi isso sobretudo o que resolveu Clubin a ficar na Durande; mas, cumprido esse dever, se aparecesse um navio salvador, Clubin não teria dificuldade de aproveitar-se dele. Deve-se ser herói, não se deve ser pascácio. Um suicídio seria tanto mais absurdo quanto que Clubin portara-se com dignidade. O culpado era Tangrouille, não Clubin. Tudo isto era conseqüente; o patrão do Shealtiel tinha razão e toda a gente esperava ver Clubin de um momento para outro. Premeditava-se recebê-lo em triunfo.

 

Da narração do mestre resultavam duas certezas: Clubin salvo e a Durande perdida.

 

Quanto à Durande, estava decidido que a catástrofe era irremediável. O patrão do Shealtiel assistira à última fase do naufrágio. O grandíssimo rochedo em que naufragara a Durande resistira ao choque da tempestade, como se quisesse guardar consigo o navio; mas de manhã, no momento em que o Shealtiel, verificando que não havia ninguém para salvar, afastava-se da Durande, houve um desses movimentos de mar que são como os últimos arrancos da cólera das tempestades. Essa onda levantou furiosamente a Durande, arrancou-a do cachopo, e com a rapidez e a retidão de uma flecha disparada, atirou-a entre as duas rochas Douvres. Ouviu-se um estalo “diabólico”, dizia o patrão. A Durande, levada pela vaga a uma certa altura, meteu-se entre as rochas. Estava outra vez pregada, mas desta vez mais solidamente que no escolho submarino. Ficou aí deploravelmente suspensa, exposta a todo o vento e a todo mar.

 

A Durande, no dizer da equipagem do Shealtiel, já estava quase toda despedaçada. Teria soçobrado, com certeza, de noite, se o cachopo não a sustivesse. O patrão do Shealtiel com o seu óculo estudou o casco. Descreveu o desastre com precisão marítima; o lado de estibordo estava roto; os mastros truncados, o velame sem tralhas, as correntes dos ovéns quase todas cortadas, as sangadilhas cortadas o mais rente possível desde o meio do mastro até acima; o lugar dos víveres arrombado, os cavaletes da chalupa destruídos, a árvore do leme rota, os cabos despregados, os paveses arrasados, as abitas levadas pelo vento, a antena do mesmo modo, o cadaste quebrado. Era a devastação frenética da tempestade. Quanto ao guindaste do carregamento, preso ao mastro de proa, já não existia, não havia notícia dele, completamente limpo, levaram-no os diabos, com todas as roldanas, polés e correntes. A Durande estava deslocada; a água começava agora a despedaçá-la. Dentro de alguns dias nada mais restaria dela.

 

E contudo a máquina, coisa notável, e que provava a sua perfeição, sofreu pouco com a tempestade. O patrão do Shealtiel afirmava que a manivela não teve avaria grave. Os mastros do navio cederam, mas o cano da máquina resistiu. Os baluartes de ferro do lugar do comando estavam apenas torcidos; as caixas das rodas sofreram, mas as rodas pareciam não ter um só raio de menos. A máquina estava intacta. Era a convicção do patrão do Shealtiel. O maquinista Imbrancam, que estava entre os grupos, partilhava esta convicção. Aquele negro, mais inteligente que muitos brancos, era o admirador da máquina. Levantava os braços abrindo os dez dedos das suas mãos negras, e dizia a Lethierry mudo: “Meu amo, a máquina está viva”.

 

O salvamento de Clubin parecia coisa segura; o casco da Durande estava sacrificado; a conversação dos grupos recaiu sobre a máquina. Interessavam-se por ela, como se fosse uma pessoa. Todos admiravam o bom procedimento da máquina. “Sólida comadre aquela”, dizia um marinheiro francês. “É magnífica!”, exclamava um pescador guernesiano. “Deve ter sido muito astuciosa”, acrescentava o patrão, “para escapar apenas com alguns arranhões.”

 

A pouco e pouco tornou-se a máquina a preocupação única. Animou as opiniões pró e contra. Tinha amigos e inimigos. Mais de um, que tinha algum velho cúter de vela, e esperava apanhar a freguesia da Durande, alegrou-se por ver o escolho Douvres fazer justiça à nova invenção. O cochicho tornou-se algazarra. Discutia-se com barulho. Era contudo um rumor discreto, que de quando em quando se calava sob a pressão do silêncio sepulcral de Lethierry.

 

Do colóquio havido em todos os pontos resultava isto:

 

A máquina era o essencial. Refazer o navio era possível, não a máquina. Era única. Para fabricar outra faltavam o dinheiro e o fabricante. Lembram-se de que o construtor tinha morrido. Custou 40 000 francos. Ninguém arriscaria agora aquele capital naquela eventualidade; tanto mais quanto acabava de provar-se que os vapores naufragam como navios de vela; o acidente atual da Durande metia a pique o seu passado sucedimento. E era doloroso pensar que naquele momento a máquina ainda estava em bom estado, e que, antes de cinco ou seis dias, ficaria despedaçada como o navio. Enquanto existia a máquina, podia dizer-se que não havia naufrágio. Só a perda da máquina era irremediável. Salvar a máquina era reparar o desastre.

 

Salvar a máquina é fácil dizê-lo. Mas quem ousaria? Era acaso possível? Dizer e executar são coisas diferentes, e a prova é que é fácil formular uma aspiração e difícil executá-la. Ora, se houve jamais um sonho impraticável e insensato era este: salvar a máquina encalhada nas Douvres. Mandar trabalhar naquelas rochas um navio e uma equipagem seria absurdo; não se devia pensar nisso. Era a estação dos temporais: ao primeiro que houvesse, rasgavam-se as correntes das amarras nas pontas submarinas e o navio despedaçava-se. Era mandar um naufrágio em socorro do primeiro. Na espécie de buraco da planura superior onde se abrigara o náufrago legendário morto de fome, mal havia lugar para um homem. Era preciso, pois, que, para salvar essa máquina, fosse um homem aos rochedos Douvres, e que fosse sozinho, só naquele mar, só naquele deserto, só a 5 léguas da costa, naquele medo, só durante semanas inteiras, só diante do previsto e do imprevisto, sem vitualhas nas angústias da privação, sem socorro nos incidentes da desgraça, sem outro vestígio humano que o do antigo náufrago morto ali, sem outro companheiro além daquele finado.

 

E como salvaria ele a máquina? Era preciso que fosse, não somente marujo, senão também ferreiro. E quantas dificuldades! O homem que o tentasse seria mais que um herói. Seria um louco. Porquanto, em certos cometimentos desproporcionados, onde parece necessário o sobre-humano, a bravura tem acima de si a demência. E, com efeito, sacrificar-se por um pouco de ferro não era extravagante? Não, ninguém iria aos rochedos Douvres. Devia-se renunciar à máquina do mesmo modo que ao navio. O salvador que era preciso não aparecia. Onde encontrar esse homem?

 

Isto, dito de outro modo, era o fundo das conversas murmuradas daquela multidão.

 

O patrão do Shealtiel, que era um antigo piloto, resumiu o pensamento de todos exclamando em alta voz:

 

Não! Está acabado. Não existe um homem capaz de ir buscar a máquina!

 

Se eu não vou — disse Imbrancam — é que é impossível ir.

 

O patrão do Shealtiel sacudiu a mão esquerda com aquele arrebatamento que exprime a convicção do impossível, e repetiu:

 

Se existisse.

 

Déruchette voltou a cabeça.

 

Casava-me com ele.

 

Houve um silêncio.

 

Um homem pálido saiu do meio dos grupos e disse:

 

A senhora casava-se com ele, Miss Déruchette?

 

Era Gilliatt.

 

Entretanto, todos levantaram os olhos. Mess Lethierry endireitou-se. Tinha nos olhos uma luz estranha.

 

Tirou o boné e lançou ao chão, depois olhou solenemente para a frente sem ver pessoa alguma e disse:

 

Déruchette casava-se com esse homem. Dou a minha palavra de honra a Deus.

 

 

 

CAPÍTULO II

GRANDE ESPANTO NA COSTA OESTE

 

A noite desse dia, das 10 horas em diante, devia ser noite de luar. Todavia, qualquer que fosse a boa aparência da noite, do vento e do mar, nenhum pescador estava disposto a sair nem de Hougue la Perre, nem de Bordeaux, nem de Houmet Benet, nem de Platon, nem de Port-Grat, nem da baía Vason, nem de Perelle Bay, nem de Pezeris, nem de Tielles, nem da baía dos Santos, nem de Petit Bô, nem de nenhum outro porto ou angra de Guernesey. E isso por uma razão simples: o galo tinha cantado ao meio-dia.

 

Quando o galo canta a uma hora extraordinária, não há peixe.

 

Nesse dia, pois, ao cair da tarde, um pescador que voltava a Omptolle teve uma surpresa. Na altura de Houmet Paradis, além de Brayes e Grunes, tendo à esquerda a baliza de Plattes Fougères, que representa um funil virado, e à direita a baliza de Saint-Sampson, que representa uma figura de homem, o pescador acreditou ver uma terceira baliza. Que baliza era essa? Quando foi posta ali? Que banco indicava ela? A baliza respondeu logo a estas interrogações; mexeu-se; era um mastro. Não diminuiu o espanto do pescador. Baliza era para admirar; mastro ainda mais. Não havia pesca possível. Quando todos voltavam, por que saía aquele? Quem era? Por quê?

 

Dez minutos depois, o mastro, caminhando lentamente, chegou a pouca distância do pescador de Omptolle. Este não pôde reconhecer o barco. Ouviu remar. O ruído era de dois remos. Provavelmente era um homem só. O vento era norte; o homem navegava evidentemente para ir tomar o vento além da ponta Fontenelle. Aí era natural que abrisse a vela. Contava pois dobrar o Ancresse e o monte Crevel. Que queria dizer aquilo?

 

O mastro passou; o pescador foi para terra.

 

Nessa mesma noite, na costa oeste de Guernesey, observadores de ocasião disseminados e isolados fizeram alguns reparos a horas diversas e em diversos pontos.

 

O pescador de Omptolle acabava de amarrar o barco, quando um condutor de sargaço, a meia milha distante, chicoteando os animais na estrada deserta de Clotures, perto do Cromleche, nos arredores dos martelos 6 e 7, viu no mar, um tanto longe, em lugar pouco freqüentado, porque é preciso conhecê-lo bem, do lado da Roque-Nord e da Sablonneuse, um barco içando uma vela. Deu pouca atenção, pois que era homem de carro e não de barco.

 

Meia hora depois, um estucador que voltava da cidade e contornava a lagoa de Pelée achou-se repentinamente quase em face de um barco que penetrara audaciosamente entre as rochas do Quenon, da Rousse de Mer, e da Gripe de Rousse. A noite era negra, mas o mar estava claro, efeito que se produz muitas vezes, e podia-se distinguir ao largo os navegantes. Só havia no mar aquele barco.

 

Mais abaixo e mais tarde, um pescador de lagostas, dispondo as suas tendas no areal que separa o Port Soif do Port Enfer, não compreendeu o que faria um barco que passava entre a Boue Corneille e a Moulrette. Era preciso ser bom piloto e ter pressa de chegar a algum lugar para arriscar-se a passar ali.

 

Sendo 8 horas no Catel, o taverneiro de Cobo Bay observou, com algum espanto, uma vela além da Boue do Jardim e das Grunettes, mui perto da Suzanne e dos Grunes do Oeste.

 

Não longe do Cobo Bay, na ponta solitária do Houmet da baía Vason, estavam dois namorados a despedir-se e a reter-se um ao outro; foram distraídos do último beijo por um vasto barco que passou por perto deles e dirigia-se para as Menellettes.

 

O Sr. Le Peyre des Norgiots, morador em Catellon Pipet, estava examinando, às 9 horas da noite, um buraco feito por larápios na cerca da sua horta, e ao mesmo tempo que averiguava os estragos, não pôde deixar de observar um barco dobrando temerariamente o Croce-Point àquela hora.

 

No dia seguinte ao de uma tempestade, com o resto de agitação que sempre fica no mar, aquele itinerário era pouco seguro, a menos que se não saiba de cor todos os passos. Às 9 horas e meia, no Equerrier, um pescador levando a rede, parou algum tempo para ver entre Colombelle e Soufleresse alguma coisa que devia ser um barco e que se expunha muito ao tempo. Há ventos perigosos nesse lugar. A rocha Soufleresse é assim chamada porque sopra constantemente os barcos que passam.

 

Ao levantar da lua, estando a maré cheia, e havendo pleno mar no estreito de Li-Hou, o guarda solitário da ilha de Li-Hou assustou-se ao ver passar entre a lua e ele uma longa forma negra. Esta forma ia resvalando lentamente por cima das espécies de paredes que formam os bancos da rocha. O guarda de Li-Hou pensou ver a Dama Negra.

 

A Dama Branca habita o Tau de Pez d'Amont, a Dama Cinzenta habita o Tau de Pez d'Aval, a Dama Vermelha habita a Lilleuse ao norte do Banc-Marquis, e a Dama Negra habita o Grand-Etacré ao leste de Li-Houmet. Ao clarão da lua todas essas damas saem e encontram-se às vezes.

 

Rigorosamente essa forma negra podia ser uma vela. As longas fileiras de rochas sobre as quais parecia que a vela andava podiam com efeito esconder o casco de um barco vogando atrás de si, deixando ver apenas a vela. Mas o guarda perguntou a si próprio que barco ousaria arriscar-se àquelas horas entre Li-Hou e a Pecheresse, e as Angullières e Lerée-Point. E com que fim? Pareceu-lhe mais provável que fosse a Dama Negra.

 

Estando a lua já acima da torre de Saint-Pierre-du-Bois, o sargento de Rocquaine levantou metade da escada da ponte levadiça e distinguiu na foz da baía, mais perto que a Sambule, um barco à vela que parecia descer de norte a sul.

 

Existe na costa sul de Guernesey, atrás do Plainmont, no fundo de uma baía, toda precipícios e muralhas, cortado a pique na onda, um porto singular que um francês, residente na ilha desde 1844, talvez o mesmo que escreve agora estas linhas, batizou com o nome de “porto do quarto andar”, nome geralmente adotado hoje. Esse porto que então se chamava a Moie, é uma planura de rocha meio natural, meio talhada, de 40 pés de altura acima da água, e comunicando com as vagas por duas grandes pranchas em plano inclinado. Os barcos içados à força de braços por correntes e roldanas, saem ao mar e descem ao longo dessas pranchas que são dois trilhos. Para os homens há uma escada. Esse porto era então muito freqüentado pelos contrabandistas. Sendo pouco praticável, era-lhes cômodo.

 

Pelas 11 horas, alguns trapaceiros, talvez os mesmos com quem Clubin contava, estavam com os seus fardos na Moie. Quem trapaceia, espia; eles espiavam. Admiraram-se de ver uma vela desembocando repentinamente além das linhas negras do cabo Plainmont. O luar estava claro. Os contrabandistas espreitavam a vela, receando que fosse algum guarda-costa colocar-se de emboscada atrás do grande Hanois, mas a vela passou os Hanois, deixou atrás de si a noroeste a Boue Blondil, e mergulhou-se ao largo nas brumas lívidas do horizonte.

 

Aonde diabo vai aquela barca? — disseram os contrabandistas.

 

Na mesma noite, pouco depois de pôr o sol, ouviu-se alguém bater na porta da casa mal-assombrada em que morava Gilliatt. Era um rapaz vestido de escuro, com meias amarelas, o que indicava ser sacristão. A casa estava fechada, porta e postigos. Uma velha pescadora de frutos do mar, passeando pelo banco, com uma lanterna na mão, chamou o rapaz, e trocaram-se estas palavras entre eles:

 

Que quer você?

 

O hhhhhhooomem daqui.

 

Não está aqui.

 

Onde está?

 

Não sei.

 

Virá amanhã?

 

Não sei.

 

Foi-se embora daqui?

 

Não sei.

 

É que o novo cura da paróquia, o Reverendo Ebenezer Caudray, queria fazer-lhe uma visita.

 

Não sei.

 

O reverendo mandou-me saber se o homem estava em casa amanhã de manhã.