Cherchez la femme
Texto-fonte:
Obra Completa, Machado de Assis,
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, V.III, 1994.
Publicado originalmente
Quem inventou esta frase, como uma advertência própria a
devassar a origem de todos os crimes, era talvez um ruim magistrado, mas, com
certeza, excelente filósofo. Como arma policial, a frase não tem valor, ou
pouco e restrito; mas aprofundai-a, e vereis tudo que ela abrange; vereis a
vida inteira do homem.
Antes da sociedade, antes da família, antes das artes e do
conforto, antes das belas rendas e sedas que constituem o sonho da leitora
assídua deste jornal, antes das valsas de Strauss, dos Huguenotes, de Petrópolis, dos landaus e das luvas de pelica;
antes, muito antes do primeiro esboço da civilização, toda a civilização estava
em gérmen na mulher. Neste tempo ainda não havia pai, mas já havia mãe. O pai
era o varão adventício, erradio e fero que se ia, sem curar da prole que
deixava. A mãe ficava; guardava consigo o fruto do seu amor casual e
momentâneo, filho de suas dores e cuidados; mantinha-lhe a vida. Não desvie a
leitora os seus belos olhos desse infante bárbaro, rude e primitivo; é talvez o
milionésimo avô daquele que lhe fabricou agora o seu véu de Malines ou Bruxelas;
ou — provável conjetura! — é talvez o milionésimo avô de Meyerbeer, — a não ser
que o seja do Sr. Gladstone ou da própria leitora.
Se quereis procurar a mulher, é preciso ir até lá, até
esse tempo, d'ogni luce mutto, antes
dos primeiros albores. Depois, regressai. Vinde, rio abaixo dos séculos, e onde
quer que pareis, a mulher vos aparecerá, com o seu grande influxo, algumas
vezes maléfico, mas sempre irrecusável; achá-la-eis na origem do homem e no fim
dele; e se devemos aceitar a original teoria de um filósofo, ela é quem
transmite a porção intelectual do homem.
Assim, amável leitora, quando alguém vier dizer-vos que a
educação da mulher é uma grande necessidade social, não acrediteis que é a voz
da adulação, mas da verdade. O assunto é decerto prestado à declamação; mas a
idéia é justa. Não vos queremos para reformadoras sociais, evangelizadoras de
teorias abstrusas, que mal entendeis, que em todo caso desdizem do vosso papel;
mas entre isso e a ignorância e a frivolidade, há um abismo; enchamos esse
abismo.
A companheira do homem precisa entender o homem. A graça
da sociedade deve contribuir para ela mais do que com o influxo de suas
qualidades tradicionais. Enfim, é preciso que a mulher se descative de uma
dependência, que lhe é imortal, que não lhe deixa muita vez outra alternativa
entre a miséria e a devassidão.
Vindo à nossa sociedade brasileira, urge dar à mulher
certa orientação que lhe falta. Duas são as nossas classes feminis, — uma
crosta elegante, fina, superficial, dada ao gosto das sociedades artificiais e
cultas; depois a grande massa ignorante, inerte e virtuosa, mas sem impulsos, e
em caso de desamparo, sem iniciativa nem experiência. Esta tem jus a que lhe
dêem os meios necessários para a luta da vida social; e tal é a obra que ora
empreende uma instituição antiga
[1]
nesta
cidade, que não nomeio porque está na boca de todos, e aliás vai indicada noutra
parte desta publicação.
A ocasião é excelente para uns apanhados de estilo, uma
exposição grave e longa do papel da mulher no futuro, para uma dissertação
acerca do valor da mulher, como filha, esposa, mãe, irmã, enfermeira e mestra,
tudo lardeado dos nomes de Rute e Cornélia, Récamier e a Marquesa de
Alorna. Não faltaria dizer que a mulher é a estrela que leva o homem pela vida
adiante, e que principalmente as leitoras d’A
Estação merecem o
culto de todos os espíritos elegantes. Mas estas coisas subentendem-se,
e não se dizem por ociosas. Baste-nos isto: educar a mulher é educar o próprio
homem, a mãe completará o filho.